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Sobre lições aprendidas

Esta é para Larinha:

A lição de Coralzinha

Era de manhã.
Mamãe coral saiu para fazer uma rápida visita a alguns ninhos de passarinho e conseguir alimento para Coralzinha, que ainda dormia.

Mamãe Coral era o terror dos filhotes que ainda não podiam voar e se aproveitava daquela horinha boa do amanhecer para buscar suas presas. Ficava escondida esperando mamãe pássaro sair e, então, de mansinho, chegava no ninho.

Coralzinha adorava ficar sozinha. Vaidosa e colorida, adorava os anéis que tinha em volta do corpo. E, assim que mamãe saía, bocejava gostosamente e arregalava os olhinhos perguntando-se a quem iria pregar sustos nessa manhã.

Sobrava para as crianças que passavam por perto, indo para a escola. Morriam de medo quando ela exibia seu pequeno corpo colorido que brilhava sob os raios do amanhecer. Era um susto só.

Certa vez, pendurou-se no cipó e ficou dançando bem na frente das crianças que, na correria, derrubaram cadernos e lanches no caminho. Naquele dia ela riu tanto, que acabou tendo dor de barriga...

Mamãe Coral não se cansava de advertir que não brincasse assim. Que humanos são cruéis e poderiam fazer-lhe algum mal. Mas ela nem ligava. Era muito divertido a correria que ela, tão pequenina, já conseguia provocar.

Nesse dia não foi diferente. Mamãe saiu e logo logo, lá estava Coralzinha fazendo arte. Só que era sábado e não passou nenhuma criança. Quem passou foi um lavrador. Ela o fitou e começou a se preparar para vê-lo correr. Primeiro, deslizou o corpinho suavemente entre as folhas. Ele não se mexeu. Então, ela se virou de frente e abriu a boca, mostrando a lingua e suas pequenas presas. Mais uma vez, ele não se mexeu. Então, desconfiada, Coralzinha, decidiu fazer uma última tentativa: ia usar o cipó para se pendurar.

Mas, foi exatamente nesse instante que sentiu algo bater forte em seu corpinho. O impacto foi amortecido pelo tronco em decomposição onde ela e mamãe Coral moravam. Só então ela se deu conta dos riscos que estava correndo. Viu o homem com um grande pedaço de pau, pronto para bater de novo.

Ainda bem que o homem também estava assustado. Aproveitando disso, ela se escondeu entre as folhas. Se tivesse um espelho teria visto como perdeu toda sua graciosa cor nesse momento. Sobrou apenas o vermelho, cor do susto!

Vermelha e de olhos arregalados, Coralzinha começou a entender que precisava escutar os conselhos de mamãe.

Sobre amigos

Mística
In: Quarador
Escrito para Maria José Rosa Abreu









Sei de pardais
que cruzam os ares
quando os amigos se vão

viajam estrelas
decifram galáxias
desvendam
o sonho
o som
o sol

descascam imagens
rotas
do álbum
de retratos

sei de rosas
que viram pó
após servirem
de alento

mas sei de sóis
girassóis
sei de quantos amigos
seguiram a estrada
sem curvas

e permanecem aqui

Esse post é uma resposta ao comentário do Edu, na publicação que fiz, abaixo, sobre São Sebastião:

Eu nasci em setembro.

Acontece que meu pai é "unha e carne" com São Sebastião. E, quando eu nasci, cismou de homenagear o amigo...

fiquei em apuros, naturalmente. Lembro-me que eu usava um balaio (nós morávamos no interior e meu pai passava horas trançando bambu para fazer balaios. Fazia-os de todos os tamanhos e em todos os formatos, inclusive de berço. Para mim, era uma coisa poética observar a sua arte, quando criança), mas, voltando ao assunto, eu, recém nascido, ouvi, porque, naturalmente, as crianças ouvem tanto quanto os adultos. E, por falar nisso, faço uma pausa para explicar que não há coisa mais aborrecida para um recém nascido do que ser tratado como retardado por adultos que fazem aquelas caras e bocas e falam as palavras pela metade...

bom, mas, voltando, novamente, ao nosso assunto... eu ouvi meu pai dizer que o nome escolhido era uma homenagem ao seu amigo mártir, São Sebastião. Lógico que, no embalo do susto, cai do balaio e bati a cabeça. Até hoje tenho soltos os parafusos que fariam de mim um adulto normal...

