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Sobre o meu pai

Meu pai é uma dessas raridades que existem por ai.
Com ele aprendi que a gente não precisa sofrer quando as coisas vão mal. Basta esperar. Com ele aprendi que o sorriso conquista o mundo e que a gentileza é a chave que abre todas as portas na vida. Com ele aprendi que o homem precisa ser moralmente íntegro e que a honestidade compensa as privações que, eventualmente, a vida nos impõe.

Com meu pai aprendi a ser homem de verdade. Aprendi a ser gente. E aprendi que o humor é essencial para se viver bem. Ele tem sempre uma história para contar e as respostas para todos os questionamentos na ponta da língua.

Certa vez, visitando um irmão, a sua cunhada insistia que ele precisava, segundo ela, "aceitar Jesus", porque estava correndo o risco de ir para o inferno. Saiu-se com esta: "uai, Comadre, meu pai e minha mãe são as maiores joias que Deus colocou em minha vida. E nunca foram "crentes". Agora, você está me dando a notícia de que eles estão no inferno, então, vai ser um prazer poder ficar junto deles. Para que eu vou querer outro lugar?

Fitando-o, a minha tia só conseguiu dizer assim: "é, você não tem jeito..."

Meu pai é assim: sem jeito. E é por isso que é o meu espelho na vida...

Pe. Olimpio era Coordenador da Associação de Ex-alunos de Dom Bosco, quando o conheci. Sorridente, de conversa amena, era uma companhia extremamente comunicativa e agradável que, por cortesia divina, brindou-me com a sua amizade. Quando publiquei "Lírios para Maria", recebia sempre um pedido para que eu lhe enviasse alguns exemplares, pois iria viajar para algum encontro e gostaria de divulgar e vender alguns livros por mim. Assim, acabou sendo um dos principais responsáveis por esgotar a tiragem de 1.000 exemplares que editamos. Acho que essa era a sua maneira de demonstrar sua amizade. Ajudando-me e promovendo-me. Eu, então adolescente metido a poeta, só hoje compreendo integralmente a dimensão da sua figura humana.

Quando fui candidato a vereador pela primeira vez, recebi um chamado seu. Queria que eu fosse à Inspetoria São João Bosco, onde residia. Chegando lá, recebi dele um livro-caixa, "para você anotar toda entrada e saída de dinheiro para a campanha", ele disse e entregou-me um envelope, "para abrir o livro", com cem reais: "eu queria ajudar mais, mas, você sabe, né, fiz voto de pobreza... mas, recebi uma pequena quantia de herança e separei esse, não pelo valr, mas te dar um ânimo, porque acredito em você."

Foi mais ou menos isso o que ele disse. E, ainda me lembro da defesa que fez de mim, quando se insinuou que eu pudesse estar me promovendo por ser um ex aluno.

Na última vez em que o vi, Pe. Olimpio não me reconheceu. Encontramo-nos na Rua Tupis, no entro de Belo Horizonte e, quando o cumprimentei, perguntou: "quem é você?". Com estranhamento, respondi: "Sou eu, o Vanderlei". "Ah, o nosso poeta", disse, e, sorrindo, como era seu estilo, completou: "não liga não. É que estou com Alzheimer. Daqui a pouco não vai dar para reconhecer mais ninguém". Despedimo-nos e só fui saber dele, novamente, daí há uns dois anos, talvez, quando pedi notícias dele ao Edu, já sabendo que ele havia retornado à casa do pai, onde estou, por ora, impedido de fixar moradia.

Por pouco tempo...

Dizem que o tempo não existe. É apenas uma abstração criada para dar algum sentido à vida. Pois, em "O curioso caso de Benjamin Button" essa "abstração" foi elevada à condição de personagem principal de um filme. É ela quem dita o ritmo do filme, onde um homem desafia as leis da física, nascendo velho para ir rejuvenescendo com o passar do tempo.

Eu admiro a fonte de criatividade humana. Há histórias que a gente lê e gostaria de ter escrito. Eu admiro F. Scott Fitzgerald, o autor do conto que serviu de inspiração para que fosse contada essa história que, no final das contas, a gente tem dificuldade em classificar. É uma história de amor? É uma história sobre encontros e desencontros, ou é, apenas, a história de um tempo passando inclemente, seja para frente ou, brincando conosco e fazendo o caminho inverso da literalidade à qual estamos acostumados?

