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Sobre Elisa Lucinda

É possível que eu tenha visto algo de Elisa Lucinda há mais tempo, mas, a lembrança mais antiga que tenho do seu rosto (não tão antiga assim) é da novela "Mulheres Apaixonadas". Confesso que gostava muito daquela interpretação leve, de quem leva a vida de forma descontraída que ela passava. Pois bem: minha curiosidade levou-me a descobrir, além da atriz, uma cantora e escritora que, a meu ver, coloca o coração naquilo que escreve. E o coração da Elisa Lucinda parece ter muita coisa para contar. E aqui está um exemplo:


"Memória de um Silêncio Eloquente

Para ti
sempre tive um infinito
estoque de perdão.
Só para ti
perdoei mais suportava,
mais do que pude.
Minha cerca-limite era sem estatuto,
não tinha um não delimitando nada.
Fui perdoando assim de manada
e muitos erros desfilaram me ferindo,
nos interferindo silenciosos,
sem ninguém denunciar.

Perdoa a dor que te causei,
é que você estava há tempos me machucando
e eu não gritei."

(Poema do livro "A fúria da beleza)

Sobre memórias

BAU



Esse velho baú imaginário
É onde guardo minha memoria
Ele me acompanha desde o sempre
E está abarrotado...

Vivas criaturas mortas
Seguindo meu envelhecer
E riem e bailam e bebem comigo
Na fonte da juventude

Vivíssimos amigos
Saltando do velho baú
Nem tão grande, mas repleto
Da borda ao fundo

A vida é esse baú
A que foi e a que será
E os projetos todos,
E as imagens todas

Ainda que desbotadas
Ainda que impossíveis...

Poema publicado no livro "Poetas em cena", de 2009.

Das lembranças mais gostosas que Zequiel guardou da infância foram aqueles momentos com mãe. De noite, quando todos já tinham ido dormir, ficava com ela na cozinha, enquanto ela cozinhava o feijão no fogão a lenha do canto da cozinha. Mãe sentava de frente para o fogo, aquecendo as mãos, enquanto a panela fervia. Zequiel ao seu lado, não fazia noção da beleza do quadro que protagonizva. Anos mais tarde, lamentaria profundamente não haver um registro fotográfico daquele instante, além do pouco que a sua memória conseguira segurar. Observava mãe cochilando e quando chamava por ela, negava que estivesse dormindo. A cena se repetia a cada dia, até que o feijão estivesse cozido. Ai ela puxava as brasas para a boca do fogão e derramava água para apagar o fogo. Zequiel pegava a lamparina e a puxava pela mão. Paravam em frente ao filtro e ele bebia um pouquinho de água. Bem pouquinha, para evitar ser surpreendido pelo xixi antes que tivesse tempo de se levantar, como às vezes acontecia. E isso não era raro. Por isso é que pai se levantava todas as noites e fazia a ronda nos quartos, para acordar os meninos, pois o sono pesado invariavelmente fazia a cama acordar encharcada. Mãe era muito paciente. Não ralhava nem mesmo quando Zequiel, já meio adormecido, levava a lamparina acesa à torneira do filtro, como se fosse a caneca para beber água. Depois, iam até o quarto. Mãe puxava o cobertor que ela já deixara preparado sobre a cama e ele se enfiava por baixo. Ela cobria o seu corpo de menino antes de dirigir-se ao próprio quarto. "Bença, mãe". "Deus te abençoe, meu filho". Era este o ritual. E a casa mergulhava no escuro e no silêncio da noite.

Pai se levantava às 4 e meia, cinco horas. Zequiel ouvia a movimentação na casa e ouvia o rádio ser ligado. Música sertaneja de raiz que aprendeu a gostar através de Pai. Os irmãos eram acordados. Lavavam o rosto, vestiam a roupa e faziam um lanche antes de sair. O rádio ligado embalava o tempo de sono que lhe restava até mãe vir chamá-lo.

Zequiel carregava o bornal com as marmitas e a merenda que mãe preparava. Era por volta das 9 horas quando saia de casa, até onde pai e os irmãos trabalhavam. Ora estavam na plantação, ora na carvoaria, dependendo da epoca do ano. Quando voltava, outra tarefa já o aguardava. Alimentar os porcos que a família criava. Não eram muitos, só para a despesa de casa mesmo e, eventualmente, quando havia cria, Pai às vezes vendia um ou outro leitão.

Por volta de 11 horas mãe procurava sintonizar a Rádio Nacional de Brasília. Ficavam pertinho do rádio, para driblar o sinal ruim e ouvir as histórias que eram contadas no Programa da Tia Leninha. Eram contadas aos poucos, em capítulos diários, que o aproximava ainda mais de mãe, pois, quando terminava, conversavam longamente sobre o desenrolar da história e sobre as lições que os personagens aprendiam.

E, assim, aprendia também.

Ninguém podia com aquele menino Ezequiel. Era o xodó da família, desconfio que era porque conseguia levar todo mundo nas lábias, vendendo hstórias falsas como se fossem casos acontecidos. Era o sexto de uma família de onze irmãos. Tamanho de família que não se faz hoje em dia. Cinco irmãos, meninos homem e seis meninas criados todos na roça , no povoado do Batistinha, assim batizado por causa de um antepassado seu, homem que parecia gato, porque seis vidas, no mínimo ele tinha. E, de cada uma o Zequinha dava notícia. Menino danado. Mas tinha um bom coração e, quando não podia fazer nada para ajudar alguém, desfiava uma reza que só ele conhecia, contristado, sentado no velho pilão que ficava na cozinha de casa. “Que ta fazendo aí, Zequiel?”, mãe perguntava, sem esperar resposta, porque, nessas horas, o menino só tinha pensamento para suas orações.

Muito tempo depois de falecido, a geração nova que substituiu aquela do seu tempo, ainda repetia os casos que nasceram da sua cabeça. Cabeça prodigiosa, a professora explicaria, anos depois, para a meninada, orgulhosa do conterrâneo que entrou pra história.

E, haja folha de papel para caber tanta anedota, tanta peripécia. Diz o povo do Batistinha que, já de pequeno, Zequinha conseguira uma façanha. Foi no dia em que os meninos se ajuntaram depois do futebol para exibir vantagem. Zé de Toco (que tinha esse nome, não por causa de apelido do pai, como era costume, mas porque foi se exibir um dia apostando pulo num velho toco do quintal da escola e caiu sentado em cima dele, ficando o resto da semana no hospital e o resto do mês em casa com vergonha de por os olhos pra fora da janela) começou a repetir a lenga lenga de que, nas tardes de sexta-feira, quebrava um galho de árvore e sentava em cima, chamando o capeta três vezes de forma normal e três vezes de trás pra frente. E que, no final do chamado, o galho começava a se mover, aumentando de velocidade, levando-o até onde estavam os seus sentidos. Finalzinho de tarde, meninada cansada do jogo, começava a arregalar os olhos de medo de enfrentar a escuridão que se aproximava no caminho de casa. Era sempre a mesma história, contada com graça e gosto de medar os companheiros.