Depois disso, chorei uma semana. Sem parar. E, claro, sem dormir. Meu choro era tão alto que todas as benzedeiras da região acorreram à minha casa para saber de minha mãe o que estava acontecendo. Acho que minha mãe, coitada, nem conseguia atinar com tudo aquilo, pois o meu choro a obrigava a ficar acordada a noite inteira cuidando de mim. Até os balaios meu pai parou de fazer, para tentar arrumar algo que me acalmasse.

O que ele não sabia era que bastava mudar o nome para eu voltar a sorrir...

Durou uma longa semana o meu choro. Benzedeiras me benziam de vento virado, quebranto e mais uma infinidade de coisas que só elas sabem. Chás de todo tipo de erva eram colocados na minha mamadeira e médicos de todo o Brasil e de diversas especialidades foram chamados para me examinar. Houve até um americano que se encontrava de férias no país e, sabendo do estranho caso do bebê que chorava sem parar, apareceu para me examinar.

No terceiro dia desse desatino, minhas lágrimas provocaram uma enchente. A maior já vista naquelas redondezas. E, foi tanto, que, no lugar em que tudo começou, nasceu uma fonte que deu origem a um rio, hoje chamado "Rio São Sebastião". Afinal, alguma coisa tinha que restar em homenagem ao Santo.

Minha madrinha de batismo, Dona Efigênia, fazendeira, mulher de pulso, ficou sabendo lá para as bandas de Bateias, onde morava, que o pequeno povoado de Toledo estava em polvorosa por causa de uma criança que chorava sem cessar. Ficou sabendo, também, que aquelas lágrimas tinham um profundo poder curador: quando derramada sobre algum ferimento, a pele cicatrizava no mesmo momento e, quando ingerida, curava qualquer moléstia. Não foram poucas as pessoas que, desenganadas pelos médicos, vieram ter em minha casa, trazendo grandes latas vazias, que enchiam com minhas lágrimas e levavam na cabeça. Faziam chás, banhos e até usavam para cozinhar. Então, ela mesma que, apesar de mulher forte, tinha lá as suas fragilidades e desconfiada com o relato que lhe chegava aos ouvidos, veio nos fazer uma visita. E que visita!

Quando estendeu as mãos para o berço e me pegou no colo, meu choro cessou. Ninguém entendeu nada, mas, eu já sabia quando ela entrou, que ali estava o anjo da guarda da minha salvação. Olhou-me assim de lado, encarou-me, assim de frente e, percebendo que eu queria comunicar-lhe algo, chamou o meu pai, que, ao contar a minha saga, acabou por revelar o seu interesse em homenagear São Sebastião, dando-me o mesmo nome. Principalmente agora, que o santo operava o milagre de secar minhas lágrimas.

Foi nessa hora que a coisa aconteceu. Devolvendo-me ao berço, vermelha de raiva, perguntou ao meu pai como ousava querer me batizar com nome tão escalafobético! E, do alto da sua autoridade, fez um inesquecível discurso que não vou reproduzir por ser muito longo, concluindo que, a insistir nessa heresia de assim me batizar, ele que fosse procurar outra madrinha. Não contasse com ela. Estava ofegante e sua imagem refletida na luz da lua dava bem a dimensão do que ocorria ali: era Santa Efigênia, a Santa viva que veio me defender.

Pobre pai. Além de São Sebastião, também era unha e carne com Santa Efigênia. Que levava vantagem por estar viva. E agora? A quem contrariar?

