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Estou lendo “A Pausa do Tempo” e pensando: bendita hora em que o mundo virtual me trouxe Valéria Martins (pausadotempo.blogspot.com). Pensando nisso, eis que, de repente, deparo-me com o texto “Provérbios”, como os demais textos do livro, abordando situações corriqueiras do nosso dia a dia. Fui lendo e pensando na frase do seu amigo: “A gente pensa que resolve os problemas, mas, eles se resolvem sozinhos” e pus-me a analisar a minha relação com essa expressão. Sempre disseram que aparento não ter problemas. Sempre de bom humor. Porque o bom humor foi a maneira que escolhi para ser feliz. E os problemas, elo de ligação de todos os habitantes do amado planeta?  Como ficam? Cada um sabe a maneira de resolver os seus. Quanto a mim...





EU RESOLVO MEUS PROBLEMAS COM MÚSICA CLÁSSICA

Adotei uma máxima em relação aos problemas, essa expressão que a gente não consegue dissociar da vida humana: a maioria daquilo que chamamos  problema é criação da nossa mente. Diria que, pelo menos noventa por cento deles são fictícios. E os dez por cento restantes dividem-se entre os que tem solução e os insolúveis. Destes últimos não precisamos nos ocupar: estão resolvidos por si mesmos. E, portanto, não constituem problema...

Eu só considero um problema aquilo que consegue interferir em meu bom humor. E, por mais que uma situação desfavorável consiga encontrar caminho no labirinto da minha mente para roubar a paz de espírito, é apenas uma situação desfavorável. E terá vida curta. “Isso também passa”, era o mantra usado pelo médium Chico Xavier. E é o mantra que adotei para mim mesmo. Passa. E dura exatamente o tempo da audição de uma peça clássica.

E não serve qualquer compositor. Porque os labirintos da minha mente exigente fecham-se apenas quando se deleitam na música. Momentos de tranqüilidade requerem sons mais tranqüilos. Momentos de intranqüilidade pedem sons mais eufóricos. Para grandes problemas, a mente exige Wagner. “Ele era antissemita”, avisam-me, solenemente, alguns amigos. Comentário, com a mesma solenidade, ignorado por mim. Wagner me faz bem. É o “rock” que inebria as fibras do meu corpo. Um antídoto para problemas aparentemente difíceis.

Antídoto como também o são Verdi, Ravel, os concertos para violino de Vivaldi. E, depois deles, quando necessito ânimos asserenados, restam, ainda, as sinfonias de Beethoven, Haendel, Grieg e outros. Muitos outros.

Tem para todos os problemas. E, para momentos sem problemas, servem todos. Serve “A sagração da primavera”, de Stravinski, para deleite da alma. Serve “A paixão segundo São Mateus”, de Bach, para deleite do espírito...

Tudo somado, não há problema que resista. E, quando eles são expulsos da mente, estão resolvidos. Este é o meu segredo para uma vida sem problemas, ou melhor, para uma vida de problemas curtos. Resolvíveis.

Meu tempo não pausa para o mau humor...



Moça prendada


F. estava pronta. Exímia cozinheira, lavava e passava como ninguém. E era educada como ela só. O seu gosto pela simplicidade e a paixão pelas crianças completavam os atributos a fazer dela uma dona de casa exemplar. Não fosse por um detalhe. Ou dois. O primeiro é que não apareciam pretendentes. O segundo era o fato de ser a sétima filha em uma família de sete mulheres, o que faria dela uma bruxa, segundo a crença popular.

A mãe tecia, cuidadosamente o seu futuro enxoval. Muita seda, muita renda, tudo no maior capricho. Capricho reservado aos caçulas a quem muito se quer bem. F. Tinha o corpo esguio, muito alta para os padrões femininos, o pai dizia. Tinha um olhar profundo, inquisidor. E era assim que encarava os rapazes que, vez ou outra apareciam a fazer-lhe a corte. E, não se sabe se, em decorrência desse olhar, não voltavam para uma segunda visita. E assim, os anos de F. foram passando. Já não era tão jovem, diziam os vizinhos. Será que vai ficar para titia? Questionavam as irmãs, todas já casadas.

O fato é que F. já estava titia. E era a alegria dos sobrinhos e sobrinhas nos almoços de família dos fins de semana. Prendada que só, tinha sempre um mimo para uns e outros. Puxava as brincadeiras da trupe e apresentava engraçados teatros de bonecos. Os pequenos riam a mais não poder. E a tia F. ria junto, de satisfação. Não sabia o que era melancolia. Nunca conhecera a tristeza. Só fazia esperar. Mais dia, menos dia, apareceria o moço que pediria a sua mão. Foi para isso que se preparou.

Mas, a mãe sofria. O que havia de errado com a filha? Seria, talvez, a sina de ter sido a sétima entre as sete que havia parido? Viraria uma bruxa a pobrezinha? Mas F. mais parecia uma fada. E, para isso a mãe tivera tanto cuidado ao educá-la. Prendando-a de tantos atributos, evitava comprovar a crença tão difundida. Não seria F. a confirmar destino tão terrível. Qualquer dia, de qualquer parte, cairia aos pés da filha o genro que há tanto esperava.

Cuidados de genitora, que, às vezes se esquece de que desejo de mãe tem a mesma força de uma maldição materna. E tanto o desejou que o fato aconteceu. Deu-se em um meio de semana qualquer, um desses dias comuns que parece que nada vai acontecer. Os vizinhos contrataram alguns homens para realizar uma reforma em casa e, naquele dia, pintavam, justamente a parede do segundo andar, na divisa da casa de F. Um passo em falso de um deles, fez com que caisse sob o telhado e de lá, esborrachou-se sob a mesa da cozinha. A mãe quedou muda e não houve tempo para apresentações já que o homem, ao olhar assustado das duas, evaporou-se pela porta da frente.

F. não percebeu, mas a mãe enxergou a cara do destino fazendo cair do céu, o genro esperado. Mas, como dizem, uma oportunidade perdida é uma oportunidade que não volta. A menos que seja para atender desejo de mãe. Certamente, por isso, o mesmo fato, repetiu-se no meio da semana seguinte. Outro homem, outro escorregão. Sorte que a mesa nova doada pelo vizinho, ainda não havia sido entregue pela loja. E, de novo, não houve tempo de perguntar se o homem se machucara. Foi o tempo de piscar e ele se fora.

A mãe lamentou. F. nem ligou. E continua lá: lava, passa, cozinha como ninguém. Moça de muitas prendas. Uma fada...