Há algum tempo, em clip da música "Return to innocense", o grupo musical "Enigma" tratava desse tema, de uma forma muito bonita e sensível, com o tempo correndo ao contrário, a partir do momento da morte da personagem. Mas, á diferença é que, ali, a vida anda para trás, ao contrário, como naquele texto usado em um comercial da década de 90, se não me engano, para uma peça publicitária, onde Chico Anysio falava sobre nascer aos 80 anos e ir rejuvenescendo com o passar do tempo. Tudo redondinho. Poético e bonito.

O filme vem colocar as coisas em seu devido lugar. É que, no mundo real, as coisas são bonitas e poéticas a seu tempo e são, para nossa tristeza, finitas. E como o tempo é curto para aquilo que queremos perpetuar, como situações, momentos e pessoas especiais. Que o diga Benjamin, que, ainda na velhice, vai descobrir que a vida é uma colcha de retalhos, tecida de aprendizados, mas sobretudo, com a dor da perda. E que essa colcha é feita, sobretudo, daquilo que a gente não teve tempo ou oportunidade de fazer.

Mas a vida é feita, principalmente, de amigos. E, lá estão muitos amigos. Inclusive um capitão de navio, um dos elementos importados de outro filme igualmente tocante e sensível, "Forrest Gump - o contador de histórias". Mas o elemento principal é mesmo, o tempo: Benjamin nasceu ao fim da primeira guerra mundial, em circunstâncias "anormais", era um bom dia para nascer...

a verdade é que, antes do seu nascimento, o tempo já havia se intrometido a personagem principal. Eis que, no princípio era o relógio. E essa raridade de relógio andava para trás, para que os jovens que haviam perdido suas vidas na guerra pudessem voltar para os campos de batalha e, dos campos de batalha, para casa...

não trouxe nenhum jovem de volta, mas influenciou decisivamente a vida do menino que nasceu idoso. O menino interpretado por Brad Pitt, cada vez mais jovem, graças a um trabalho de arte e a uma duração que, se por um lado parece ter deixado o filme meio longo, por outro, propiciou que as mudanças ocorressem na medida certa, para ficar mais convincente. Assim como é convincente a aceitação, por parte da mulher que ele amava, de que seria impossível continuarem juntos.

"O curioso caso de Benjamin Button" é uma prova de que o tempo é cruel. Mesmo quando procura-se inverter a sua lógica de funcionamento. O alento vem do fato de que, por mais que tente, ele não consegue superar o amor. Ainda que consiga separar, provisoriamente, as pessoas que se amam. E, parece vingar-se desse fato, quando assistimos, ao final, a inversão daquilo que ocorre no início: antes era Dayse (Kate Blanchett), criança, e Benjamin, idoso. Ao fim é Benjamin, criança e a sua amada, idosa, depois de terem vivido um grande romance.

De resto, o tempo é, realmente, o senhor da história, que só acaba depois que é trocado o relógio da estação, aquele que, no início da fábula, andava para trás.

A lição que fica é de que, sob qualquer ponto em que se analise a vida, o eclesiastes tem razão: há um tempo para todas as coisas debaixo do sol...

e, se é assim, melhor é que andemos sempre para frente. Nunca o contrário.

Sobre a minha "doce vida"

Hoje, nos corredores da Câmara Municipal, uma moça ofereceu-me uma bala: "para adoçar a sua vida", ela disse. "Mas a minha vida já é doce", retruquei. E completei para mim mesmo: "vou contrair um diabetes". Saí desse breve encontro pensando na minha "doce vida"...