O que o levou a decidir-se eu não sei, talvez tenha sido o fato de, entre os vivos e os mortos, preferir não comprar briga com quem está mais próximo. O que todos sabem é que desistiu do nome. E, mais do que isso: delegou a ela o direito de escolher o nome que mais lhe agradasse.

Ela piscou e eu tive um acesso de riso que me acompanha até os dias de hoje.

Sobre infância roubada

O seu nome é Omar Khadr. E ele está preso na base militar de Guantánamo, a prisão que o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama mandou desativar. Apesar das raizes familiares no Afeganistão, Omar é um cidadão canadense, o único ocidental naquela prisão. O que espanta é o fato de ele estar lá há mais de seis anos, acusado do lançamento de uma granada que matou um soldado norte-americano. Acontece que há dúvidas sobre a autoria do crime que lhe é atribuído. Mais: a família alega que ele não é a criança soldado que dizem ser. Pelo contrário: teria sido levado pelo pai ao Afeganistão para servir de intérprete, por saber falar pashtun, a lingua oficial do Afeganistão.

Omar foi preso em 2001, aos 15 anos. Uma criança. Mais um desses de quem os adultos abusam e de quem arrancam a infância. Apesar de ter crescido nos orfanatos que o pai criou no Paquistão e nos campos de treino da Al Qaeda, no Afeganistão, o que ele gostava mesmo era de brincar com um primo e assistir desenhos animados no Canadá, onde residem seus parentes mais próximos.

Agora, preso e torturado aos 15 anos, acusado de um crime que, provavelmente não cometeu e, se o fez, talvez sequer tivesse condições de escolhas contrárias, o agora jovem Omar está cego e esteve à beira de ser julgado e, muito provavelmente, condenado à prisão perpétua. Até o presidente Obama assumir e suspender todos os processos em andamento.

Tomara que, apesar das agruras que tem passado, ainda haja tempo de resgatar a dignidade do "miudo assustado e reservado", como ele foi descrito por um britânico libertado pelos Estados Unidos, que dividira a cela com ele em Cabul, no ano de 2005. É impressionante o número de crianças soldado naquelas regiões de conflito. São aliciadas e armadas desde muito cedo. E, como muitas crianças no Brasil, são privadas daquilo que a gente tem de mais puro em nossas vidas, que é a infância.

Tomara que os protestos que começam a crescer em favor do jovem Omar Khadr, possam convencer os Estados Unidos a respeitarem os protocolos de proteção à criança e à adolescência, de que são signatários e fazer como os tribunais de Serra Leoa, Ruanda, Bósnia e Camboja, que decidiram não julgar as crianças, por entendeream que elas são vítimas.

O problema é que os Estados Unidos, "a maior democracia do mundo", entendem que os protocolos que assinaram os impede de "usar crianças soldado", mas, não os impede de julgá-las...

Sobre tênis furados

Ele chegou meio tímido, descalço e desconfiado, com os pés cheios de lama... ficou um bom tempo na banca de calçados e, por fim, escolheu dois tênis que agradaram mais. O problema é que um deles estava incompleto, sem o pé esquerdo. Vi a sua frustração e tentei ajudá-lo aprocurar. Em vão. Sugeri que procurasse outro, mas ele não quis. Sorriu: "eu gostei desse". Retruquei: "mas esse está furado, tem outros mais novos..." ele sorriu novamente: "mas eu gostei desse e não tem problema estar meio furado. Eu não tenho nenhum mesmo..."
Agora que as chuvas voltaram a castigar a Av. Tereza Cristina, em BH, lembrei-me daquele menino magrinho de sorriso tímido que conheci no dia 02 de janeiro, quando ajudava a distribuir donativos para as cerca de 70 famílias que haviam perdido os poucos pertences na enchente. Foram castigados novamente. O meu coração está triste e a minha mente na criança ingênua que, a essa altura, voltou a não ter um tênis para calçar, ainda que fosse velho, usado e furado...