URGÊNCIA



Dona Mariquinha acordou com uma urgência esquisita. Uma urgência sem nome. E enquanto fervia água com rapadura para passar o café, comentou com Seu Juca que alguma coisa não amanhecera bem naquele dia. “Ce acordou impressionada, muié. É só isso.” Mas não era só isso, não. Dona Mariquinha tinha desejos esquecidos. Não comeu a broa que preparava para o desjejum. Preferiu as rosquinhas rigorosamente guardadas na prateleira mais alta para as visitas. Desistiu da rapadura e passou um café mais fraco, com açúcar. Pouco havia a fazer na cozinha naquela manhã chuvosa de sábado. Entretanto, deu-lhe ânsia de esfregar o chão e esfregou repetidamente. Mas não estava satisfeita. Dona Mariquinha estava incomodada. Sentou no pilão, cismada, reparando no tempo e não resistiu. Rodopiou debaixo dos pingos da chuva que caía. Sentia uma energia rara, o corpo firme, vontade de lambuzar-se na lama e assim o fez. Depois entrou, agitou o fogo e preparou um banho quente. “A mulher ficou louca”, Seu Juca pensava enquanto olhava, aturdido, a companheira de longos anos que enchia uma bacia de água quente para se banhar. “Vai pegar uma pelamonia”, refletiu, sem conseguir atinar o que fazer. Banhando-se, Dona Mariquinha cantava “felicidade foi-se embora”, com tanta paixão que Seu Juca alarmou-se. Resolveu chamar a mulher à razão. Não ia fazer o almoço? Que loucura era essa de se lambuzar na chuva e tomar banho quente? Que cantoria era aquela? Mas, Dona Mariquinha nem ligava. Terminou o banho e pôs uns gravetos no fogão para preparar o almoço. Queria comer algo diferente: a samambaia que a avó fazia quando era criança, mas não tinha como colher naquele momento. Então, fez um guizado de jaca e chouriço. Acompanhado de angu, arroz e o feijão que, àquela altura, estava cozido. E comeu com um apetite voraz e a alegria de criança faminta. Depois do almoço, Dona Mariquinha não quis lavar louça, como de hábito. Preferiu tirar uma soneca, depois de expulsar um beija-flor que invadira a casa, pela janela. Dormiu parte da tarde e acordou cismada de que alguém entrava pela porta. Levantou-se e não havia sombra de gente na casa. Seu Juca fumava um cigarro de palha no puxadinho ao lado da cozinha. Refletira que o sono faria bem à esposa. Dona Mariquinha foi chegando, foi chegando e, de repente, pareceu divisar, ao lado do marido, a sogra, falecida anos antes. Mas, quando foi pousar os olhos nela, já não estava lá. Outra piscada no rumo da horta que mantinha no quintal e vira a avó, abaixada como nos seus tempos de criança, apanhando alguma verdura. “Diabos, será que vou morrer? O que esse povo antigo está fazendo aqui?” E não parou por ai. Naquela tarde, teve a impressão de ver, sempre de relance e sempre sem que conseguisse encara-los, diversos parentes de outras épocas de sua vida. Resolveu, então, católica que era, rezar um terço em benefício da alma de entes tão queridos. Sentou-se ao lado do marido e começou o Creio em Deus Pai. Foi o que bastou: em pouco tempo, as imagens à sua volta apagaram-se e a urgência com que acordou ganhou nome e fez sentido.

Cisco





Carece preocupação não.
Nem sofro dores de amores

É apenas um cisco
Que vento soprou no olho...

Daqui a pouco vento volta
e sopra o cisco pra fora...

Despedida




Corpo velho de minha vó
Horizontalmente se despedindo...

Mãos enrugadas de minha vó
Friamente se despedindo...

Olhar antigo de minha vó
anoitecidamente se despedindo...

Meus olhos choveram.
Foi de repente...

Fiquei seco por dentro.

TIA MARIA



Acordei com saudade dela, que há uns bons anos partiu de mudança para a pátria espiritual. Tia Maria tinha, na sala, uma velha máquina de costura, onde passava a maior parte dos seus dias.

Um dia, quando entrei na sua sala de estar, pediu-me para ler um trecho da bíblia para os meus primos. E eu, criança que era, absolutamente sem maldade, abri ao acaso justamente em uma das epístolas de Paulo. E, quando ela colocou os três filhos em silêncio para escutar, comecei, com toda a pompa e circunstância de que a palavra de Deus era merecedora, atropelando os acentos: “Primeira epistola de paulo...”

E não pude terminar, porque o livro foi arrancado das minhas mãos e uma mão forte e ágil encontrou-se com a minha orelha esquerda: “não tem isso na bíblia não”, ela disse. “Tem sim, tia. Pode ver...”

Mas, percebendo logo que não adiantaria e debaixo de um severo olhar de reprovação da tia analfabeta, fui obrigado a abandonar a “epistola” de Paulo.
E passei a ler os Atos dos Apóstolos.

Bons tempos...

GENTILEZA




“Nós, que passamos apressados pelas ruas da cidade, merecemos ler as letras e as palavras de gentileza” (trecho da música de Marisa Monte, homenageando o poeta que escrevia gentilezas pelas fachadas e viadutos do Rio de Janeiro).

Mas, o que é a gentileza?

Ah, é outra coisa muito esquecida, afirmaria O pequeno príncipe, caso fosse inquirido.

É uma atitude típica dos homens superiores, diriam os sábios.

É sinônimo de delicadeza, amabilidade, cortesia, respondem os dicionários. E, é, realmente, uma coisa muito esquecida nos nossos dias. Infelizmente.

Conte nos dedos: quantas pessoas gentis você conhece? Mas, não valem aqueles que se autointitulam dessa forma. Conheço pessoas que, ao se descreverem, diriam: sou gentil, educado, etc. Mas essa é a visão que elas tem de si mesmas, porque as pessoas gentis, tal qual os humildes, não se reconhecem. Pois, ainda que tenham conquistado parcela dessa qualidade, sabem que, no mesmo lugar onde ela é forjada, há um estoque infinito passível de ser conquistado. E, uma vez adquirida, ela é perene, não diminui, mas aumenta, como só acontece com os caracteres mais belos e elevados do homem.

Que dádiva ter pessoas gentis cruzando, com a gratuidade típica que carregam, o nosso caminho. E atenção: gentil não é apenas o cavalheiro que se esforça por abrir a porta, que se desdobra para pagar a conta ou se adianta para puxar a cadeira para que você possa sentar-se. Esse também o é. Mas a verdadeira gentileza elevada ao grau máximo está contida na amabilidade, cortesia e delicadeza praticadas sem se notar, sem qualquer esforço. Ela surge naturalmente. Nos pequenos gestos, nas pequenas respostas, no bem praticado de sorriso largo, com prazer verdadeiro e o riso no coração com o qual apenas as grandes pessoas são capazes de brindar, com sinceridade, o seu próximo.

Percebe-se a gentileza em muitos atos, mas, curiosamente, todos eles podem ser resumidos no ato de respeito ao próximo. E, embora obedecer às leis da vida em sociedade seja gentil, a verdadeira gentileza posta-se um degrau acima, onde mora o prazer em agir dessa ou daquela maneira. Naturalmente.

Pessoas gentis não são aquelas que pensam ter alcançado a felicidade. Mas aquelas que aprenderam a fazê-la proliferar ao seu redor.

As virtudes conquistadas carregam a graça da espontaneidade. E a simplicidade com que são prestadas, nos dão idéia do caráter daqueles que as possuem.

Sobre um encontro...

Sobre um encontro...

Estou de pé na sobreloja da galeria e admirava a rua que se estendia lá embaixo, tendo, como moldura, o céu muito azul. Os muitos prédios que rodeavam o conjunto, a descida até uma praça lá no finalzinho da rua e o cruzamento na esquina da galeria onde me encontro. "Amorrrrr...", escuto e ela vem correndo ao meu encontro. O abraço é longo, sem espaço entre os corpos, sem uma fresta, sequer, para circular o vento e impedir o calor gostoso do seu corpo contra o meu. "Que abraço!", penso, enquanto a levanto do chão e rodopiamos como só as pessoas enamoradas sabem fazer. Dou-lhe as mãos e descemos a galeria. A rua imensa nos acolhe e nos perdemos nela, mas dela não quero me perder. Sinto que nunca fui tão feliz quando os transeuntes parecem nos fitar com uma pontinha de inveja...

