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URGÊNCIA



Dona Mariquinha acordou com uma urgência esquisita. Uma urgência sem nome. E enquanto fervia água com rapadura para passar o café, comentou com Seu Juca que alguma coisa não amanhecera bem naquele dia. “Ce acordou impressionada, muié. É só isso.” Mas não era só isso, não. Dona Mariquinha tinha desejos esquecidos. Não comeu a broa que preparava para o desjejum. Preferiu as rosquinhas rigorosamente guardadas na prateleira mais alta para as visitas. Desistiu da rapadura e passou um café mais fraco, com açúcar. Pouco havia a fazer na cozinha naquela manhã chuvosa de sábado. Entretanto, deu-lhe ânsia de esfregar o chão e esfregou repetidamente. Mas não estava satisfeita. Dona Mariquinha estava incomodada. Sentou no pilão, cismada, reparando no tempo e não resistiu. Rodopiou debaixo dos pingos da chuva que caía. Sentia uma energia rara, o corpo firme, vontade de lambuzar-se na lama e assim o fez. Depois entrou, agitou o fogo e preparou um banho quente. “A mulher ficou louca”, Seu Juca pensava enquanto olhava, aturdido, a companheira de longos anos que enchia uma bacia de água quente para se banhar. “Vai pegar uma pelamonia”, refletiu, sem conseguir atinar o que fazer. Banhando-se, Dona Mariquinha cantava “felicidade foi-se embora”, com tanta paixão que Seu Juca alarmou-se. Resolveu chamar a mulher à razão. Não ia fazer o almoço? Que loucura era essa de se lambuzar na chuva e tomar banho quente? Que cantoria era aquela? Mas, Dona Mariquinha nem ligava. Terminou o banho e pôs uns gravetos no fogão para preparar o almoço. Queria comer algo diferente: a samambaia que a avó fazia quando era criança, mas não tinha como colher naquele momento. Então, fez um guizado de jaca e chouriço. Acompanhado de angu, arroz e o feijão que, àquela altura, estava cozido. E comeu com um apetite voraz e a alegria de criança faminta. Depois do almoço, Dona Mariquinha não quis lavar louça, como de hábito. Preferiu tirar uma soneca, depois de expulsar um beija-flor que invadira a casa, pela janela. Dormiu parte da tarde e acordou cismada de que alguém entrava pela porta. Levantou-se e não havia sombra de gente na casa. Seu Juca fumava um cigarro de palha no puxadinho ao lado da cozinha. Refletira que o sono faria bem à esposa. Dona Mariquinha foi chegando, foi chegando e, de repente, pareceu divisar, ao lado do marido, a sogra, falecida anos antes. Mas, quando foi pousar os olhos nela, já não estava lá. Outra piscada no rumo da horta que mantinha no quintal e vira a avó, abaixada como nos seus tempos de criança, apanhando alguma verdura. “Diabos, será que vou morrer? O que esse povo antigo está fazendo aqui?” E não parou por ai. Naquela tarde, teve a impressão de ver, sempre de relance e sempre sem que conseguisse encara-los, diversos parentes de outras épocas de sua vida. Resolveu, então, católica que era, rezar um terço em benefício da alma de entes tão queridos. Sentou-se ao lado do marido e começou o Creio em Deus Pai. Foi o que bastou: em pouco tempo, as imagens à sua volta apagaram-se e a urgência com que acordou ganhou nome e fez sentido.

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