Foi nesse dia que o Zequinha, que já não suportava mais o desespero de todo mundo querendo chegar em casa antes de escurecer de tudo, resolveu chamar o Zé para um teste. “Ô Zé. Hoje é sexta-feira, uai. Traz a galha que eu vou sentar nela”. E o Toco, assustado, com medo de ser desmascarado, contou que não era assim, que só acontecia quando ele estava sozinho. Mas a euforia já tomava conta e não teve outro jeito. Lalado trouxe um galho, já meio seco, de jacarandá, que estava jogado atrás do gol e o Zequinha sentou. Esperaram e nada. E a noite já ia caindo junto com a impaciência quando resolveram ir embora. E o Zequinha nem de criar alarme para chamar o demo. Pelo contrário. Não chamou, que não era homem de chamar diabo. Mas rezava aquelas rezas que, descobriu-se muito tempo depois, tinha um incrível poder de resolver os problemas dos outros. Menos os problemas do menino Zequinha, conforme vamos contar lá na frente. E, reza daqui, reza dali, o pedaço de jacarandá começou a se mexer, empinou para a frente como se fora decolar e rodopiou ao redor dos companheiros.

O susto pôs vento nas pernas dos meninos e até Zé de Toco, que assegurava a possibilidade do impossível, viu-se compelido a correr. Botava os bofes pra fora o coitado e, dizem que, em casa, de noite, não conseguiu dormir, com os olhos estatelados no teto forrado do quarto da sua casa.

E nunca mais repetiu a história, inventada como era opinião geral, de que o diabo puxava os galhos de árvore que ele quebrava para se sentar.

Sobre o amor

SE ERA POUCO... NÃO ERA AMOR

Seria possível amar alguém, de verdade, e esse amor, com o tempo, acabar?

Eu, realmente não creio ser isso possível. Ao contráro da cantiga de roda (o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou), penso que não é possível quantificar o amor. Amor não pode ser pouco ou muito. É amor, apenas.

Então, porque o amor "acaba"? Porque os apaixonados de ontem se convertem em solteiros, alguns profundamente amargos, no hoje? Ah, esses apaixonados... vivem de acordo com a letra de Lupicínio: "você sabe o que é ter um amor, meu Senhor? Ter loucura por uma mulher?"

Paixão. Loucura. Ser capaz de morrer por alguem, como alguns que conheci e que, literalmente morreram... não. Paixão ou loucura ou outra denominação que se dê é paixão, loucura ou outra denominação. Não é amor.

Então, permito-me perguntar: "o que é o amor?"

"Ah, o amor, aiai, amor, bobagem que a gente não esquece, aiai", cantava Ary Barroso. Então o amor é uma bobagem? Mas se é bobagem, não tem importância... eu não sei o que é o amor. Mas, talvez o amor deva estar no nível de simplicidade ao qual relegamos as bobagens.

E, sendo simples... ai é que são elas! Ficou difícil.

Mas, difícil porque a gente o faz difícil. E se o fizermos ficar mais fácil? Lembro-me do Dr. João, um amigo que, com a esposa doente, necessitada de cuidados diários de sua parte, disse-me, certa vez, devotar-lhe o mais profundo amor. E abdicava até dos menores prazeres, para estar ao seu lado.

Bonito... queria amar assim, é o que todos dizem. Mas, quem está disposto ao sacrifício? Porque amor de verdade, mais cedo ou mais tarde, vai exigir sacrifícios. E o egoista, que não conseguir sacrificar-se, ah, esse não conseguirá amar. No seu caso, será um fogo-fátuo. Uma paixão. Uma loucura.

Porque, amor verdadeiro, tem a magia das coisas perenes. Quando se conquista, não sai mais da gente. Então, não pode acabar. Se acabou, alegre-se. Hora de voltar a buscar, porque o que acabou, era qualquer coisa, menos amor.

Porque amor... ah, amor é soma. Sempre. É a soma do carinho que se tem, do afeto, da cumplicidade, da lealdade, da amizade, do respeito... sim, porque sem respeito as relações humanas inexistem...

amor é o prazer inenarrável da presença do outro, pela qual sacrificamos quaisquer outras alegrias, porque, como disse Rubem Alves, "alegria maior não pode existir..."

e, somando-se a isso tudo uma pitada de paixão... converte-se naquela explosão, que vai perdurar em calmaria quando o fogo da paixão desvanecer.

Mas vai ficar. Porque, amor de verdade... ele sempre fica...

Sobre superação

Bob Lester tem 96 anos. Que, nem de longe, aparenta. CAminhando para os 97, ele canta, dança e sapateia. Foi integrante do "Bando da lua", a banda que acompanhava Carmem Miranda. E foi um brasileiro de sucesso nos Estados Unidos.

Bob Lester tocou com nomes como Frank Sinatra, Doris Day e outros ícones da música americana. Foi um sucesso. Mas, ai...

bom, ai, Carmem Miranda morreu e ele voltou ao Brasil. Estava rico e gozava de reconhecimento por grandes nomes da música braileira, mas ai...

perdeu a esposa e filhas em um acidente automobilístico e, segundo ele mesmo, fracassou...

o dinheiro acumulado, foi perdido nos excessos e a carreira desmoronou.

Bob Lester chegou a morar nas ruas e esmolar para sobreviver. Mas, ai...

eis que o destino o encontrou na figura de um amigo, o músico Tom Jobim, que deu-lhe uma casa de presente e recuperou sua auto-estima. Mas, ai...

bom, ai veio a década de 80 e em meio a uma dessas chuvas que destroem bens e pessoas, de tempos em tempos, perdeu a casa e, com ela, o pouco que havia reconquistado.

Mas, precioso bem esse a que chamamos amigo! O destino reapareceu na figura de um nome que todos conhecem bem: Roberto Carlos. Tendo notícias da situação do amigo, é hoje, o responsável pelo pagamento da sua hospedagem.

E Bob Lester, quase centenário, canta, dança e sapateia.

E ri dos maus momentos que conseguiu superar: "eu sou a pessoa mais feliz do mundo".

Morou?

Sobre a primavera

Setembro é o mês em que se despede do inverno e dá boas vindas à primavera. Ou, pelo menos, era. Porque, nos dias atuais, já não conseguimos mais identificar, no ano, as quatro estações com as características próprias de cada uma. Antes a gente identificava assim: dias longos, com altas temperaturas no verão. Queda na temperatura e amarelar das folhas no outono. Dias frios no inverno e o florir da primavera, onde dia e noite tem a mesma duração.

Hoje, depois de castigar impiedosamente a natureza, sofremos, em consequência, um adesordem nessa que seria a ordem natural das coisas. E, pode-se dizer que vivemos uma estação única, onde todas essas características se misturam e se entrelaçam.

Ainda bem que a primavera, que está despontando, continua a trazer o reflorir da flora terrestre. Andei notando árvores em flor pelo meu bairro. E elas parecem sorrir para nós a velha e insistente esperança de uma vida colorida, ao invés do preto e branco tradicional. É na primavera que os dias costumam se cobrir de perfume e fazer nossa alma mais leve e nossos espíritos desarmados, não obstante as angústias e o stress do dia a dia.

Dias e noites com a mesma duração. Na medida certa para dissipar e para recompor as energias. Na medida certa para sonhar.

E, para amar...

Sobre aniversário

Foi num dia 05 de setembro que eu cheguei.
De mansinho, mas logo cedo...
acho que, depois de nove meses, meu pequeno corpo queria conhecer o dia e sentir o brilho da luz do sol. Então, nasci às sete da manhã...

E, assim, muita coisa na minha vida aconteceu dessa forma.
Cedo, sai de casa.
Cedo rabisquei uns versos e cedo os publiquei (embora, hoje, fazendo um exercício de auto-crítica, eu não mais publicasse "aqueles" versos).
E, muito cedo, descobri o valor do trabalho e a alegria de estar rodeado de bons amigos.