Deitada ao final da rua sob um verde tapete de plantas, surge a praça e, na esquina, sussurro ao seu ouvido: "estou diferente, não é?" Ela apenas sorri, sem resposta e puxa meus braços que entrelaçam seus quadris enquanto um beijo pousa suave nos seus cabelos. Viramos à esquerda e, enquanto nos damos novamente as mãos, faço uma promessa muda de nunca mais perdê-la. O riso mais lindo do mundo me encara e sugere: "sorvete?". "- Sorvete", eu digo e, a caminho da sorveteria começo a me dar conta do local onde me encontro. Uma cidadezinha qualquer, de qualquer lugar, onde, em pouco, me perderei no gosto do sorvete e no olhar terno da mulher amada.

Assim teria sido, não fosse um despertar abrupto e o sentimento de que tudo transcorreu em míseros segundos. São três horas da manhã e a companhia mais próxima é o tic-tac do relógio... onde ela está???

UM SONHO

Havia, numa rua qualquer
alguém que me espreitava
que me espiava
quando eu passava

Rua de qualquer cidade
de qualquer país...

Havia alguém que se aproximava
e seu abraço
que comigo caminhava
descendo a rua, virando a praça...

Havia alguém a quem jurava
não mais perder de vista
Mas a rua foi engolida pela cidade
a cidade foi tragada pelo país

que não sei qual!
Que não sei onde!

Foi Osvaldo Montenegro quem aconselhou: "faça uma lista de grandes amigos, quem você mais via há dez anos atrás. Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?

Tentei fazer uma lista. E percebi que a maioria daqueles de quem eu me lembrei, já não cruzam o meu caminho. Pus-me a pensar nas pessoas e lições que a vida nos apresenta cotidianamente. E no quanto deixamos de aprender com pessoas e situações do dia-a-dia. Quantas pessoas passaram pela minha vida desde que nasci? Não faço a mínima idéia. Mas, é uma multidão, com certeza. E muito dessa multidão anônima, forjou aquilo que eu sou hoje. De alguns, copiei os modos; de outros, apreendi virtudes e em outros, me espelhei.

Certa vez li um poema de Cora Coralina, no qual ela fazia uma chamada. A chamada da saudade, dos seus tempos de primário (hoje, enino fundamental). Apresentava uma longa lista e evocava a mestra que, na sua poesia, tinha às mãos um grande livro e ensinava a soletrar aos anjos.

A minha chamada é falha, porque perdeu a oportunidade de registrar todos os nomes que, em sua maioria, jamais voltarão a oferecer a oportunidade do registro.

Diante da música do Osvaldo Montenegro, percebi que já não preciso fazer uma lista. Mas, compreendi a necessidade de manter um registro, para não permitir que o tempo apague aquilo que precisa ser perene...

Sobre Chico Xavier

CHICO XAVIER – O FILME


“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.” Chico xavier


Pedro Leopoldo é um município da região metropolitana de Belo Horizonte. Conta, atualmente, cerca de 63.000 habitantes. No início do século passado, a maioria dos seus habitantes de então, trabalhava em uma fábrica de tecidos, que foi a primeira atividade econômica relevante da cidade e da estrada de ferro, tendo em vista a construção da Estação Ferroviária Dr. Pedro Leopoldo, em 1895, em terreno doado pela própria fábrica. Mas, até o ano de 1923, o município era freguesia de Matosinhos, então distrito de santa Luzia. Foi elevado à categoria de cidade em 1925 e o seu desenvolvimento veio a dar-se a partir de 1950 com a instalação de diversas indústrias, como a Cimento Cauê e Ciminas, além de várias mineradoras.

Esse (então) pequeno município, de vida pacata e muita atividade agropecuária, seria abalado e ficaria conhecido nacionalmente e, até, internacionalmente, com a publicação, em 1932, do livro “Parnaso de Além Túmulo”, uma coletânea de sessenta poemas, assinados por nove poetas brasileiros, quatro portugueses e um anônimo. Novos poemas foram sendo, gradualmente, incorporados à obra, fixando-se, na sexta edição, o número de 259, atribuídos a 56 autores.

Romantismo, Condoreirismo, Parnasianismo, Simbolismo... assinados pelos maiores poetas brasileiros... mortos!!! Os críticos estavam atônitos!

Quem era Francisco Cândido Xavier? Era a pergunta que se ouvia. Um rapaz culto? Um bacharel? Um acadêmico?

Nada disso. Francisco Cândido Xavier era apenas um rapaz de 21 anos, quase adolescente, nascido na pequena Pedro Leopoldo, filho de pais pobres que não passara do curso primário. Estavam estupefatos! Baixaram diligências à cidade natal do médium. Leram e releram as páginas do “Parnaso”. Não era possível. Como um homem que beirava a ignorância e mal terminara o primário poderia ter escrito tal livro?

Por outro lado, um matuto não poderia ter estudado todos aqueles poetas e reproduzido seus estilos. Isso era humanamente impossível. Mas, eram eles! Casimiro Cunha, Castro Alves, Guerra Junqueiro, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, Augusto dos Anjos... vivos e inconfundíveis em seus estilos. Extraordinário. Maravilhoso.

Ao longo dos anos, foram curvando-se à única explicação possível. Como perguntava Kardec no livro dos médiuns: “Há espíritos?”, porque, na hipótese de resposta negativa, sequer haveria doutrina espírita. Mas, diante dos fatos e da confirmação de que os espíritos, efetivamente, existem, porque duvidar da sua presença entre nós?

Os fenômenos apresentados através da mediunidade de Chico Xavier, ao longo de 92 anos de vida, falam por si. Foram 412 livros psicografados, com vendas superiores a vinte milhões de exemplares, tudo doado a instituições de caridade e uma imensa obra de amor ao próximo.

A obra, monumental, começou ainda na infância. Um dos oito filhos do operário João Cândido Xavier e da lavadeira Maria João de Deus, falecida quando ele contava cinco anos de idade, acabou distribuído, junto com os irmãos, entre familiares e amigos da família. Aos nove anos, já trabalhava como aprendiz em uma fábrica de tecelagem. Mas, desde os quatro anos já via, ouvia e conversava com os espíritos, segundo ele mesmo relataria anos depois.

Ao longo de sua vida, mais de mil entidades espirituais se manifestaram através de sua mediunidade, provando a sobrevivência do espírito e a sua possibilidade de contactar os vivos. Alguns de seus livros se transformaram em fonte dos mais diversos estudos e teses, sobretudo os romances históricos de Emmanuel, que foi seu guia e orientador durante toda a vida. Emmanuel teria acompanhado o médium por quatro anos, entre 1927 e 1931, incógnito. Seria o período necessário ao treinamento de sua mediunidade. Apareceu-lhe num final de tarde, “envergando uma túnica semelhante à dos sacerdotes” e lhe perguntou: “está mesmo disposto a trabalhar na mediunidade?” Ao que Chico, em sua humildade, responde: “O Senhor acha que estou em condições de aceitar o compromisso?” A resposta não tarda: “Perfeitamente. Desde que respeite três pontos básicos: disciplina. Disciplina. E disciplina.”

