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Das lembranças mais gostosas que Zequiel guardou da infância foram aqueles momentos com mãe. De noite, quando todos já tinham ido dormir, ficava com ela na cozinha, enquanto ela cozinhava o feijão no fogão a lenha do canto da cozinha. Mãe sentava de frente para o fogo, aquecendo as mãos, enquanto a panela fervia. Zequiel ao seu lado, não fazia noção da beleza do quadro que protagonizva. Anos mais tarde, lamentaria profundamente não haver um registro fotográfico daquele instante, além do pouco que a sua memória conseguira segurar. Observava mãe cochilando e quando chamava por ela, negava que estivesse dormindo. A cena se repetia a cada dia, até que o feijão estivesse cozido. Ai ela puxava as brasas para a boca do fogão e derramava água para apagar o fogo. Zequiel pegava a lamparina e a puxava pela mão. Paravam em frente ao filtro e ele bebia um pouquinho de água. Bem pouquinha, para evitar ser surpreendido pelo xixi antes que tivesse tempo de se levantar, como às vezes acontecia. E isso não era raro. Por isso é que pai se levantava todas as noites e fazia a ronda nos quartos, para acordar os meninos, pois o sono pesado invariavelmente fazia a cama acordar encharcada. Mãe era muito paciente. Não ralhava nem mesmo quando Zequiel, já meio adormecido, levava a lamparina acesa à torneira do filtro, como se fosse a caneca para beber água. Depois, iam até o quarto. Mãe puxava o cobertor que ela já deixara preparado sobre a cama e ele se enfiava por baixo. Ela cobria o seu corpo de menino antes de dirigir-se ao próprio quarto. "Bença, mãe". "Deus te abençoe, meu filho". Era este o ritual. E a casa mergulhava no escuro e no silêncio da noite.

Pai se levantava às 4 e meia, cinco horas. Zequiel ouvia a movimentação na casa e ouvia o rádio ser ligado. Música sertaneja de raiz que aprendeu a gostar através de Pai. Os irmãos eram acordados. Lavavam o rosto, vestiam a roupa e faziam um lanche antes de sair. O rádio ligado embalava o tempo de sono que lhe restava até mãe vir chamá-lo.

Zequiel carregava o bornal com as marmitas e a merenda que mãe preparava. Era por volta das 9 horas quando saia de casa, até onde pai e os irmãos trabalhavam. Ora estavam na plantação, ora na carvoaria, dependendo da epoca do ano. Quando voltava, outra tarefa já o aguardava. Alimentar os porcos que a família criava. Não eram muitos, só para a despesa de casa mesmo e, eventualmente, quando havia cria, Pai às vezes vendia um ou outro leitão.

Por volta de 11 horas mãe procurava sintonizar a Rádio Nacional de Brasília. Ficavam pertinho do rádio, para driblar o sinal ruim e ouvir as histórias que eram contadas no Programa da Tia Leninha. Eram contadas aos poucos, em capítulos diários, que o aproximava ainda mais de mãe, pois, quando terminava, conversavam longamente sobre o desenrolar da história e sobre as lições que os personagens aprendiam.

E, assim, aprendia também.

Ninguém podia com aquele menino Ezequiel. Era o xodó da família, desconfio que era porque conseguia levar todo mundo nas lábias, vendendo hstórias falsas como se fossem casos acontecidos. Era o sexto de uma família de onze irmãos. Tamanho de família que não se faz hoje em dia. Cinco irmãos, meninos homem e seis meninas criados todos na roça , no povoado do Batistinha, assim batizado por causa de um antepassado seu, homem que parecia gato, porque seis vidas, no mínimo ele tinha. E, de cada uma o Zequinha dava notícia. Menino danado. Mas tinha um bom coração e, quando não podia fazer nada para ajudar alguém, desfiava uma reza que só ele conhecia, contristado, sentado no velho pilão que ficava na cozinha de casa. “Que ta fazendo aí, Zequiel?”, mãe perguntava, sem esperar resposta, porque, nessas horas, o menino só tinha pensamento para suas orações.

Muito tempo depois de falecido, a geração nova que substituiu aquela do seu tempo, ainda repetia os casos que nasceram da sua cabeça. Cabeça prodigiosa, a professora explicaria, anos depois, para a meninada, orgulhosa do conterrâneo que entrou pra história.

E, haja folha de papel para caber tanta anedota, tanta peripécia. Diz o povo do Batistinha que, já de pequeno, Zequinha conseguira uma façanha. Foi no dia em que os meninos se ajuntaram depois do futebol para exibir vantagem. Zé de Toco (que tinha esse nome, não por causa de apelido do pai, como era costume, mas porque foi se exibir um dia apostando pulo num velho toco do quintal da escola e caiu sentado em cima dele, ficando o resto da semana no hospital e o resto do mês em casa com vergonha de por os olhos pra fora da janela) começou a repetir a lenga lenga de que, nas tardes de sexta-feira, quebrava um galho de árvore e sentava em cima, chamando o capeta três vezes de forma normal e três vezes de trás pra frente. E que, no final do chamado, o galho começava a se mover, aumentando de velocidade, levando-o até onde estavam os seus sentidos. Finalzinho de tarde, meninada cansada do jogo, começava a arregalar os olhos de medo de enfrentar a escuridão que se aproximava no caminho de casa. Era sempre a mesma história, contada com graça e gosto de medar os companheiros.