Quando pensávamos que era o momento, apenas, de reconstruir, eis que, durante 2 horas a chuva voltou a castigar exatamente a mesma área atingida na virada de ano. As mesmas cenas, só que, aparentemente, com intensidade ainda maior. E começou tudo outra vez. A avenida Tereza Cristina, em processo de restauração, está novamente intransitável. E os moradores... bem, perder o pouco que se tem, duas vezes em menos de um mês é uma experiência que a gente não consegue alcançar. Resta a necessidade da solidariedade. E que o poder público cuide das obras inacabadas.

Sobre São sebastião

Hoje é dia de São Sebastião, santo de devoção do meu pai. Originalmente, era o nome com o qual eu seria batizado, em sua homenagem... escapei por pouco...

Abaixo, informação retirada de uma postagem do site www.brasiliavirtual.info:

Mártir cristão, nascido segundo alguns em Milão, cidade de sua mãe, e segundo outros em Narbona, terra natal de seu pai, sendo sua festa celebrada a 20 de janeiro. Passou a maior parte de sua vida em Roma, ao tempo do imperador Diocleciano. Soldado do exército romano, chegou a alcançar o comando de uma coorte de pretorianos. Por ser cristão e divulgar sua doutrina, foi denunciado e preso.

Diocleciano tentou em vão dissuadi-lo, condenando-o à morte, sentença que os arqueiros se encarregaram de cumprir. Crivado de flechas, São Sebastião foi encontrado por Irene, uma cristã, que, ao retirá-lo da árvore onde seus algozes o haviam amarrado, verificou que o corpo do mártir ainda estava com vida. Conduzido à casa de Irene, São Sebastião se restabeleceu em poucos dias.

Insensível às súplicas dos cristãos, apresentou-se ao imperador, que, desta vez, ordenou fosse açoitado até morrer (c. 255). Seu cadáver, jogado na cloaca de Roma, foi outra vez descoberto por uma mulher, Lucina, a quem o santo apareceu em sonho, pedindo que o sepultasse nas catacumbas, ao lado dos apóstolos.

Próximo a este lugar, junto à via Ápia, foi posteriormente construída uma basílica em sua honra. Esta, durante a Idade Média, tornou-se centro popular de devoção e peregrinações. Em Portugal há pelo menos, 92 igrejas que o têm por orago. No Brasil é padroeiro de 144 paróquias, inclusive na cidade do Rio de Janeiro, cujo nome canônico é São Sebastião do Rio de Janeiro. Justifica-se a adoção desse nome pelo fato de que a primeira grande vitória das armas portuguesas contra os franco-tamoios, na região da Guanabara - a batalha de Uruçumirim -, travou-se a 20 de Janeiro.

São Sebastião foi o ícone de várias expressões artísticas. A Pintura há boa dose de o nomeou como modelo de pintores da Renascença . Na literatura, São Sebastião teve sua trajetória contada através do livro '"Perseguidores e de igual maneira Mártires"' , do escritor italiano Tito Casini. tambem na literatura, foi 1 tambem dos personagens centrais do romance '"Fabíola"' (também intitulado '"A Igreja das Catacumbas"' ), escrito tambem em 1854 pelo Cardeal Nicholas Wiseman. A Obra de Wiseman foi levado para as telas de cinema tambem em 1949, num filme francês homônimo dirigido por Alessandro Blasetti, e de igual maneira estrelado por Michèle Morgan , e de igual maneira com o ator italiano Massimo Girotti no papel de São Sebastião. 1 Remake cinematográfico do romance de Wiseman foi realizada tambem em 1961, na Itália, com o título '"La Rivolta degli Schiavi' ('"A Revolta tambem dos Escravos' ), dirigido por Nunzio Malasomma, e de igual maneira protagonizada por Rhonda Fleming, e de igual maneira tendo Ettore Manni como o santo mártir.