Preciso fazer uma pausa para um breve comentário: "A doce vida" é, na verdade, uma das obras primas de Fellini, cujo título, por acaso, veio ao meu encontro no exercício literário do dia. E será que a minha vida tem algo a ver com esse clássico? Talvez, até tenha, pois lá está Marcello Mastroiani curtindo os atrativos da vida moderna, na descrição de Fellini. E aqui estou eu, descrevendo a minha busca pela doçura do equlíbrio em meio a essa mesma modernidade que continua privilegiando os valores do parecer e do ter, em detrimento do "ser". Não faz muito tempo, assisti "Elza e Fred", uma comovente história de amor em que a personagem principal tem na sua sala de estar um quadro de Anita Ekberg, em "A doce vida" e sonha reproduzir, ela mesma, a sequência célebre do filme, na Fontana de Trevi, desejo que, emocionada, acaba realizando. Ainda bem que esses filmes vieram se intrometer na minha escrita. Preciso revê-los, mas...

voltando à doçura da minha própria vida, que está longe da vida de prazeres do Mastroianni, saí pensando em como a vida costuma nos colocar diante de situações curiosas: mesmo em meio ao turbilhão de afazeres e de problemas a solucionar, há ensejo para que se mantenha a vida pessoal "doce", embora a rodeie a amargura. No meu caso, até os meus poemas, que sempre tiveram uma carga melancólica muito grande, estão aos poucos, cedendo espaço para a prosa, leve e nada melancólica. Deve ser sinal de que aquele estado de espírito já me abandonou.

À medida que o tempo passa, parece que sou tomado de uma certa paz de espírito, que insiste em permanecer em mim, mesmo quando o caos impera em derredor. Não costumo perder a calma, até porque virtude, uma vez conquistada, não mais se perde. Alguém já me disse que a isso se chama maturidade. E eu, que sempre me orgulhei de ter sido um menino precoce em quase tudo o que fiz, começo a temer a precocidade da calmaria. Porque ela costuma anteceder a velhice...

Sobre infância encolhida

Em entrevista publicada nas páginas amarelas da revista Veja desta semana, Maurício de Sousa comenta o sucesso da revista da Mônica adolescente, que vende o dobro da Mônica criança. E afirma: a infância foi encurtada.

Segundo ele, antigamente, adolescentes de 14 anos liam e gostavam dos seus gibis, enquanto, hoje, começam a deixar de lê-los aos 7. A solução encontrada? Investir naquilo que parece ser a tendência do momento: a modernidade, que confere malícia aos personagens.

"Os personagens dos quadrinhos adolescentes protagonizam cenas de ciúme, sentem atração pelo outro sexo e ficam inseguros no grupo. Estão com os hormônios pipocando e não sabem o que fazer com isso... no quarto número, colocamos a Mônica beijando na boca o Cebolinha, agora chamado Cebola. Deu super certo Crianças de 7 anos voaram para o mangá como abelhas no mel. Lêem as histórias e se projetam nos nossos personagens. As meninas não vêem a hora de ser como a Mônica jovem: descolada, bonitinha, moderninha."

Bom... eu, que nasci no interior, tive a oportunidade de viver o lúdico da infância e a inocência que ainda permeava a pré adolescência. Criança de 7 anos não pensava em beijar na boca, porque achava isso nojento e, ao invés de ser descolada, bonitinha e sexy, pensava em brincar. Em ser criança.

Não está longe no tempo, até porque ainda somos jovens, brincadeiras de passar anel, pique-esconde, brincar de médico com a prima ou se esconder para vê-las tomando banho, participar dos "almoços" que as irmãs faziam com as colegas e mais um sem número de coisas que inventávamos.

As crianças estão deixando de ter infância. Encurtou-se a infância, como bem disse o Maurício. É uma pena que os formadores de opinião, que poderiam colaborar para devolver a infância perdida, acabem se rendendo à demanda de mercado. Alguém está dizendo aos pequenos, que é bonito imitar as dançarinas de grupos de funk. Estão confiscando o seu direito de viver plenamente uma fase da vida que, por si mesma, já é curta, porque dia virá, em seguida, em que haverá necessidade de se "adaptar ao grupo". O importante é que, enquanto esse dia não chega, há muito a se descobrir. Muito que uma revista em quadrinhos poderia mostrar, ajudando-os a sonhar. Dobrando-se às necessidades mercadológicas, aos apelos da indústria do entretenimento, rouba-se o sonho, a criatividade, a inocência de ser criança.

Bom seria se não industrializassem o entretenimento. Porque aí haveria espaço para inventar e reinventar, típico da idade infantil.

Eu que fui e faço questão de continuar sendo criança, nada sei sobre encurtamento da infância. A minha, cuidei para que não tivesse fim, prolongando-se por todos dias de duração da minha existência...

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