Foi nesse dia que o Zequinha, que já não suportava mais o desespero de todo mundo querendo chegar em casa antes de escurecer de tudo, resolveu chamar o Zé para um teste. “Ô Zé. Hoje é sexta-feira, uai. Traz a galha que eu vou sentar nela”. E o Toco, assustado, com medo de ser desmascarado, contou que não era assim, que só acontecia quando ele estava sozinho. Mas a euforia já tomava conta e não teve outro jeito. Lalado trouxe um galho, já meio seco, de jacarandá, que estava jogado atrás do gol e o Zequinha sentou. Esperaram e nada. E a noite já ia caindo junto com a impaciência quando resolveram ir embora. E o Zequinha nem de criar alarme para chamar o demo. Pelo contrário. Não chamou, que não era homem de chamar diabo. Mas rezava aquelas rezas que, descobriu-se muito tempo depois, tinha um incrível poder de resolver os problemas dos outros. Menos os problemas do menino Zequinha, conforme vamos contar lá na frente. E, reza daqui, reza dali, o pedaço de jacarandá começou a se mexer, empinou para a frente como se fora decolar e rodopiou ao redor dos companheiros.

O susto pôs vento nas pernas dos meninos e até Zé de Toco, que assegurava a possibilidade do impossível, viu-se compelido a correr. Botava os bofes pra fora o coitado e, dizem que, em casa, de noite, não conseguiu dormir, com os olhos estatelados no teto forrado do quarto da sua casa.

E nunca mais repetiu a história, inventada como era opinião geral, de que o diabo puxava os galhos de árvore que ele quebrava para se sentar.

Sobre o amor

SE ERA POUCO... NÃO ERA AMOR

Seria possível amar alguém, de verdade, e esse amor, com o tempo, acabar?

Eu, realmente não creio ser isso possível. Ao contráro da cantiga de roda (o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou), penso que não é possível quantificar o amor. Amor não pode ser pouco ou muito. É amor, apenas.

Então, porque o amor "acaba"? Porque os apaixonados de ontem se convertem em solteiros, alguns profundamente amargos, no hoje? Ah, esses apaixonados... vivem de acordo com a letra de Lupicínio: "você sabe o que é ter um amor, meu Senhor? Ter loucura por uma mulher?"

Paixão. Loucura. Ser capaz de morrer por alguem, como alguns que conheci e que, literalmente morreram... não. Paixão ou loucura ou outra denominação que se dê é paixão, loucura ou outra denominação. Não é amor.

Então, permito-me perguntar: "o que é o amor?"

"Ah, o amor, aiai, amor, bobagem que a gente não esquece, aiai", cantava Ary Barroso. Então o amor é uma bobagem? Mas se é bobagem, não tem importância... eu não sei o que é o amor. Mas, talvez o amor deva estar no nível de simplicidade ao qual relegamos as bobagens.

E, sendo simples... ai é que são elas! Ficou difícil.

Mas, difícil porque a gente o faz difícil. E se o fizermos ficar mais fácil? Lembro-me do Dr. João, um amigo que, com a esposa doente, necessitada de cuidados diários de sua parte, disse-me, certa vez, devotar-lhe o mais profundo amor. E abdicava até dos menores prazeres, para estar ao seu lado.

Bonito... queria amar assim, é o que todos dizem. Mas, quem está disposto ao sacrifício? Porque amor de verdade, mais cedo ou mais tarde, vai exigir sacrifícios. E o egoista, que não conseguir sacrificar-se, ah, esse não conseguirá amar. No seu caso, será um fogo-fátuo. Uma paixão. Uma loucura.

Porque, amor verdadeiro, tem a magia das coisas perenes. Quando se conquista, não sai mais da gente. Então, não pode acabar. Se acabou, alegre-se. Hora de voltar a buscar, porque o que acabou, era qualquer coisa, menos amor.

Porque amor... ah, amor é soma. Sempre. É a soma do carinho que se tem, do afeto, da cumplicidade, da lealdade, da amizade, do respeito... sim, porque sem respeito as relações humanas inexistem...

amor é o prazer inenarrável da presença do outro, pela qual sacrificamos quaisquer outras alegrias, porque, como disse Rubem Alves, "alegria maior não pode existir..."

e, somando-se a isso tudo uma pitada de paixão... converte-se naquela explosão, que vai perdurar em calmaria quando o fogo da paixão desvanecer.

Mas vai ficar. Porque, amor de verdade... ele sempre fica...

Sobre superação

Bob Lester tem 96 anos. Que, nem de longe, aparenta. CAminhando para os 97, ele canta, dança e sapateia. Foi integrante do "Bando da lua", a banda que acompanhava Carmem Miranda. E foi um brasileiro de sucesso nos Estados Unidos.

Bob Lester tocou com nomes como Frank Sinatra, Doris Day e outros ícones da música americana. Foi um sucesso. Mas, ai...

bom, ai, Carmem Miranda morreu e ele voltou ao Brasil. Estava rico e gozava de reconhecimento por grandes nomes da música braileira, mas ai...

perdeu a esposa e filhas em um acidente automobilístico e, segundo ele mesmo, fracassou...

o dinheiro acumulado, foi perdido nos excessos e a carreira desmoronou.

Bob Lester chegou a morar nas ruas e esmolar para sobreviver. Mas, ai...

eis que o destino o encontrou na figura de um amigo, o músico Tom Jobim, que deu-lhe uma casa de presente e recuperou sua auto-estima. Mas, ai...

bom, ai veio a década de 80 e em meio a uma dessas chuvas que destroem bens e pessoas, de tempos em tempos, perdeu a casa e, com ela, o pouco que havia reconquistado.

Mas, precioso bem esse a que chamamos amigo! O destino reapareceu na figura de um nome que todos conhecem bem: Roberto Carlos. Tendo notícias da situação do amigo, é hoje, o responsável pelo pagamento da sua hospedagem.

E Bob Lester, quase centenário, canta, dança e sapateia.

E ri dos maus momentos que conseguiu superar: "eu sou a pessoa mais feliz do mundo".

Morou?

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