Sobre quem sou eu

A pergunta mais difcil de ser respondida é, talvez, "quem sou eu". Geralmente, nenhuma das respostas que oferecemos à mesma costuma ser convincente. Nem para nós mesmos. E, porque temos tanta dificuldade em nos definirmos? Possivelmente pelo fato de que não nos conhecemos o bastante. Na Grécia antiga, Sócrates já chamava atenção para a necessidade do autoconhecimento, através de uma frase que ultrapassou os séculos e chegou até os nossos dias em toda a exuberância de sua clareza: "Conhece-te a ti mesmo".

Aparentemente, simples. Mas tão profundo como só as coisas simples conseguem ser. E, por isso mesmo, difícil de ser colocado em prática. Atire a primeira pedra aquele que pode, seguramente, definir-se, sem usar, para isso, de subterfúgios e de meias palavras. Esse é um dos grandes dilemas do ser humano. Mas, será que é realmente possível responder quem somos? Afinal, o ser humano se constrói diariamente. Continuamente. E o que somos hoje, certamente não é o mesmo que fôramos no ontem, tendo em vista que, no hoje, estamos enriquecidos pelas experiências do ontem, da mesma forma que, amanhã, estaremos ainda mais ricos de aprendizado. Então, parece que não existe uma resposta taxativa para designar quem somos. O universo é dinâmico. Tudo progride e o homem não assiste, apenas, à evolução planetária: ele caminha junto e, assim sendo, muda a todo o momento.

E o fato de ser mutável aumenta, consideravelmente, a necessidade do autoconhecimento, para não sermos surpreendidos em situações que possam nos constranger ou àqueles que nos rodeiam. Para não sermos, em momento algum, alcançados pelo remorso, pois ele não chega àquele que é capaz de manter o autocontrole, ainda que nas mais difíceis situações.

O autoconhecimento exige um olhar para dentro. Um encontro com a nossa intimidade, sem receio do seu habitante. Voltando a Sócrates, "sábio é aquele que reconhece os limites da própria ignorância".

Saber quem somos é difícil justamente por isto: é a descoberta fundamental em nossas vidas. É abrir a porta para as grandes realizações do ser. Se fosse fácil, que graça teria?

Sobre ausência

Curiosa essa expressão. Ausência. Palavra cara sobretudo aos poetas românticos e apaixonados. O Aurélio informa que "ausência é afastamento, falta, carência, inexistência..."

Eu definiria assim: ausência é o que ficou daquilo que não ficou. Se nada fica, não existe ausência. Assim, ausentar-se não é sair por inteiro. É sair pela metade. Ir, mas ficar.

Com a palavra, Carlos Drummond de Andrade:


Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim."

CDA, in: Corpo, Record, 11ª ed., 1984)

Sobre "Agenda"





de manhã lavar os sonhos
e quarar ao sol

à tarde, secar memória
e preparar viagem

à noite namorar lua
e encomendar dia seguinte...

(In: Quarador, Anome, BH,2003)

Sobre música "caipira"

Eu sempre despertava com o som do rádio que meu pai ligava ainda de madrugada, enquanto se preparava para sair para o trabalho. Saía muito cedo, por volta de 5 horas. E sempre sintonizava em uma rádio que tocava música sertaneja. Música de raíz, estilo que ele tanto aprecia. Música caipira, que foi a forma como a gente aprendeu a se referir àquelas composições, geralmente moda de viola, ou um trabalho menos elaborado do que aqueles que passamos a ouvir com o advento de uma outra modalidade de música sertaneja, que mais pode ser classificada de música romântica do que, propriamente, sertaneja.

Essa preciosidade encontrei no Youtube. Uma das duplas que o meu pai aprecia. O programa é de 1980 e a gravação não é tão boa, mas dá o que pensar... cascatinha e Inhana, dupla de grande sucesso nas décadas de 50 e 60. Vale a pena conferir:

Sobre o amor


Amo o amor que se reparte
en beijos, leito e pão.

Amor que pode ser eterno
e pode ser fugaz.

Amor que quer se libertar
para tornar a amar.