E assim estabeleceu-se a ligação entre os dois. Uma relação que era cotidiana. Era de afeto. Mas era, sobretudo, de disciplina. Emmanuel não tolerava propostas que envolvessem possibilidades de ganhos financeiros, apesar das suas dificuldades econômicas. E nem mesmo de saúde. Chico conta que, certa noite, estava psicografando e sentiu o olho esquerdo invadido por algo semelhante a fragmentos de areia. Esfregou-o, mas a coceira continuava. Mal conseguia enxergar os versos recém escritos. Assustado, recorreu às orações. Em pouco tempo, aparece-lhe o Dr. Bezerra de Menezes, que pouco depois informou: “sua vista amoleceu por razões que não podemos saber agora. Prepare-se para ir a tratamento em Belo Horizonte, para que sua família não diga que você ficou sem se tratar por nossa causa.” Dois dias depois soube do diagnóstico oficial: catarata. Impossível de operar. Nessa época, tinha 21 anos. Resolveu consultar Emmanuel, que lhe disse: “tenha serenidade. Você está sob cuidados de benfeitores espirituais e sob a assistência de médicos atenciosos e amigos.” Desapontado, Chico perguntou-lhe: “O Senhor quer dizer que, embora eu seja médium, não posso esperar a intervenção do plano espiritual em meu benefício para curar-me?” Ao que Emmanuel teria respondido: “Por que você receberia privilégios por ser médium? A condição de médium não exonera você da necessidade de lutar e sofrer em seu próprio benefício, como acontece às outras criaturas que estão no Plano físico.” Ainda não resignado, Chico questiona como poderia desenvolver a tarefa de escrita dos livros, que apenas se iniciava, se a deficiência visual de que era portador, dificultava-lhe o trabalho, ao que Emmanuel retruca: “Confie no senhor, pois sua doença é arrimo que ele enviou em seu auxílio.” Insistindo, ele indaga, ainda uma vez: “ah, então ele vai curar-me?” Emmanuel o fita, manda que abra o Evangelho Segundo o Espiritismo no Capítulo VI e, ao ler em voz alta o trecho: “Vinde a mim todos vós que estais aflitos e sobrecarregados que eu vos aliviarei.” É aí que Emmanuel pergunta: “Compreendeu bem? Jesus não promete curar-nos, isto é, retirar-nos das obrigações que nos cabe cumprir perante as leis de Deus, mas promete auxiliar-nos e ajudar-nos.” Sem outra alternativa, Chico relata: “resignei-me.”

Emmanuel foi um Senador Romano da época de Jesus, de nome Públio Lentulus, cuja história é narrada no romance “Há dois mil anos” e, segundo Chico relatou no Programa “Pinga Fogo”, na TV Tupi, em 1971, teria sido o Padre português Manuel de Nóbrega. Entre suas muitas obras, grafadas na psicografia de Chico, existem verdadeiros documentos históricos que reproduzem em detalhes, a geografia da Roma antiga, costumes e modo de vida dos romanos, tão de acordo com documentos produzidos por historiadores que não deixam margem quanto à sua veracidade. Nessa linha, o já citado “Há dois mil anos”, além de “50 anos depois”, “Ave Cristo”, “Renúncia” e “Paulo e Estêvão”, que narra a história de Paulo de Tarso nos primórdios do Cristianismo.

Em 1943, uma nova entidade espiritual começa a ditar livros a Chico. Trata-se de André Luiz, que teria sido médico e cientista em sua última encarnação e desencarnou em uma clínica do Rio de janeiro, na década de 30. André Luiz é autor do livro “Nosso Lar”, que inspirou a novela global “A viagem”, escrita pela novelista espírita Ivani Ribeiro e que serve, no momento, de inspiração para a nova novela que a rede Globo exibirá no horário das seis, de nome “Entre dois amores.” Em sua série de 16 livros, alguns são de extremo interesse para a medicina.

A partir de 1959, Chico mudou-se para Uberaba, onde intensificou as atividades mediúnicas e de assistência aos mais necessitados. Com a sua chegada, Uberaba passou a atrair inúmeros visitantes do Brasil inteiro e até do exterior, em busca de algum tipo de consolo. Em 1981 foi indicado para concorrer ao Prêmio Nobel da Paz, pelo seu trabalho.

Chico Xavier desencarnou em 30 de junho de 2002, vítima de parada cardíaca. Tinha a saúde debilitada havia vários anos. De acordo com amigos e parentes, ele teria pedido para morrer em um dia em que os brasileiros estivessem felizes e o País em festa, para que ninguém ficasse triste com a sua partida. Pois, justamente naquele dia 30 de junho, o Brasil comemorava a conquista do pentacampeonato mundial de futebol.

Essa vida de dedicação ao próximo estará nas telas dos cinemas a partir do dia 02 de abril, data em que Chico completaria 100 anos. O filme “Chico Xavier” tem direção de Daniel Filho e um elenco de estrelas que inclui Tony Ramos, Christiane Torloni, Giulia Gam, Letícia Sabatella, Giovanna Antonelli, Luis Mello, Ana Rosa, Paulo Goulart, Cássia Kiss, Cássio Gabus Mendes, Rosi Campos, Ângelo Antônio e Nélson Xavier no papel do médium.

Indico o site: www.chicoxavierofilme.com.br que conta com informações detalhadas e trailler do filme.

Indico, também, o livro “As vidas de Chico Xavier”, do jornalista Marcel Souto Maior, no qual se baseia o roteiro. É um bom livro para se conhecer mais sobre a história desse ser humano iluminado.

Sobre Elisa Lucinda

É possível que eu tenha visto algo de Elisa Lucinda há mais tempo, mas, a lembrança mais antiga que tenho do seu rosto (não tão antiga assim) é da novela "Mulheres Apaixonadas". Confesso que gostava muito daquela interpretação leve, de quem leva a vida de forma descontraída que ela passava. Pois bem: minha curiosidade levou-me a descobrir, além da atriz, uma cantora e escritora que, a meu ver, coloca o coração naquilo que escreve. E o coração da Elisa Lucinda parece ter muita coisa para contar. E aqui está um exemplo:


"Memória de um Silêncio Eloquente

Para ti
sempre tive um infinito
estoque de perdão.
Só para ti
perdoei mais suportava,
mais do que pude.
Minha cerca-limite era sem estatuto,
não tinha um não delimitando nada.
Fui perdoando assim de manada
e muitos erros desfilaram me ferindo,
nos interferindo silenciosos,
sem ninguém denunciar.

Perdoa a dor que te causei,
é que você estava há tempos me machucando
e eu não gritei."

(Poema do livro "A fúria da beleza)

Sobre memórias

BAU



Esse velho baú imaginário
É onde guardo minha memoria
Ele me acompanha desde o sempre
E está abarrotado...

Vivas criaturas mortas
Seguindo meu envelhecer
E riem e bailam e bebem comigo
Na fonte da juventude

Vivíssimos amigos
Saltando do velho baú
Nem tão grande, mas repleto
Da borda ao fundo

A vida é esse baú
A que foi e a que será
E os projetos todos,
E as imagens todas

Ainda que desbotadas
Ainda que impossíveis...

Poema publicado no livro "Poetas em cena", de 2009.