Daquele menino da roça, restou muito pouco:
esse jeito bem humorado de encarar a vida - herança de meu pai;
esse "ar de moço bom" - herança de minha mãe
e um bornal repleto de sonhos - herança de mim mesmo...

muitas aventuras vividas,
poucas loucuras
e os amores vividos e os amores por viver.

Especialmente, a certeza de viver, outra vez, aquele grande amor...

Uma fé inabalável na capacidade de transformação que todos carregam dentro de si
e a imorredoura crença no homem - apesar de tudo.

E a espiritualidade que pulsa no mais íntimo das minhas convicções, dando-me a certeza de que, na espiral da vida, pessoas e coisas vão e vem, não necessariamente nessa ordem, fazendo a vida ser como quis o poeta: bonita, bonita e bonita...

Isso é uma pequena parte de mim.
Daquele lado que a gente arrisca a contar, porque há sempre aquelas pequenas coisas de que não temos tanto orgulho.

E, ainda bem que é assim, porque, caso contrário...
que graça que a vida teria?

Lendo as notícias do dia, deparei-me com uma manchete um tanto sensacionalista, mas, cuja matéria deixou-me sensibilizado. Dizia assim: "Cirurgia rara reconstitui pênis de menino de 10 anos arrancado por poodle".

Comovente relato de uma criança que, aos seis meses de vida teve o seu órgão genital arrancado pelo cão da família. Menino pobre, lá das Alagoas, um dos Estados mais atrasados do nosso país, não obstante ter produzido um Presidente da República e apesar de ter seus políticos sob o holofote constante da mídia.

Imagina a situação dessa criança à medida em que os anos foram avançando e descobriu-se diferente dos companheiros. A vergonha de encarar os colegas. A auto estima que, ao que tudo indica era inexistente. É aqui que entra o amor incondicional e a abnegação dessa figura a quem chamamos de mãe. Há dois anos seu filho não frequentava a escola e não cansava de questionar porque ele era diferente. Ela pediu dinheiro emprestado. E foi ao Rio de Janeiro procurar ajuda.

E, considerando-se que estamos no Brasil, onde a solidariedade humana ainda é relativamente abundante no mercado, encontrou uma equipe médica que ficou sensibilizada. E fez de tudo, até trazer um profissional internacionalmente renomado para fazer a cirurgia.

E, num desses milagres da medicina, o pênis foi reconstituido a partir de um retalho da parede abdominal do paciente e, em cerca de sete anos, através de nova cirurgia, será possível implantar uma prótese que o ajudará a ter uma vida sexual ativa.

Viva a solidariedade!!!

Sobre "Quase famosos"

Essa cena é do filme "Quase famosos": os integrantes da Banda Stillwater e o jornalista William Miller, alter ego do diretor Cameron Crowe estão voltando de um aturnê quando o vôo passa por uma turbulência. Desesperados e pensando que vão morrer, começam as confissões: uns assumindo ter dormido com a mulher do amigo, outro declarando-se gay e todos cobrando algo de todos. Verdadeira lavanderia de roupas sujas... passada a turbulência e descobrindo-se vivos, desembarcam de ressaca moral: o gay não sabe onde enfia a cara e ninguém consegue olhar na cara de ninguém. Essa é uma das cenas mais engraçadas desse filme, uma combinação de comédia e drama na medida certa, que, não sei como, demorei tanto a assistir e cheguei ao fim com um gostinho de quero mais. Depois da versão de cinema, assisti à versão do diretor... e continuo querendo mais... mesmo não tendo, até aqui, maiores interesses em um fime sobre a história do rock. Mas, talvez seja por isso que o filme tenha me encantado tanto: trata do rock'n roll de uma forma mais comedida, como só a ficção poderia fazer. Ao contrário dos filmes biográficos que retratam as bandas de rock, como o Sex Pistols (o filme chocou meio mundo quando foi lançado), The Doors e as histórias de Ray Charles e Jerry Lee Lewis, "Quase famosos" é uma obra de ficção, ainda que a banda ali retratada tenha saído da tela grande para a fama. E, enquanto ficção, o sexo é comedido, passando longe da promiscuidade que o meio sugere, a droga é permitida e todos são companheiros. Na verdade, o filme é uma celebração à música e, como tal, passou a fazer parte da minha lista de preferidos.

E me deixou com uma sede de Bob Dylan, David Bowie, Black Sabbath, Led Zeppelin, Rolling Stones, Beatles... para focar apenas algumas das referências do filme...

Sobre Júlia e o frango

Júlia é filha da minha sobrinha nº 2. Tem tres aninhos e vive me surpreendendo com a sua inteligência.

Hoje, fui levar a minha mãe para visita o meu irmão na cidade de Matozinhos, na grande BH. Hora de voltar, ele oferece um frango à minha irmã, que resolve matá-lo para trazer. Arrumam-lhe uma faca e o meu irmão traz o frango. Correndo de um lado para outro, Júlia fica observando, mas quando percebe o que está para acontecer, vem correndo e cobre o rosto em meu peito. Pergunto se ela vai comer carninha dofrango e ela, brava, diz que não quer.

No caminho de volta, fala para sua avó: "Muito feio o que você fez. Vou contar para minha mãe." Todos acham graça. "Mas o que foi que eu fiz?" E ela: " você cortou a cabeça do galo. Vou chamar a polícia." Todos riem. "Mas, Julia, você vai chamar a polícia para sua avó?" "Vou. Você vai presa e vai ficar lá, chorando".

Todos riam, mas ela estava séria. E, na hora de descer do carro, saiu pelo lado contrário ao que sua avó carregava a sacola contendo o frango...

acho que isso ainda vai dar muito o que falar...

Essa eu ouvi hoje.

É sobre um vizinho do Godinho, meu colega de trabalho. Segundo ele, o homem consertava lâmpadas!!! Pois é. Cada uma que aparece... mas eu, que já não estranho nada de novo que aparece, achei cômico ouvir sobre a repentina fama do consertador de lâmpadas queimadas. Começou por consertar a lâmpada queimada da casa de um vizinho e, como é comum nessas situações, não demorou muito para transformar-se no "consertador" oficial das redondezas. Até cartaz colocou na porta: "conserta-se lâmpadas".

Excluindo-se as desconfianças de poucos, ia ganhando uns trocados, coisa de centavos por lãmpada consertada. Nem podia ser caro, afinal, trata-se de um produto barato. Mas, considerando-se que todos querem fazer uma economiazinha, o negócio ia de vento em popa. Praticamente ninguém questionava. Levavam as lâmpadas em uma sacola e, no dia seguinte, lá estava a sacola de volta, com as ditas em perfeitas condições.

Até que um dia, um vizinho não resistiu: "mas, como pode-se consertar lâmpada queimada? Queimou, não tem conserto..." Mas as lâmpadas que voltavam da casa do "consertador" eram a prova de que tinha jeito sim...

Resolveu, então, esse vizinho curioso (sempre tem um Tomé por perto...)a inquirir a família. Encontrou uma enteada do homem, pronta a colaborar. Com a condição, claro, de que não fosse relatado que ela contara... e o segredo foi descoberto:

Acontece que o homem era vigilante de uma grande empresa. Dessas que tinham muitas e muitas lâmpadas tipo aquelas que iluminam as residências.Sobretudo naquela época, década de 70, segundoo Godinho. Então, recebidas as lâmpadas para conserto, elas eram embrulhadas em papel jornal e levadas para a empresa junto à marmita do "consertador" que, durante o seu plantão, fazia o "trabalho", quando não estava sendo observado.