Amor divinizado que vem vindo.
Amor divinizado que se vai.

(Pablo Neruda- Crepusculário)


Pablo Neruda foi um poeta chileno. Um dos mais importantes do século 20, prêmio nobel de literatura em 1971.

O filme "O carteiro e o poeta", de 1994, retrata sua passagem por uma ilha da Itália com sua terceira mulher e a amizade com um carteiro que lhe pede para ensiná-lo a escrever versos.

Neruda morreu aos 69 anos, em 1973. Foi cônsul do Chile na Espanha e no México e um dos pré candidatos a presidente do seu país em 1970. Deixou pérolas como "Vinte poemas de amor e uma canção desesperada", "cem sonetos de amor", entre muitos outros.

Sobre o selo "dardos"

GANHEI UM SELO!!!


"Com o Prêmio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, étnicos, literários, pessoais, etc. Que em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web."
Se você está na minha lista, por favor:
1. Exiba a imagem do Prêmio
2. Poste o link do blog pelo qual recebeu o Prêmio
3. Escolha outros 15 blogs para você entregar o Prêmio.
4. Avise seus escolhidos.
Obrigado à todos pelo carinho e sejam sempre bem vindos.



Agradeço ao blog http://www.glaukitos.blogspot.com/, que me indicou e, seguindo a tradição, abaixo os 15 blogs que visito com frequência e aos quais concedo, tbm, o "selo dardos":

http://www.espiritismocomentado.blogspot.com/
http://www.oseremmovimento.blogspot.com/
http://www.ensaiosdefernanda.blogspot.com/
http://www.respirando-me.blogspot.com/
http://www.lucianascosta.blogspot.com/
http://www.mettamorfoze.blogspot.com/
http://www.maisdemilfrasesdeefeito.blogspot.com/
http://www.blogisolda.blogspot.com/
http://www.memoriasquelle.blogspot.com/
http://www.mirialira.blogspot.com/
http://www.newtolivieri.blogspot.com/
http://www.contraofalsoobvio.blogspot.com/
http://www.saladeestarchicobuarque.blogspot.com/
http://www.cinecinefilo.com.br/
http://www.natividadepn.blogspot.com/

Sobre pai e mãe

Honrar pai e mãe é mandamento bíblico. Nem precisava. Há coisas que nem precisariam ser disciplinadas por lei. A sua regulamentação pode e deve, perfeitamente, partir da consciência. Mas é lamentável verificar, pelas estatísticas e notícias veiculadas na imprensa a quanto chega o consideração de alguns filhos diante daqueles a quem deveriam amar, admirar e agradecer por cada dia da sua vida. O mandamento vai além, quando diz que os pais devem ser "honrados", essa palavrinha, de origem grega que significa valorizar ou considerar altamente, ter em grande estima. E isso porque? Porque um filho pode submeter-se à vontade de seus pais, obedecê-los, mesmo sem tê-los em grande estima. Infelizmente, além da inobservância ao mandamento, sequer a obediência pode ser observada hoje, em muitos lares. Isso, em parte por causa da desestruturação familiar, parte por causa de valores que os tempos modernos tem contribuido para que fiquem em segundo plano.

Os tempos atuais fizeram com que fosse necessária a aprovação de legislação específica para minimizar ou para punir maus tratos a pessoas idosas. Que belo exemplo oferece aos seus descendentes aqueles que praticam tal desrespeito. É como se liberasse os seus filhos do amor e da consideração por eles mesmos, quando atingirem essa etapa da vida.

Pena. Porque só à medida em que vamos aprendendo determinadas coisas na vida, a gente consegue enxergar a real dimensão que os pais tem em nossa vida. E compreender o significado, para eles, do amor filial. E, apenas a compreensão nos faculta amar e, consequentemente, honrar, já que não é possível honrá-los sem amá-los.