Das lembranças mais gostosas que Zequiel guardou da infância foram aqueles momentos com mãe. De noite, quando todos já tinham ido dormir, ficava com ela na cozinha, enquanto ela cozinhava o feijão no fogão a lenha do canto da cozinha. Mãe sentava de frente para o fogo, aquecendo as mãos, enquanto a panela fervia. Zequiel ao seu lado, não fazia noção da beleza do quadro que protagonizva. Anos mais tarde, lamentaria profundamente não haver um registro fotográfico daquele instante, além do pouco que a sua memória conseguira segurar. Observava mãe cochilando e quando chamava por ela, negava que estivesse dormindo. A cena se repetia a cada dia, até que o feijão estivesse cozido. Ai ela puxava as brasas para a boca do fogão e derramava água para apagar o fogo. Zequiel pegava a lamparina e a puxava pela mão. Paravam em frente ao filtro e ele bebia um pouquinho de água. Bem pouquinha, para evitar ser surpreendido pelo xixi antes que tivesse tempo de se levantar, como às vezes acontecia. E isso não era raro. Por isso é que pai se levantava todas as noites e fazia a ronda nos quartos, para acordar os meninos, pois o sono pesado invariavelmente fazia a cama acordar encharcada. Mãe era muito paciente. Não ralhava nem mesmo quando Zequiel, já meio adormecido, levava a lamparina acesa à torneira do filtro, como se fosse a caneca para beber água. Depois, iam até o quarto. Mãe puxava o cobertor que ela já deixara preparado sobre a cama e ele se enfiava por baixo. Ela cobria o seu corpo de menino antes de dirigir-se ao próprio quarto. "Bença, mãe". "Deus te abençoe, meu filho". Era este o ritual. E a casa mergulhava no escuro e no silêncio da noite.

Pai se levantava às 4 e meia, cinco horas. Zequiel ouvia a movimentação na casa e ouvia o rádio ser ligado. Música sertaneja de raiz que aprendeu a gostar através de Pai. Os irmãos eram acordados. Lavavam o rosto, vestiam a roupa e faziam um lanche antes de sair. O rádio ligado embalava o tempo de sono que lhe restava até mãe vir chamá-lo.

Zequiel carregava o bornal com as marmitas e a merenda que mãe preparava. Era por volta das 9 horas quando saia de casa, até onde pai e os irmãos trabalhavam. Ora estavam na plantação, ora na carvoaria, dependendo da epoca do ano. Quando voltava, outra tarefa já o aguardava. Alimentar os porcos que a família criava. Não eram muitos, só para a despesa de casa mesmo e, eventualmente, quando havia cria, Pai às vezes vendia um ou outro leitão.

Por volta de 11 horas mãe procurava sintonizar a Rádio Nacional de Brasília. Ficavam pertinho do rádio, para driblar o sinal ruim e ouvir as histórias que eram contadas no Programa da Tia Leninha. Eram contadas aos poucos, em capítulos diários, que o aproximava ainda mais de mãe, pois, quando terminava, conversavam longamente sobre o desenrolar da história e sobre as lições que os personagens aprendiam.

E, assim, aprendia também.

Ninguém podia com aquele menino Ezequiel. Era o xodó da família, desconfio que era porque conseguia levar todo mundo nas lábias, vendendo hstórias falsas como se fossem casos acontecidos. Era o sexto de uma família de onze irmãos. Tamanho de família que não se faz hoje em dia. Cinco irmãos, meninos homem e seis meninas criados todos na roça , no povoado do Batistinha, assim batizado por causa de um antepassado seu, homem que parecia gato, porque seis vidas, no mínimo ele tinha. E, de cada uma o Zequinha dava notícia. Menino danado. Mas tinha um bom coração e, quando não podia fazer nada para ajudar alguém, desfiava uma reza que só ele conhecia, contristado, sentado no velho pilão que ficava na cozinha de casa. “Que ta fazendo aí, Zequiel?”, mãe perguntava, sem esperar resposta, porque, nessas horas, o menino só tinha pensamento para suas orações.

Muito tempo depois de falecido, a geração nova que substituiu aquela do seu tempo, ainda repetia os casos que nasceram da sua cabeça. Cabeça prodigiosa, a professora explicaria, anos depois, para a meninada, orgulhosa do conterrâneo que entrou pra história.

E, haja folha de papel para caber tanta anedota, tanta peripécia. Diz o povo do Batistinha que, já de pequeno, Zequinha conseguira uma façanha. Foi no dia em que os meninos se ajuntaram depois do futebol para exibir vantagem. Zé de Toco (que tinha esse nome, não por causa de apelido do pai, como era costume, mas porque foi se exibir um dia apostando pulo num velho toco do quintal da escola e caiu sentado em cima dele, ficando o resto da semana no hospital e o resto do mês em casa com vergonha de por os olhos pra fora da janela) começou a repetir a lenga lenga de que, nas tardes de sexta-feira, quebrava um galho de árvore e sentava em cima, chamando o capeta três vezes de forma normal e três vezes de trás pra frente. E que, no final do chamado, o galho começava a se mover, aumentando de velocidade, levando-o até onde estavam os seus sentidos. Finalzinho de tarde, meninada cansada do jogo, começava a arregalar os olhos de medo de enfrentar a escuridão que se aproximava no caminho de casa. Era sempre a mesma história, contada com graça e gosto de medar os companheiros.

Foi nesse dia que o Zequinha, que já não suportava mais o desespero de todo mundo querendo chegar em casa antes de escurecer de tudo, resolveu chamar o Zé para um teste. “Ô Zé. Hoje é sexta-feira, uai. Traz a galha que eu vou sentar nela”. E o Toco, assustado, com medo de ser desmascarado, contou que não era assim, que só acontecia quando ele estava sozinho. Mas a euforia já tomava conta e não teve outro jeito. Lalado trouxe um galho, já meio seco, de jacarandá, que estava jogado atrás do gol e o Zequinha sentou. Esperaram e nada. E a noite já ia caindo junto com a impaciência quando resolveram ir embora. E o Zequinha nem de criar alarme para chamar o demo. Pelo contrário. Não chamou, que não era homem de chamar diabo. Mas rezava aquelas rezas que, descobriu-se muito tempo depois, tinha um incrível poder de resolver os problemas dos outros. Menos os problemas do menino Zequinha, conforme vamos contar lá na frente. E, reza daqui, reza dali, o pedaço de jacarandá começou a se mexer, empinou para a frente como se fora decolar e rodopiou ao redor dos companheiros.

O susto pôs vento nas pernas dos meninos e até Zé de Toco, que assegurava a possibilidade do impossível, viu-se compelido a correr. Botava os bofes pra fora o coitado e, dizem que, em casa, de noite, não conseguiu dormir, com os olhos estatelados no teto forrado do quarto da sua casa.

E nunca mais repetiu a história, inventada como era opinião geral, de que o diabo puxava os galhos de árvore que ele quebrava para se sentar.

Sobre o amor

SE ERA POUCO... NÃO ERA AMOR

Seria possível amar alguém, de verdade, e esse amor, com o tempo, acabar?

Eu, realmente não creio ser isso possível. Ao contráro da cantiga de roda (o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou), penso que não é possível quantificar o amor. Amor não pode ser pouco ou muito. É amor, apenas.

Então, porque o amor "acaba"? Porque os apaixonados de ontem se convertem em solteiros, alguns profundamente amargos, no hoje? Ah, esses apaixonados... vivem de acordo com a letra de Lupicínio: "você sabe o que é ter um amor, meu Senhor? Ter loucura por uma mulher?"

Paixão. Loucura. Ser capaz de morrer por alguem, como alguns que conheci e que, literalmente morreram... não. Paixão ou loucura ou outra denominação que se dê é paixão, loucura ou outra denominação. Não é amor.

Então, permito-me perguntar: "o que é o amor?"

"Ah, o amor, aiai, amor, bobagem que a gente não esquece, aiai", cantava Ary Barroso. Então o amor é uma bobagem? Mas se é bobagem, não tem importância... eu não sei o que é o amor. Mas, talvez o amor deva estar no nível de simplicidade ao qual relegamos as bobagens.

E, sendo simples... ai é que são elas! Ficou difícil.

Mas, difícil porque a gente o faz difícil. E se o fizermos ficar mais fácil? Lembro-me do Dr. João, um amigo que, com a esposa doente, necessitada de cuidados diários de sua parte, disse-me, certa vez, devotar-lhe o mais profundo amor. E abdicava até dos menores prazeres, para estar ao seu lado.