Dia seguinte, antes de sair para o trabalho, o "conserto" estava lá, na mesma sacola em que os objetos haviam recebidos, para perfeito uso, em troca de vinte e cinco centavos.

até o dia em que a enteada resolveu espalhar a história e o gerente da empresa descobriu porque queimavam tantas lâmpadas nos galpões da empresa...

ai foi demitido. E finalmente percebeu que consertar lâmpadas não compensa...

Sobre Michael Jackson

A idéia é não escrever sobre, ou mesmo emitir opinião pessoal. Mas, o blog não poderia deixar de reproduzir o texto do jornalista Reinaldo Azevedo, de VEJA:

"AS PARCAS

Perguntam-me se não vou escrever nada sobre a morte de Michael Jackson. Música pop não é exatamente a praia em que ando com mais desenvoltura. Até onde acompanhava, esse rapaz teve a sua fase de ouro. Era, no gênero, talentoso, criativo, ousado. Mas é possível que tenha se deixado trair pelo mais perigoso de todos os demônios da legião que nos tenta todas as horas do dia: aquele que nos sopra aos ouvidos que nossas qualidades derivam de nossos defeitos; sem estes, não teríamos aquelas. É uma das farsas grotescas do diabo. Os defeitos, é claro, são só o que nos atrapalha.

A partir de um momento de sua trajetória, Jackson parecia mais livre do que todos nós, a tal ponto que resolveu recriar a própria imagem. Pensem um pouco. É o espelho que, no dia a dia, recolhe os nossos cacos e os cola numa inteireza: “Este é você”, ele nos diz. Olhando-nos, podemos ver a nossa própria consciência, as dores que só nos conhecemos, os medos que não confessamos. Está tudo lá. Diante de nossa própria figura, na solidão, o coração pode, então, como num soneto antigo, estampar-se no rosto. Não há plástica ou cosmética que possam nos livrar de nós mesmos.

Refugiado em Neverland, Jackson quis ser “Outro”, dissociando o que ele realmente era daquele que ele via. O que o espelho nos mostra de mais importante não são, pois, nossas rugas, nossos cabelos brancos, nossos quilos a mais ou a menos. Dia após dia, ele resume a nossa vida. Vemos, parafraseando Drummond, o queixo de nosso pai no nosso queixo; marcas da família desenhando nossa idade madura e nos acenando com a velhice — vislumbramos o nosso queixo no queixo de nossos filhos: sobreviveremos. Justificamo-nos, enfim, diante dele, tentando, à saída, uma última conciliação: quem sabe ele nos perdoe e nos diga um “Siga adiante”. E ele costuma dizer. E só por isso tocamos o barco.

Como era com Jackson? Pouco importa a causa imediata de sua morte, o que se viu foi um dos suicídios mais lentos do showbiz, área em que ou se desaparece muito cedo, como a evocar a máxima de que “morre cedo o que os deuses amam”, ou se entra em decadência, com o esquecimento e a irrelevância cortejando a estrela. Ele ainda tentava mudar a escrita do destino, buscando um renascimento com shows na Inglaterra. Não houve tempo. Os deuses roubam quando dão. E o mais perverso de todos os novos deuses olímpicos é a fama. Jackson foi eliminando progressivamente a memória de si mesmo, ficando sem passado. E, à medida que mergulhava sabe-se lá em que doença do espírito, tinha menos o que dizer para o futuro. O garoto genial (para o gênero ao menos) de Thriller era uma carcaça. Jackson, morto em vida, estava oco de si mesmo. Aquele do espelho não era ele, mas também não era ninguém. De fato, havia morrido fazia tempo. Seu sofrimento não deve ter sido pequeno.

Algo em nós se perde quando se vão os ídolos de uma época, ainda que não nos dissessem grande coisa. Farrah Fawcett — convenham: era a única “Pantera” com a qual realmente nos importávamos, ao menos os garotos — também morreu nesta quinta. A figura, antes exuberante, lutava contra um câncer e estava afastada do mundo das celebridades. Por que de algum modo isso nos comove ou, ao menos nos constrange, trazendo-nos desconforto?

Porque eram do nosso tempo, e sabemos que as três Parcas que zelaram pelo destino deles também zelam pelo nosso. Não param de fiar. Dia e noite. Noite e dia. Lá está Cloto, fazendo girar o fio do destino dos homens, cuidando de uma roca que desce do céu. Com as vestes semeadas de estrelas, Láquesis põe o fio no fuso, até que chega Átropos, com sua vestimenta negra, e pimba! Corta-o. Inapelavelmente. Alguns intérpretes da Mitologia Grega as querem filhas da Necessidade e do Destino. E têm a idade da Noite, do Céu e da Terra. Para sempre.

Criamos muita desgraça, mas também muita beleza tentando, inutilmente, dar um truque nas Parcas. Mas elas nos acham. Nesta quina, Cloto se encarregou de Michael Jackson e Farrah Fawcett. Um dia achará o nosso fio."

O nome dela é Iza. Minha conterrânea, de Alvinópolis tem 16 anos e até a semana passada tinha uma vida normal. Repentinamente, notou alterações na coloração da urina e olhos amarelados. Sintomas de hepatite, que evoluiu rapidamente, ganhando contornos de gravidade inesperada. De Iza passou a ser prioridade absoluta na fila de transplantes de fígado, a única possibilidade de voltar a levar uma vida normal.

Minha cidade tem ares de arraigada religiosidade. E um índice de solidariedade que supera quaisquer expectativas. E, tão rápido quanto a evolução do quadro clínico da menina Iza, a cidade de uniu em preces. E o novo fígado chegou.

Essa situação me fez pensar na brevidade dessa existência. E na beleza dos atos daqueles que se transferem para um novo plano e permitem que seus orgãos animem outros corpos. Foi pensando nisso que encontrei esse vídeo no youtube. Ele fala por mim:

“Censo aponta formação deficiente de professores.” É com essa chamada que o jornal “Folha de São Paulo” de hoje anuncia matéria sobre os dados do Censo da Educação Básica, realizado pelo Inep, Instituto de Pesquisas ligado ao Ministério da Educação, que trata da falta de qualificação de parcela considerável dos professores que, em sala de aula, são responsáveis pela educação formal de milhares de crianças e adolescentes brasileiros.

Esse deve ser, em minha modesta avaliação, apenas mais um dos instrumentos de que o governo dispõe, apontando a falência do nosso sistema de ensino. Professores despreparados fingem que ensinam, enquanto alunos desmotivados já nem perdem tempo insinuando que aprendem alguma coisa. É lamentável.


Há algum tempo, fui protagonista de um projeto que visava preparar alunos do curso noturno, da oitava série de uma escola pública da rua onde moro, para inserção no mercado de trabalho, trabalhando conteúdos de provas de concursos. Nenhum dos envolvidos conseguiu elaborar um currículo que os apresentasse ao mercado de trabalho. Havia aluno com dificuldade em grafar, de forma correta, o próprio nome. E olha que estamos falando de adolescentes da oitava série do ensino fundamental!

Carentes de todo tipo de incentivo, saíam da sala a todo o instante, para fumar ou conversar com os amigos. Tal conduta parecia ser uma prática disseminada no ambiente escolar, tanto que uma das professoras da referida escola, duvidando de que pudéssemos alcançar algum resultado, relatou que as suas expectativas estavam voltadas para a aposentadoria a sair em breve e que, então, iria “esquecer que esses alunos, um dia, cruzaram meu caminho.”