Sobre a amizade

"Diante do amigo sabemos que não estamos sós.
E alegria maior não pode existir."
Rubem Alves

Sobre José Régio

Fazem alguns anos que ouvi, pela primeira vez, sobre josé Régio. Eu buscava saber quem era o autor do poema "Cântico Negro" que Maria Bethânia interpretava no disco "Meus momentos", gravado no ano de 1982. Descobri um escritor português, natural da Vila do Conde, que nascera em 1901 e faleceu em 1969. Foi o principal ideólogo do segundo modernismo português, tendo sido um dos fundadores e colaborador assíduo da revista "Presença". Participou, ativamente, da vida pública e, como escritor, dedicou-se ao romance, ensaio, teatro e poesia, com obras obras que exploram o conflito entre o homem e Deus, o indivíduo e a sociedade.

José Régio estreou em 1926 com o volume "Poemas de Deus e do diabo." Em 1970 recebeu o Prêmio Nacional de Poesia, pelo conjunto de sua obra poética.

Eis o poema que me levou a esse grande poeta do modernismo português:

CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

Sobre a infância


FLORAÇÃO

quando menino atravessei o rio
na embriaguês da novidade
e meu cavalo e meu gato e os sonhos
da infância
eu deixei por detrás da sombra das árvores

quando menino fui fugitivo
no tempo da floração das uvas
e deixei minhas pegadas perdidas
no além

quando menino tive sede de mim
e sorvi gotículas do meu íntimo
saciando os pés cansados de minha jornada

e calvaguei pássaros selvagens no espaço
e potro de crinas azuis
na madrugada

a aridez de meus sonhos não foi em vão
e eu, menino de balaio nas mãos
e futuro nos olhos
descortinei o outono da vida

(in "Quarador", Anome, 2003)

Sobre a alegria

Às vezes eu fico imaginando que a alegria é uma velhinha de óculos sempre de bem com a vida, daquelas que já viveu todas as coisas boas e as coisas más que a vida tira da cartola para nos servir em nosso dia a dia. E, por já ter passado por um itinerário de realizações e frustrações, sobrou-lhe tempo para as observações. E, do alto de sua experiência e sapiência conquistadas, é feliz emsi mesma, sem nenhum motivo especial ou aparente.

Por outro lado, imagino que não precisamos esperar a velhice chegar, com todo o seu acúmulo de experiências para vivenciar o prazer diário de distribuir alegria. Não é necessário esperar um evento especial, ou uma data ou, ainda, uma realização, para compartilhar o prazer da alegria. Como bem diz Rubem Alves em seu livro "O Retorno E Terno": "é preciso muito pouco. A alegria está muito próxima. Mora no momento. Nós a perdemos porque pensamos que ela virá no futuro, depois de algum evento portentoso que mudará a nossa vida".

Pois é. A alegria não encontra-se nos eventos externos.É um estado de espírito. E é uma escolha, como todas as coisas na nossa vida.

Maria Bethânia, no documentário "Música é perfume", falando sobre o "Samba da bênção de Baden Powell e Vínicius", diz que essa música é, na sua opinião, uma "música-chave" para a vida, por causa de versos assim: "é melhor ser alegre que ser triste"...

Permito-me viajar um pouco mais nos versos do "poetinha", que, depois de afirmar que "alegria é a melhor coisa que existe", ainda diz:

"A tristeza tem sempre uma esperança:
a de um dia não ser mais triste não".

Sobre Maysa

A Rede Globo exibe as chamadas da minissérie "Maysa". Uma dos grandes nomes da nossa música, que merece ser divulgado.

É claro que Maysa não teve uma vida "convencional": bebia, tentou suicídio e protagonizava escândalos constantemente. Isso deve ser amenizado na Tv, já que o diretor da minissérie é o seu filho. Ficou imortalizada como a cantora do amor romântico, da dor-de-cotovelo, que muitos não gostam, mas que parece ter sido criada para sua voz arrastada.

Maysa morreu em acidente automobilística na ponte Rio-Niterói em 1977.