Bonito... queria amar assim, é o que todos dizem. Mas, quem está disposto ao sacrifício? Porque amor de verdade, mais cedo ou mais tarde, vai exigir sacrifícios. E o egoista, que não conseguir sacrificar-se, ah, esse não conseguirá amar. No seu caso, será um fogo-fátuo. Uma paixão. Uma loucura.

Porque, amor verdadeiro, tem a magia das coisas perenes. Quando se conquista, não sai mais da gente. Então, não pode acabar. Se acabou, alegre-se. Hora de voltar a buscar, porque o que acabou, era qualquer coisa, menos amor.

Porque amor... ah, amor é soma. Sempre. É a soma do carinho que se tem, do afeto, da cumplicidade, da lealdade, da amizade, do respeito... sim, porque sem respeito as relações humanas inexistem...

amor é o prazer inenarrável da presença do outro, pela qual sacrificamos quaisquer outras alegrias, porque, como disse Rubem Alves, "alegria maior não pode existir..."

e, somando-se a isso tudo uma pitada de paixão... converte-se naquela explosão, que vai perdurar em calmaria quando o fogo da paixão desvanecer.

Mas vai ficar. Porque, amor de verdade... ele sempre fica...

Sobre superação

Bob Lester tem 96 anos. Que, nem de longe, aparenta. CAminhando para os 97, ele canta, dança e sapateia. Foi integrante do "Bando da lua", a banda que acompanhava Carmem Miranda. E foi um brasileiro de sucesso nos Estados Unidos.

Bob Lester tocou com nomes como Frank Sinatra, Doris Day e outros ícones da música americana. Foi um sucesso. Mas, ai...

bom, ai, Carmem Miranda morreu e ele voltou ao Brasil. Estava rico e gozava de reconhecimento por grandes nomes da música braileira, mas ai...

perdeu a esposa e filhas em um acidente automobilístico e, segundo ele mesmo, fracassou...

o dinheiro acumulado, foi perdido nos excessos e a carreira desmoronou.

Bob Lester chegou a morar nas ruas e esmolar para sobreviver. Mas, ai...

eis que o destino o encontrou na figura de um amigo, o músico Tom Jobim, que deu-lhe uma casa de presente e recuperou sua auto-estima. Mas, ai...

bom, ai veio a década de 80 e em meio a uma dessas chuvas que destroem bens e pessoas, de tempos em tempos, perdeu a casa e, com ela, o pouco que havia reconquistado.

Mas, precioso bem esse a que chamamos amigo! O destino reapareceu na figura de um nome que todos conhecem bem: Roberto Carlos. Tendo notícias da situação do amigo, é hoje, o responsável pelo pagamento da sua hospedagem.

E Bob Lester, quase centenário, canta, dança e sapateia.

E ri dos maus momentos que conseguiu superar: "eu sou a pessoa mais feliz do mundo".

Morou?

Sobre a primavera

Setembro é o mês em que se despede do inverno e dá boas vindas à primavera. Ou, pelo menos, era. Porque, nos dias atuais, já não conseguimos mais identificar, no ano, as quatro estações com as características próprias de cada uma. Antes a gente identificava assim: dias longos, com altas temperaturas no verão. Queda na temperatura e amarelar das folhas no outono. Dias frios no inverno e o florir da primavera, onde dia e noite tem a mesma duração.

Hoje, depois de castigar impiedosamente a natureza, sofremos, em consequência, um adesordem nessa que seria a ordem natural das coisas. E, pode-se dizer que vivemos uma estação única, onde todas essas características se misturam e se entrelaçam.

Ainda bem que a primavera, que está despontando, continua a trazer o reflorir da flora terrestre. Andei notando árvores em flor pelo meu bairro. E elas parecem sorrir para nós a velha e insistente esperança de uma vida colorida, ao invés do preto e branco tradicional. É na primavera que os dias costumam se cobrir de perfume e fazer nossa alma mais leve e nossos espíritos desarmados, não obstante as angústias e o stress do dia a dia.

Dias e noites com a mesma duração. Na medida certa para dissipar e para recompor as energias. Na medida certa para sonhar.

E, para amar...

Sobre aniversário

Foi num dia 05 de setembro que eu cheguei.
De mansinho, mas logo cedo...
acho que, depois de nove meses, meu pequeno corpo queria conhecer o dia e sentir o brilho da luz do sol. Então, nasci às sete da manhã...

E, assim, muita coisa na minha vida aconteceu dessa forma.
Cedo, sai de casa.
Cedo rabisquei uns versos e cedo os publiquei (embora, hoje, fazendo um exercício de auto-crítica, eu não mais publicasse "aqueles" versos).
E, muito cedo, descobri o valor do trabalho e a alegria de estar rodeado de bons amigos.

Daquele menino da roça, restou muito pouco:
esse jeito bem humorado de encarar a vida - herança de meu pai;
esse "ar de moço bom" - herança de minha mãe
e um bornal repleto de sonhos - herança de mim mesmo...

muitas aventuras vividas,
poucas loucuras
e os amores vividos e os amores por viver.

Especialmente, a certeza de viver, outra vez, aquele grande amor...

Uma fé inabalável na capacidade de transformação que todos carregam dentro de si
e a imorredoura crença no homem - apesar de tudo.

E a espiritualidade que pulsa no mais íntimo das minhas convicções, dando-me a certeza de que, na espiral da vida, pessoas e coisas vão e vem, não necessariamente nessa ordem, fazendo a vida ser como quis o poeta: bonita, bonita e bonita...

Isso é uma pequena parte de mim.
Daquele lado que a gente arrisca a contar, porque há sempre aquelas pequenas coisas de que não temos tanto orgulho.

E, ainda bem que é assim, porque, caso contrário...
que graça que a vida teria?

Lendo as notícias do dia, deparei-me com uma manchete um tanto sensacionalista, mas, cuja matéria deixou-me sensibilizado. Dizia assim: "Cirurgia rara reconstitui pênis de menino de 10 anos arrancado por poodle".

Comovente relato de uma criança que, aos seis meses de vida teve o seu órgão genital arrancado pelo cão da família. Menino pobre, lá das Alagoas, um dos Estados mais atrasados do nosso país, não obstante ter produzido um Presidente da República e apesar de ter seus políticos sob o holofote constante da mídia.

Imagina a situação dessa criança à medida em que os anos foram avançando e descobriu-se diferente dos companheiros. A vergonha de encarar os colegas. A auto estima que, ao que tudo indica era inexistente. É aqui que entra o amor incondicional e a abnegação dessa figura a quem chamamos de mãe. Há dois anos seu filho não frequentava a escola e não cansava de questionar porque ele era diferente. Ela pediu dinheiro emprestado. E foi ao Rio de Janeiro procurar ajuda.

E, considerando-se que estamos no Brasil, onde a solidariedade humana ainda é relativamente abundante no mercado, encontrou uma equipe médica que ficou sensibilizada. E fez de tudo, até trazer um profissional internacionalmente renomado para fazer a cirurgia.

E, num desses milagres da medicina, o pênis foi reconstituido a partir de um retalho da parede abdominal do paciente e, em cerca de sete anos, através de nova cirurgia, será possível implantar uma prótese que o ajudará a ter uma vida sexual ativa.

Viva a solidariedade!!!