Por esse breve relato, dá para perceber que o Projeto não pode ser levado adiante. Até porque trabalhávamos com conteúdos dos quais os participantes tinham grande deficiência. Tinham dificuldade de ler e, quando o faziam, não alcançavam o entendimento da matéria. A escrita era sofrível, chegando ao cúmulo de iniciar uma palavra com dois s. E, não obstante o interesse demonstrado por um pequeno grupo, a maioria carecia de motivação.

É essa a motivação que falta, igualmente, aos mestres que, em sala de aula, não conseguem transmitir o básico aos estudantes. As alegações vão desde o baixo salário até a ausência de condições para o desenvolvimento de um programa que satisfaça às necessidades de aprendizado.

Pergunto-me se foi assim desde o sempre ou se a falta de qualidade da educação é um privilégio de nossos dias. Lembro-me de Donana, minha primeira professora, na Escola Estadual Duque de Caxias, na zona rural, que, carteira a carteira, incentivava cada um de nós ao exercício do pensar e à prática da escrita, ajudando a desenhar as letras, sabendo que, da sua classe sairiam alunos formalmente bem treinados e, moralmente preparados para enfrentar a vida. Lembro-me de uma das últimas visitas que lhe fiz em Alvinópolis e da paixão com que falava da profissão, embora, fazendeira que era, não tinha maiores necessidades que a obrigasse ao exercício do magistério.

A qualidade do ensino parece deteriorar-se, em primeiro lugar, pela falta de compromisso profissional de muitos. Em segundo lugar porque o professor, em sala de aula, acaba ficando refém da vontade dos alunos, nestes tempos em que a violência impera. Haja vista o número crescente das queixas registradas por professores em delegacias de polícia. E aqui não estamos considerando a maioria das agressões que não passam dos portões escolares. Questões financeiras e a falta de investimento na capacitação continuada dos profissionais da educação ampliam as dificuldades. E, para completar, a ausência de uma estrutura familiar sólida consolida o caos.

Rubem Alves, no seu texto “Gaiolas e asas” observa:

“sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e as domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.

Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.”

Diante dessa observação, verifico o quanto de privilégio recebi pela alegria que me proporcionava sair para ir à escola, bem como o sorriso da mestra, marcado para sempre na lembrança, do seu amor pelo ensino e do seu prazer em ensinar. Mas, como tudo aquilo que recebemos neste mundo não deve enclausurar-se em nós mesmos, pergunto-me: qual a contribuição efetiva podemos oferecer para incentivar a capacidade criativa de cada aluno, dando-lhe suporte para desenvolver a arte do pensar? E se eles ainda não aprenderam a querer, o que fazer para que enxerguem na mágica do aprendizado o caminho para traçar o seu futuro?

É... sinceramente... eu não sei.


Veio-me à mente, hoje, uma das muitas histórias que minha mãe contava quando eu era criança. Era uma maneira que ela encontrava de nos educar, ilustrando a lição que desejava passar, com algum "causo" ou história com um fundo moral e edificante. O que acho interessante é que os meus pais mal estudaram. Pai deve ter parado na segunda série e mãe, salvo engano, foi um pouco mais longe, estudando até a terceira série do ensino fundamental. Curioso que os dois foram os primeiros incentivadores que eu tive, a sedimentar o meu interesse pela literatura. Sem saber, contribuíram para melhorar o meu vocabulário e, não é que a formação intelectual colabora para o aprimoramento moral?

Pois bem. Aquelas histórias ajudaram a construir o meu caráter, me abriram as portas do mundo mágico da leitura e me prepararam para enfrentar a vida. Essa que me ocorreu hoje, fala sobre desapego, algo não muito fácil de ser cultivado nesse mundo materialista, onde o ter supera por largo percentual o ser. É a história de uma mulher que cultivava uma grande horta no quintal e, sempre que algum de seus vizinhos lhe pedia algumas folhas de cebola, corria a escolher as folhas secas, que já não podiam mais ser aproveitadas e deveriam ser descartadas. Trazia um molho que entregava sorridente a quem esperava. Isso se repetiu por vários anos, até o dia em que a morte, passando por ali, resolveu que estava na hora de levá-la.

Assim que abriu os olhos do outro lado da vida, ela percebeu que uma escada balançava à sua frente. Na verdade, era a escada que a levaria ao céu. Mas percebeu um detalhe: os degraus foram trançados com as folhas de cebola que ela distribuíra ao longo da sua vida. Compreendendo a situação, agarrou-se ao primeiro degrau e começou a sua escalada para o paraiso. Ia subindo, assustada, percebendo a fragilidade das folhas que a sustentavam. Lembrou-se de cada um dos rostos frustrados a quem distribuira cebolinha da sua horta. E lamentou-se não poder, naquele momento, fazer diferente. Subira até a metade, quando as folhas começaram a ruir e, soltando-se, caiu no inferno que se encontrava abaixo.

Foi ai que percebeu que o paraiso é uma conquista diária, que ninguém pode tirar-nos, exceto nós mesmos, dependendo das atitudes que adotamos em relação ao nosso próximo. E que a maior dor que pode o ser humano enfrentar, não está no sofrimento físico, mas, sim, no remorso e na consciência culpada.

Sobre vender a alma

Já ouvi muitos casos de pessoas que enriqueceram depois de vender a alma. Alguns incrédulos acham graça do volume de coisas que continuam acontecendo durante o período da quaresma, mas, para pessoas que não cultivam o hábito da mentira, assim como eu, afirmar determinados fatos precisa de embasamento para não cair no descrédito. E, ainda bem que a receita que vou postar hoje, veio de uma pessoa acima de qualquer suspeita. Foi assim:

Domingo é dia de culto. Já perdi a conta do número de cultos realizados aos domingos na casa da Gelma. É um momento de espiritualização e, ao mesmo tempo, um momento maior na amizade que a gente cultiva há muitos anos e, certamente, há muitas vidas. Depois do culto, vem o café e esse é o momento de colocar em dia os últimos acontecimentos da semana, de se inteirar da vida do outro e, vá lá, uma fofocazinha discreta não faz mal a ninguém.

E, vez por outra, esses momentos são enriquecidos com piadas e alguns "causos" que a gente evoca de algum dos nossos antepassados. E, dá-lhe histórias.

O diferente, nesse domingo, ficou por conta de uma receita, digamos, inusitada. É que, apesar de conhecer diversas pessoas que enriqueceram depois de "vender a alma", até então não tínhamos a receita. Não é que ela apareceu? Pois é, nada como um domingo entre amigos-família...

Segundo a Gelma, funciona assim ( e funciona mesmo, é só fazer...):

O interessado deve procurar uma mata virgem, numa sexta-feira da paixão, à noite, munido de uma toalha, uma caixa de alfinetes e uma tesoura, também virgem. O ritual deve ser feito da seguinte forma: estende-se a toalha, coloca-se sobre ela a tesoura aberta e, ao centro, despeja-se os alfinetes. Aí é só sentar-se de pernas cruzadas e aguardar. À meia-noite, o diabo aparece, chapéu na cabeça, montando um cavalo. Ele se sentará em frente ao candidato, também de pernas cruzadas. Em seguida, os alfinetes se transformam em samambaias, que ele irá mastigando, enquanto os pedidos de riqueza são formulados.

Depois disso é só desfrutar da riqueza que se pediu.