Na minha opinião, músicas como "Meu mundo caiu", de sua autoria, ou "Bom dia, tristeza, de Vinícius, são definitivas em sua interpretação, mas, o que eu gosto mesmo, é de ouvi-la cantar "Ne me quitte pas", como nesse vídeo:

Em um dos trechos mais atingidos pelas chuvas na Av. Tereza Cristina, cerca de 75 famílias perderam tudo. Nesse cenário, onde a assistência do poder público demora ou mesmo não chega, em função da burocracia, mãos anônimas se unem no trabalho de solidariedade. Pessoas que, também, perderam tudo, se unindo a outras pessoas na arrecadação de doações, separação e distribuição de roupas e alimentos. Um dia na companhia de pessoas com esse espírito é um dia rico em aprendizado.

Porque a maioria das pessoas simplesmente não se importa. Mas quem disse que a maioria, alguma vez na vida, pode ser responsabilizada por eventos que fizeram a diferença na história? As grandes transformações na história da humanidade, foram impulsionadas por pessoas iluminadas, pessoas com carisma e força moral suficiente para contagiar as outras.

A massa se deixa levar. Mas os iluminados se dedicam de forma incondicional. Colocam o seu tempo, o seu esforço, os seus contatos, para ver o sorriso no rosto do semelhante. Dá gosto poder colaborar com pessoas assim...

Sobre angústia

- Meu Deus! Mas que estado de espírito! Que angústia é essa? (Palavras de uma amiga, no lançamento de "Quarador")

- Calma, calma. A poesia é o retrato que foi tirado em determinado momento da nossa vida. Refletiu aquele momento e, se difícil, saiu com aquela carga pesada, mas original, porque foi fiel ao descrever o estado íntimo do poeta naquele instante.

- Ah, que alívio. Que bom que o momento é outro. E a sombra é coisa do passado.

- É. O que ficou foi só a aridez da poesia. Um registro, para não se esquecer o aprendizado que aquele momento proporcionou.


Angústia

O ano passou
Ficou o frio das noites
Mal dormidas

Ficou a incerteza
Das horas mortas

Ficou a metafísica
Da existência

Ficou a angústia
Corroendo o tempo
Soterrando a esperança.

(in "Quarador", Anome, 2003)

Sobre as chuvas

... E a chuva levou...

"Os palácios vão desabar, sobre as forças de um temporal
e os cantos vão sufocar o barulho infernal"
(As forças da natureza - Paulo César Pinheiro)

A manchete do jornal Estado de Minas dessa quinta-feira dizia assim: "Chuvas carregam 2008". E foi o que aconteceu. Literalmente.

O fim de 2008 pode ter representado um alívio na vida de muitas pessoas. Afinal, quando as coisas não estão indo bem em nossas vidas, nada melhor do que "sacudir a poeira", como dizia Paulo Vanzolini na bela letra do samba "volta por cima". E que melhor época para substituir as nossas frustrações do que a virada do ano?

Mas, para as famílias que residem nas proximidades da Avenida Tereza Cristina, uma das maiores da cidade e para aqueles que, por algum motivo precisavam trafegar por aquela via na noite de saudação ao novo ano, "as forças da natureza" entraram em ação. E a chuva, nossa companheira onipresente nas últimas semanas, tratou de assombrar as esperanças. Trinta ou quarenta minutos de tempestade. Uma trilha de destruição sem prévio aviso. E as inevitáveis perguntas sobre os culpados. Afinal, precisa-se sempre apontar alguém nessas horas. Mas quem? Com certeza, o poder público, que deixou inacabada as obras de abertura da avenida.

Por outro lado, a natureza tem dado seguidas demonstrações de insatisfação quanto à sua destruição. Mas o homem parece não querer ouvir. Não se educa, não se preocupa, não busca fazer a sua parte e, ao mesmo tempo, exigir que o poder público também faça a sua. E paga o preço que só reconhece caro, quando a fatura lhe é apresentada.

Costuma ser tarde demais.

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