Sobre "Quase famosos"

Essa cena é do filme "Quase famosos": os integrantes da Banda Stillwater e o jornalista William Miller, alter ego do diretor Cameron Crowe estão voltando de um aturnê quando o vôo passa por uma turbulência. Desesperados e pensando que vão morrer, começam as confissões: uns assumindo ter dormido com a mulher do amigo, outro declarando-se gay e todos cobrando algo de todos. Verdadeira lavanderia de roupas sujas... passada a turbulência e descobrindo-se vivos, desembarcam de ressaca moral: o gay não sabe onde enfia a cara e ninguém consegue olhar na cara de ninguém. Essa é uma das cenas mais engraçadas desse filme, uma combinação de comédia e drama na medida certa, que, não sei como, demorei tanto a assistir e cheguei ao fim com um gostinho de quero mais. Depois da versão de cinema, assisti à versão do diretor... e continuo querendo mais... mesmo não tendo, até aqui, maiores interesses em um fime sobre a história do rock. Mas, talvez seja por isso que o filme tenha me encantado tanto: trata do rock'n roll de uma forma mais comedida, como só a ficção poderia fazer. Ao contrário dos filmes biográficos que retratam as bandas de rock, como o Sex Pistols (o filme chocou meio mundo quando foi lançado), The Doors e as histórias de Ray Charles e Jerry Lee Lewis, "Quase famosos" é uma obra de ficção, ainda que a banda ali retratada tenha saído da tela grande para a fama. E, enquanto ficção, o sexo é comedido, passando longe da promiscuidade que o meio sugere, a droga é permitida e todos são companheiros. Na verdade, o filme é uma celebração à música e, como tal, passou a fazer parte da minha lista de preferidos.

E me deixou com uma sede de Bob Dylan, David Bowie, Black Sabbath, Led Zeppelin, Rolling Stones, Beatles... para focar apenas algumas das referências do filme...

Sobre Júlia e o frango

Júlia é filha da minha sobrinha nº 2. Tem tres aninhos e vive me surpreendendo com a sua inteligência.

Hoje, fui levar a minha mãe para visita o meu irmão na cidade de Matozinhos, na grande BH. Hora de voltar, ele oferece um frango à minha irmã, que resolve matá-lo para trazer. Arrumam-lhe uma faca e o meu irmão traz o frango. Correndo de um lado para outro, Júlia fica observando, mas quando percebe o que está para acontecer, vem correndo e cobre o rosto em meu peito. Pergunto se ela vai comer carninha dofrango e ela, brava, diz que não quer.

No caminho de volta, fala para sua avó: "Muito feio o que você fez. Vou contar para minha mãe." Todos acham graça. "Mas o que foi que eu fiz?" E ela: " você cortou a cabeça do galo. Vou chamar a polícia." Todos riem. "Mas, Julia, você vai chamar a polícia para sua avó?" "Vou. Você vai presa e vai ficar lá, chorando".

Todos riam, mas ela estava séria. E, na hora de descer do carro, saiu pelo lado contrário ao que sua avó carregava a sacola contendo o frango...

acho que isso ainda vai dar muito o que falar...

Essa eu ouvi hoje.

É sobre um vizinho do Godinho, meu colega de trabalho. Segundo ele, o homem consertava lâmpadas!!! Pois é. Cada uma que aparece... mas eu, que já não estranho nada de novo que aparece, achei cômico ouvir sobre a repentina fama do consertador de lâmpadas queimadas. Começou por consertar a lâmpada queimada da casa de um vizinho e, como é comum nessas situações, não demorou muito para transformar-se no "consertador" oficial das redondezas. Até cartaz colocou na porta: "conserta-se lâmpadas".

Excluindo-se as desconfianças de poucos, ia ganhando uns trocados, coisa de centavos por lãmpada consertada. Nem podia ser caro, afinal, trata-se de um produto barato. Mas, considerando-se que todos querem fazer uma economiazinha, o negócio ia de vento em popa. Praticamente ninguém questionava. Levavam as lâmpadas em uma sacola e, no dia seguinte, lá estava a sacola de volta, com as ditas em perfeitas condições.

Até que um dia, um vizinho não resistiu: "mas, como pode-se consertar lâmpada queimada? Queimou, não tem conserto..." Mas as lâmpadas que voltavam da casa do "consertador" eram a prova de que tinha jeito sim...

Resolveu, então, esse vizinho curioso (sempre tem um Tomé por perto...)a inquirir a família. Encontrou uma enteada do homem, pronta a colaborar. Com a condição, claro, de que não fosse relatado que ela contara... e o segredo foi descoberto:

Acontece que o homem era vigilante de uma grande empresa. Dessas que tinham muitas e muitas lâmpadas tipo aquelas que iluminam as residências.Sobretudo naquela época, década de 70, segundoo Godinho. Então, recebidas as lâmpadas para conserto, elas eram embrulhadas em papel jornal e levadas para a empresa junto à marmita do "consertador" que, durante o seu plantão, fazia o "trabalho", quando não estava sendo observado.

Dia seguinte, antes de sair para o trabalho, o "conserto" estava lá, na mesma sacola em que os objetos haviam recebidos, para perfeito uso, em troca de vinte e cinco centavos.

até o dia em que a enteada resolveu espalhar a história e o gerente da empresa descobriu porque queimavam tantas lâmpadas nos galpões da empresa...

ai foi demitido. E finalmente percebeu que consertar lâmpadas não compensa...

Sobre Michael Jackson

A idéia é não escrever sobre, ou mesmo emitir opinião pessoal. Mas, o blog não poderia deixar de reproduzir o texto do jornalista Reinaldo Azevedo, de VEJA:

"AS PARCAS

Perguntam-me se não vou escrever nada sobre a morte de Michael Jackson. Música pop não é exatamente a praia em que ando com mais desenvoltura. Até onde acompanhava, esse rapaz teve a sua fase de ouro. Era, no gênero, talentoso, criativo, ousado. Mas é possível que tenha se deixado trair pelo mais perigoso de todos os demônios da legião que nos tenta todas as horas do dia: aquele que nos sopra aos ouvidos que nossas qualidades derivam de nossos defeitos; sem estes, não teríamos aquelas. É uma das farsas grotescas do diabo. Os defeitos, é claro, são só o que nos atrapalha.

A partir de um momento de sua trajetória, Jackson parecia mais livre do que todos nós, a tal ponto que resolveu recriar a própria imagem. Pensem um pouco. É o espelho que, no dia a dia, recolhe os nossos cacos e os cola numa inteireza: “Este é você”, ele nos diz. Olhando-nos, podemos ver a nossa própria consciência, as dores que só nos conhecemos, os medos que não confessamos. Está tudo lá. Diante de nossa própria figura, na solidão, o coração pode, então, como num soneto antigo, estampar-se no rosto. Não há plástica ou cosmética que possam nos livrar de nós mesmos.

Refugiado em Neverland, Jackson quis ser “Outro”, dissociando o que ele realmente era daquele que ele via. O que o espelho nos mostra de mais importante não são, pois, nossas rugas, nossos cabelos brancos, nossos quilos a mais ou a menos. Dia após dia, ele resume a nossa vida. Vemos, parafraseando Drummond, o queixo de nosso pai no nosso queixo; marcas da família desenhando nossa idade madura e nos acenando com a velhice — vislumbramos o nosso queixo no queixo de nossos filhos: sobreviveremos. Justificamo-nos, enfim, diante dele, tentando, à saída, uma última conciliação: quem sabe ele nos perdoe e nos diga um “Siga adiante”. E ele costuma dizer. E só por isso tocamos o barco.