O único problema é que, ao morrer, quem comparece ao seu funeral? Ele mesmo, montando o mesmo cavalo e usando o mesmo chapéu. Posta-se à cabeceira do caixão do morto, avisa aos presentes que aquela alma lhe pertence e os seus capangas a recolhem, imediatamente.

Para onde vai? Bom, ai a gente não sabe, porque nenhuma dessas almas conseguiu voltar, até hoje, para contar. Mas que funciona, ah, isso funciona. Eu mesmo conheço vários que enriqueceram assim...

Sobre a elegância

Os amigos, via de regra, são especiais. Até porque, caso contráro, não os consideraríamos amigos. E eu, que tenho o privilégio de poder assim considerar algumas, das muitas pessoas com quem tenho convivido ao longo dessa existência, vivo a reparar nos modos e em como as pessoas são únicas. E, dento dessa unicidade de cada um, observando como o ser humano costuma ser deselegante, foi que passei a observar como, aleatoriamente, aqueles que escolhi para amigos, costumam se diferenciar nesse quesito. Fui pesquisar o significado de elegãncia e, sem surpresa, encontrei no "Aurélio": "distinção de porte, de maneiras", "graça, encanto, garbo. Gentileza, finura, amabilidade. Delicadeza, cortesia. Apuro, correção, harmonia..." Era o que eu pensava: não é fácil ser elegante e, a meu ver, elegãncia não se ensina. Mas, pode-se aprender. As pessoas elegantes o são naturalmente. São os gestos, o olhar, o falar, o agir. É todo um conjunto.

O pintor francês Toulouse Lautrec sintetizou o que eu gostaria de falar acerca da elegância:

"Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento.
É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto.

É uma elegância desobrigada.

É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam.

Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se dirigir a frentistas.

Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros.

É possível detectá-la em pessoas pontuais.

Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

Oferecer flores é sempre elegante.

É elegante não ficar espaçoso demais.

É elegante, você fazer algo por alguém , e este alguém jamais saber o que você teve que se arrebentar para o fazer...

É elegante não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro.

É muito elegante não falar de dinheiro em bate-papos informais.

É elegante retribuir carinho e solidariedade.

" É elegante o silêncio, diante de uma rejeição... "

Sobrenome, jóias e nariz empinado não substituem a elegância do Gesto.

Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante.

É elegante a gentileza,.atitudes gentis falam mais que mil imagens...

...Abrir a porta para alguém...é muito elegante (Será q ainda existem
homens assim?)...

...Dar o lugar para alguém sentar...é muito elegante...

...Sorrir, sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma...

...Oferecer ajuda...é muito elegante...

...Olhar nos olhos, ao conversar é essencialmente elegante...

Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação, mas
tentar imitá-la é improdutivo.

A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o nosso lado brucutu, que acha que "com amigo não tem que ter estas frescuras".

Se os amigos não merecem uma certa cordialidade, os desafetos é que não irão desfrutá-la.

Educação enferruja por falta de uso.

E, detalhe: não é frescura.

(Para Vivi, uma das pessoas mais elegantes que conheço).

Sobre amores e silêncio

O Silêncio

Ao amor que não veio
construo paráfrases e metáforoas
sórdidas

Meu canto é surdo:
brota além dos signos oníricos
do apocalipse

e silencia.

(In: Quarador, Anome, 2003)

Este blog nasceu em quinze de dezembro de 2008. É, ainda, um bebezinho que necessita muitos cuidados e muita atenção. Felizmente, recebe muitas visitas e, recebe, igualmente, muitos mimos, tantos que, na maioria das vezes não é merecedor. Mantê-lo, não é muito fácil, pois às vezes insiste em querer alimentação nas horas mais estranhas do dia ou da noite. E é nesses momentos que precisa receber umas linhas, caso contrário a idéia foge e, pelo menos aquela já não volta mais. Mas, o prazer de conhecer e conviver, pelo menos virtualmente com pessoas e culturas diversas, esse é inigualável e é o segundo motivo da escrita. O primeiro é a satisfação pessoal, que independe de qualquer outro estímulo externo. Aliás, se não há prazer, escrever para que? Ou, para quem? Que o diga algumas pessoas especiais que costumam, nas suas andanças, dedicar um tempinho a esse recem nascido (com ou sem hifen?) Que o diga o Bis que transformou-se em um "ombudsman" das letras que pingam por aqui e já foi responsável por um texto postado e retirado em seguida, por não estar "à altura" da "linha editorial". Foi a única vez que escrevi algo sobre o Big Brother Brazil. Em outra oportunidade, o texto foi reescrito e nada restou do original, porque o "tom emocional" com que foi escrito também não combinava com o estilo "light" que foi proposto aqui. E eu que pensava guiar, sozinho, as minhas próprias mãos!

Mas, nesses pouco mais de três meses, teve o carinho de Abel, Lou, Lara. Uma família inteira que, vez por outra, vem beber da fonte. É por isso que as águas que correm por aqui precisam estar sempre limpas e sempre abundantes...

Essa coisa de citar nomes é cruel, porque acabamos por ser injustos. E eu serei, de qualquer maneira, com amigos que se fazem presente aqui. Mas, já que sentei para escrever sobre as chuvas e o grito de socorro da natureza, assunto que ficará para o próximo post, preciso agradecer à Babi (anda sumida!) que, em uma de suas passagens deixou um mimo em forma de selo, à Valéria, também apaixonada pelas palavras, que alimenta quase todos os posts e causa tristeza quando não o faz e, ainda Marcos Martino, músico, amigo e conterrâneo de cuja presença já nos acostumamos...

Glauco passou por aqui ainda em dezembro, quando os primeiros textos eram escritos. Trouxe o primeiro selo e o primeiro incentivo e, daí em diante...

daí em diante, que coisa estranha. Penso escrever sobre um assunto e sai outro... agora, por exemplo, sentei-me para escrever sobre as chuvas. As águas de março, famosas na música de Jobim, que agora transformaram-se em "enchentes de março", um pedido de socorro do planeta, face às reiteradas atitudes do homem. Mas, como esse foi o assunto que mais abordei até o momento, talvez por isso, pensei chuvas e falei de amigos. Quer coisa melhor?

Toledo é um pequeno povoado que está situado entre a Sede do município de Alvinópolis e o Distrito de Fonseca. É daqueles lugares onde a infância é construída ou vivida de forma lúdica, onde ao lazer, mistura-se a necessidade de colaborar com o trabalho executado pela família e onde o sobrenatural há muito tornou-se rotina de situações naturais entre os habitantes. Do que vivi ali, lembro-me dos muitos casos de situações verídicas vividas pelo meu pai e que, oportunamente, serão transformados em exercícios literários. Lembro-me, igualmente, do meu irmão mais velho chegar em casa, muito tarde, naqueles horários que a minha mãe classificava de “horas mortas”, tremendo dos pés à cabeça, depois de ter sido apedrejado por criaturas invisíveis. Crédula, até a raiz dos cabelos e cheia de razão, mãe não cansava de repetir que já lhe avisara para não ficar jogando truco até aquelas horas na casa dos outros. Acrescente-se que não tínhamos energia elétrica no povoado, o que dava ao lugar ares de mal assombrado, tão logo passava das seis horas...

O que eu vou contar hoje, aconteceu em um domingo. E nossos domingos eram agitados. Tinha culto na igreja, que, a propósito, era em frente à minha casa, os rapazes jogavam futebol no campo, muitas vezes, recebendo times de povoados próximos, como Zamparina, Contendas ou Cata Preta, o almoço era especial e a tarde era animada com os três butecos que havia abaixo do adro da igreja abrindo suas portas para vender bebidas, salgados e outros produtos. Tudo em temperatura ambiente, já que não havia gelo em decorrência da ausência de energia elétrica. No final do dia, os mais velhos que jogavam bingo permitiam que nós, crianças, gastássemos as parcas moedas que o pai nos dava para um pouco de diversão com eles. Viravam as caras à nossa participação, já que, ganhávamos e abandonávamos o jogo em busca de outros interesses.

Mas, nesse domingo, aconteceu algo diferente. Foi na casa de Tião de Caxambu, carvoeiro que trabalhava para Vivi, da Fazenda da Limeira. Morava com a família lá no alto da Mata, onde a sua mulher passava o domingo sozinha, já que todos estavam fora. Foi no final da tarde que a coisa aconteceu. Alguém chegou trazendo a notícia de um pedido de socorro, que a mulher estava trancada em casa, cercada por um bicho esquisito. Ai começaram as versões. Que bicho era esse? De onde viera? Seria de outro mundo? Os homens correram em casa, pegaram as armas e arriaram os cavalos. Meu pai pegou a espingarda que ficava pendurada entre dois pregos na sala e que ajudava a espantar os pretensos namorados das meninas, juntou-se aos demais e saíram a galope.

Não sei quanto tempo durou a missão de salvamento. Lembro da nossa ansiedade para saber que bicho era aquele e não parávamos de dar palpites. Acho que, pelo menos entre as crianças, ninguém se preocupou com os homens, já que, não imaginávamos que eles correriam algum risco. Eu, de minha parte, sempre tive no meu pai um super homem e, diante dos casos que ele contava, de situações que vivera, isso não era nada.

Voltaram quando já escurecia. Corremos ao encontro dos cavalos que apareceram na estrada. Vinham rindo, conversando. E fez-se uma roda: todos queriam saber, afinal, que bicho era aquele. E foi um misto de alívio e decepção: Nada de sobrenatural. Nada de bicho do outro mundo. Era só uma capivara, que, acuada, foi morta e teve a carne dividida entre os homens que participaram da missão. Pelo visto, era bem grande...

Naquele dia, em todas as casas do povoado, além do almoço especial de domingo, o bicho da mata proporcionou uma novidade: o jantar de domingo. E a mulher do Tião passou a ser olhada com desconfiança: afinal, que mulher é essa, que mora na mata e não conhece uma capivara?

Hoje, quem assistir a um episódio do desenho “Os Jetsons” e se deparar com o personagem Cosmo Spacelly digitando uma carta à sua secretaria-robô, não deve estranhar. Mas, para a época em que foi produzido, tudo ali era futurista. O computador que corrige a palavra digitada, a própria secretária, o prédio onde a empresa está instalada e os meios em que se chega até ela. O seu empregado George é o chefe da família que dá nome à série. É casado com Jane, uma dona de casa que adora fazer compras no shopping e eles tem dois filhos adolescentes: Judy, que, naturalmente, se preocupa com namoros, compras e o seu visual, além de estudar biologia e Elroy, de dez anos, um gêno precoce das ciências espaciais. Ah, e tem , ainda, o cachorro Astro, que se joga em George, tão logo ele chega em casa. Completa a família a empregada Rosie, um robô de um modelo fora de linha,mas que a família adora e não tem coragem de trocar por um novo.

“Os Jetsons” é um dos desenhos animados que mais empolgação me causava na infância. Seja pelo fato de a história girar em torno de uma família comum, embora em um cenário futurista, seja por causa desse mesmo cenário que, entre outras coisas, trazia um céu congestionado por carros voadores.

Carros voadores? Isso mesmo. E, parecia fantástico até recentemente. Mas já não é. Está previsto para 2011 o lançamento do Transition, um híbrido de carro com avião, ou seja, um carro voador. Por enquanto, funcionando a gasolina, o veículo pode alcançar até 85 km/h e tem autonomia de vôo de mais de 700 km.

Daqui a pouco, estaremos voando, nós mesmos, com algum equipamento acoplado ao corpo, sem a necessidade de veículos, como já aconteceu em um experimento recente. E, como também acontecia com a família Jetson, quando George deixava os filhos na escola e a mulher no Shopping: desciam dentro de uma cápsula que era ejetada do seu veículo voador.

Parece que a dupla Hanna-Barbera, criadores desse e de mais uma infinidade dos desenhos que animou momentos preciosos de nossa vida antecipou a realidade que estava por vir. Pena que não anunciou o fim do congestionamento do trânsito, mas, apenas a sua transferência para o espaço aéreo...

Vejamos algumas manchetes dos jornais de hoje: "Mãe acusada de vender a filha", "Batidas levam 47 pessoas por dia ao HPS", "Acidente mata seis em Rodovia", "Sobrinho atira no próprio tio", "Estudante é morto na porta de escola"... melhor parar por aqui.

Essa semana, em Brasília, conversava com o amigo Jorge Coutinho, ator e atual presidente do Sindicato dos Artistas do Rio de Janeiro, sobre a criação de oportunidades para jovens e adolescentes em situação de risco social. Houve um momento da conversa em que, diante da recapitulação de tantas barbaridades que andam acontecendo, que eu falei que, às vezes, penso que o Rio não tem mais solução. Este post é para corrigir o meu raciocínio. A violência deixou, há muito, de ser exclusividade dessa ou daquela região, em que pesem as diferenças de métodos e a regularidade com que acontecem no Rio de janeiro. A violência, globalizada muito antes que soubéssemos da existência dessa expressão, ganhou o Brasil, de norte a sul, com situações que, se descritas em detalhes, acabaria com o pouco de fé que ainda temos na espécie humana. E, deixando de ser um problema das cidades grandes, espalha-se como uma praga pelo interior. Exemplo é a minha pequena Alvinópolis, onde casos de estupro, homicídios e assaltos estão passando a ser encarados com naturalidade pelas pessoas. Tráfico e uso de drogas então, já faz parte da rotinae, recentemente, até uma tentativa de sequestro ocorreu.

O problema da banalização da violência é que passamos a enxergar qualquer notícia dessas que vendem as edições dos jornais e mantém atenção nos noticiários televisivos como coisa normal. Aos poucos vamos perdendo a nossa capacidade de indignação, único fator que pode contribuir para mudar a situação atual.

Vide o exemplo da menina de nove anos, grávida em decorrência dos abusos cometidos pelo padastro. A discussão que ocupou a maior parte do noticiário foi a excomunhão dos médicos que fizeram o aborto, pelo Arcebispo de Olinda. E aquilo nem deveria ser tratado sob a ótica de uma prática abortiva, mas, uma questão de ética médica, já que, a partir do momento em que aquele útero não suportaria a gravidez e, na iminência de a mãe não dar conta de levar adiante a gestação, o que haveria a fazer? Salvá-la, é claro. Ainda bem que essa Instituição perdeu qualquer condição de julgamento das atitudes do homem, a partir das proprias atitudes que vem tomando ao longo da história.

O que é uma excomunhão, senão um julgamento e a condenação de uma atitude? A meu ver, é anticristão, já que os ensinos Cristãos mandam, expressamente, que nos abstenhamos de julgar. Porque não propor soluções que humanizem as pessoas, reduzindo, assim, a incidência das barbaridades que se anda cometendo por ai, sobretudo contra crianças e adolescentes? Porque não reforçar os valores e os laços familiares já que o enfraquecimento da instituição família está na raiz de muitas das notícias que enchem as páginas policiais?