Como era com Jackson? Pouco importa a causa imediata de sua morte, o que se viu foi um dos suicídios mais lentos do showbiz, área em que ou se desaparece muito cedo, como a evocar a máxima de que “morre cedo o que os deuses amam”, ou se entra em decadência, com o esquecimento e a irrelevância cortejando a estrela. Ele ainda tentava mudar a escrita do destino, buscando um renascimento com shows na Inglaterra. Não houve tempo. Os deuses roubam quando dão. E o mais perverso de todos os novos deuses olímpicos é a fama. Jackson foi eliminando progressivamente a memória de si mesmo, ficando sem passado. E, à medida que mergulhava sabe-se lá em que doença do espírito, tinha menos o que dizer para o futuro. O garoto genial (para o gênero ao menos) de Thriller era uma carcaça. Jackson, morto em vida, estava oco de si mesmo. Aquele do espelho não era ele, mas também não era ninguém. De fato, havia morrido fazia tempo. Seu sofrimento não deve ter sido pequeno.

Algo em nós se perde quando se vão os ídolos de uma época, ainda que não nos dissessem grande coisa. Farrah Fawcett — convenham: era a única “Pantera” com a qual realmente nos importávamos, ao menos os garotos — também morreu nesta quinta. A figura, antes exuberante, lutava contra um câncer e estava afastada do mundo das celebridades. Por que de algum modo isso nos comove ou, ao menos nos constrange, trazendo-nos desconforto?

Porque eram do nosso tempo, e sabemos que as três Parcas que zelaram pelo destino deles também zelam pelo nosso. Não param de fiar. Dia e noite. Noite e dia. Lá está Cloto, fazendo girar o fio do destino dos homens, cuidando de uma roca que desce do céu. Com as vestes semeadas de estrelas, Láquesis põe o fio no fuso, até que chega Átropos, com sua vestimenta negra, e pimba! Corta-o. Inapelavelmente. Alguns intérpretes da Mitologia Grega as querem filhas da Necessidade e do Destino. E têm a idade da Noite, do Céu e da Terra. Para sempre.

Criamos muita desgraça, mas também muita beleza tentando, inutilmente, dar um truque nas Parcas. Mas elas nos acham. Nesta quina, Cloto se encarregou de Michael Jackson e Farrah Fawcett. Um dia achará o nosso fio."

O nome dela é Iza. Minha conterrânea, de Alvinópolis tem 16 anos e até a semana passada tinha uma vida normal. Repentinamente, notou alterações na coloração da urina e olhos amarelados. Sintomas de hepatite, que evoluiu rapidamente, ganhando contornos de gravidade inesperada. De Iza passou a ser prioridade absoluta na fila de transplantes de fígado, a única possibilidade de voltar a levar uma vida normal.

Minha cidade tem ares de arraigada religiosidade. E um índice de solidariedade que supera quaisquer expectativas. E, tão rápido quanto a evolução do quadro clínico da menina Iza, a cidade de uniu em preces. E o novo fígado chegou.

Essa situação me fez pensar na brevidade dessa existência. E na beleza dos atos daqueles que se transferem para um novo plano e permitem que seus orgãos animem outros corpos. Foi pensando nisso que encontrei esse vídeo no youtube. Ele fala por mim:

“Censo aponta formação deficiente de professores.” É com essa chamada que o jornal “Folha de São Paulo” de hoje anuncia matéria sobre os dados do Censo da Educação Básica, realizado pelo Inep, Instituto de Pesquisas ligado ao Ministério da Educação, que trata da falta de qualificação de parcela considerável dos professores que, em sala de aula, são responsáveis pela educação formal de milhares de crianças e adolescentes brasileiros.

Esse deve ser, em minha modesta avaliação, apenas mais um dos instrumentos de que o governo dispõe, apontando a falência do nosso sistema de ensino. Professores despreparados fingem que ensinam, enquanto alunos desmotivados já nem perdem tempo insinuando que aprendem alguma coisa. É lamentável.


Há algum tempo, fui protagonista de um projeto que visava preparar alunos do curso noturno, da oitava série de uma escola pública da rua onde moro, para inserção no mercado de trabalho, trabalhando conteúdos de provas de concursos. Nenhum dos envolvidos conseguiu elaborar um currículo que os apresentasse ao mercado de trabalho. Havia aluno com dificuldade em grafar, de forma correta, o próprio nome. E olha que estamos falando de adolescentes da oitava série do ensino fundamental!

Carentes de todo tipo de incentivo, saíam da sala a todo o instante, para fumar ou conversar com os amigos. Tal conduta parecia ser uma prática disseminada no ambiente escolar, tanto que uma das professoras da referida escola, duvidando de que pudéssemos alcançar algum resultado, relatou que as suas expectativas estavam voltadas para a aposentadoria a sair em breve e que, então, iria “esquecer que esses alunos, um dia, cruzaram meu caminho.”

Por esse breve relato, dá para perceber que o Projeto não pode ser levado adiante. Até porque trabalhávamos com conteúdos dos quais os participantes tinham grande deficiência. Tinham dificuldade de ler e, quando o faziam, não alcançavam o entendimento da matéria. A escrita era sofrível, chegando ao cúmulo de iniciar uma palavra com dois s. E, não obstante o interesse demonstrado por um pequeno grupo, a maioria carecia de motivação.

É essa a motivação que falta, igualmente, aos mestres que, em sala de aula, não conseguem transmitir o básico aos estudantes. As alegações vão desde o baixo salário até a ausência de condições para o desenvolvimento de um programa que satisfaça às necessidades de aprendizado.

Pergunto-me se foi assim desde o sempre ou se a falta de qualidade da educação é um privilégio de nossos dias. Lembro-me de Donana, minha primeira professora, na Escola Estadual Duque de Caxias, na zona rural, que, carteira a carteira, incentivava cada um de nós ao exercício do pensar e à prática da escrita, ajudando a desenhar as letras, sabendo que, da sua classe sairiam alunos formalmente bem treinados e, moralmente preparados para enfrentar a vida. Lembro-me de uma das últimas visitas que lhe fiz em Alvinópolis e da paixão com que falava da profissão, embora, fazendeira que era, não tinha maiores necessidades que a obrigasse ao exercício do magistério.

A qualidade do ensino parece deteriorar-se, em primeiro lugar, pela falta de compromisso profissional de muitos. Em segundo lugar porque o professor, em sala de aula, acaba ficando refém da vontade dos alunos, nestes tempos em que a violência impera. Haja vista o número crescente das queixas registradas por professores em delegacias de polícia. E aqui não estamos considerando a maioria das agressões que não passam dos portões escolares. Questões financeiras e a falta de investimento na capacitação continuada dos profissionais da educação ampliam as dificuldades. E, para completar, a ausência de uma estrutura familiar sólida consolida o caos.

Rubem Alves, no seu texto “Gaiolas e asas” observa:

“sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e as domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.

Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.”

Diante dessa observação, verifico o quanto de privilégio recebi pela alegria que me proporcionava sair para ir à escola, bem como o sorriso da mestra, marcado para sempre na lembrança, do seu amor pelo ensino e do seu prazer em ensinar. Mas, como tudo aquilo que recebemos neste mundo não deve enclausurar-se em nós mesmos, pergunto-me: qual a contribuição efetiva podemos oferecer para incentivar a capacidade criativa de cada aluno, dando-lhe suporte para desenvolver a arte do pensar? E se eles ainda não aprenderam a querer, o que fazer para que enxerguem na mágica do aprendizado o caminho para traçar o seu futuro?

É... sinceramente... eu não sei.

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