Enquanto a gente se cala, o mal avança. Até o dia em que venha a bater em nossa porta. E aí será tarde demais.

Manel vinha descendo a Av. Tereza Cristina, a partir da Cidade industrial. Estava voltando de um chopp com os amigos, depois do trabalho. Era sexta-feira e, solteiro, não tinha satisfações a dar. Foi assim que desceu, desceu e, de repente... "opa! Como é que uma moça fica andando assim neste local, nessa hora da noite?" E Manel parou o carro. "Moça, cê não deve ficar andando aqui sozinha nesse horário. É perigoso". E ela: "uai, o que você propõe?" "Uma carona", animou-se todo Manel. "Te dou uma carona". "Pra onde você vai?", ela quis saber. E ele: "pra onde for bom para você". Foi ai que a morena entrou e ele pode observá-la melhor. "Que tantão", pensou ele, reparando nas "curvas" e imaginando se ela ia querer algo com ele, ao mesmo tempo em que lamentava-se por não ter nenhuma bala, nenhum halls ao ao alcance da mão. E ela: "pode continuar descendo, ai depois te mostro onde você entra à direita". Manel pisou fundo e ela mostrando o caminho, à direita, esquerda, esquerda novamente e..."pode entrar ali". "mas, aqui é o Red...ah, meu Deus". Fazer o que, àquela altura do campeonato? Em instantes, lá estava Manel e a desconhecida, devidamente instalados. Nem perguntara seu nome e, agora, quem é que ia querer saber de nome? Melhor aproveitar, antes que ela mudasse de idéia. Nem pensou duas vezes. lambuzou-se até se fartar. Depois, deitado de barriga pra cima, ele resolve puxar assunto: "moça, mas você, hein?" E ela: "Me leva agora". E ele: "para onde?" "para o lugar onde você me pegou, uai!" Manel estava confuso, mas, nas circunstâncias, melhor obedecer. Vestiram-se, ele pagou a conta e sairam. Já no mesmo local onde a vira, ela pediu: "pode parar aqui. São cincoenta reais". "Cincoenta reais o que?" "O programa, uai". "Mas eu não pedi nada", respondeu Manel, o sem noção. E arrancou, quase carregando consigo a perna da 'moça'. "Eu, hein. Esse mundo tá doido mesmo. A moça me pede carona e ainda quer receber?", pensou enquanto acelerava, relaxado, pronto para descansar do dia cansativo que tivera.

Tem noção nenhuma esse Manel.

Sobre o amor premiado

É muito bom acompanhar histórias de superação. É muito bom assistir injustiças que são corrigidas. Mas é melhor ainda quando tudo isso se junta para dar origem a uma boa histórias. E boas histórias tem conteúdo, tem romance e tem lição de vida. Em uma boa história os personagens tem garra, tem força, são testados até o limite. E tem, sobretudo, alegria de viver. Esse é o caso de “Quem quer ser milionário”, o filme que arrebatou a Academia de Ciências e Artes de Hollywood em 2009 e ganhou oito dos dez oscars a que concorria. Além dos prêmios principais melhor filme e direção, saiu atropelando os concorrentes e foi premiado por “fotografia”, “roteiro adaptado”, “mixagem de som”, “montagem”, “canção” e “trilha sonora original”. Um espanto, quando se leva em conta o baixo custo de produção e o fato de não haver, no filme, nenhuma estrela de Hollywood. Pelo contrário, meninos da periferia de Mumbai, na Índia, a exemplo do nosso “Cidade de deus” que usou atores da favela de mesmo nome, no Rio de Janeiro e, só não foi indicado ao prêmio de “Melhor filme” em sua época, por ter sido considerado “violento demais”, argumento que não foi usado na edição atual do Oscar, talvez pelo fato de ter um diretor conhecido desde a década de 90.

“Quem quer ser milionário” é o título de um programa de auditório, que lembra o nosso antigo “Show do milhão”, onde o indiano Jamal Malik está concorrendo ao prêmio de 20 milhões de Rúpias. No início, você é informado de que ele está em 10 milhões e está a uma pergunta de levar o prêmio máximo. Mas, como ele conseguiu? Como um menino pobre, nascido na favela e sem estudos conseguiu acertar as respostas das perguntas que lhe foram feitas? Ele trapaceou? Ele é sortudo? Ele é um gênio? Ou está escrito? A resposta virá no final, porque, antes, você vai acompanhar a trajetória de Jamal, do seu irmão Salim e de Latika. E vai descobrir que as situações propostas no programa se confundem, todas, com a sua história de vida.

Ao longo do filme, ele vai se superando, perdendo muito e ganhando quase nada. Mas acumulando experiências que serão fundamentais para enfrentar o programa de auditório. O melhor de tudo, talvez seja a motivação para que ele participasse do programa. Porque, o filme, ao final, revela-se uma história de amor.O amor que faz o homem trafegar por caminhos jamais sonhados ou imaginados na vida. O amor que premia aquele que o sente verdadeiramente.

É esse amor que foi premiado pelo Oscar.

O Dia Internacional da Mulher é uma homenagem a um episodio tragico que aconteceu nos Estados Unidos. Em 1857, mulheres de uma fabrica de tecidos em Nova Iorque se rebelaram contra suas condicoes de trabalho. Foi a primeira vez que as mulheres se uniram para reivindicar melhorias.

Mas a rebeliao foi contida de forma violenta, culminando com a morte de 129 tecelas, que morreram carbonizadas dentro da fabrica. Em 1910 surgiu a ideia de se criar uma data para homenagear essas operarias e marcar um dia de luta feminina. Em 1975 a Assembleia Geral das Organizacoes das Nacoes Unidas (ONU) decretou o dia 8 de marco como Dia Internacional da Mulher.

No Brasil, o direito ao voto so e reconhecido na Constituicao de 1934. A primeira governadora eeleita 60 anos depois. De acordo com dados da Fundação Carlos Chagas, no periodo de 1981 a 1998, o crescimento das mulheres economicamente ativas no país foi de 111%, enquanto que o dos homens foi de 40%.

Hoje, a parcela feminina representa 41% da população economicamente ativa, com 30 milhoes de mulheres no mercado de trabalho. No setor educacional, a ascensão da mulher revela-se na presença de 57% em estudantes do 2° grau e ensino superior.

De acordo com a ONU, 25% das brasileiras sao vitimas constantes de violencia no lar. Em apenas 2% dos casos, o agressor e punido e, em cerca de 70%, esse agressor e o marido ou companheiro.

Segundo o Ministerio da Previdencia Social, existem atualmente 9 milhoes de donas-de-casa no Brasil. Ate mesmo as cerca de 40 milhoes de mulheres que ocupam postos no mercado de trabalho, formal ou informal, acabam desempenhando atividades domesticas. Ou seja, no mundo contemporaneo ainda cabe, ao sexo feminino, a tarefa de cuidar do lar e da familia.
(Retirado do site: www.buscafeminina.com)

Sobre o meu pai

Meu pai é uma dessas raridades que existem por ai.
Com ele aprendi que a gente não precisa sofrer quando as coisas vão mal. Basta esperar. Com ele aprendi que o sorriso conquista o mundo e que a gentileza é a chave que abre todas as portas na vida. Com ele aprendi que o homem precisa ser moralmente íntegro e que a honestidade compensa as privações que, eventualmente, a vida nos impõe.

Com meu pai aprendi a ser homem de verdade. Aprendi a ser gente. E aprendi que o humor é essencial para se viver bem. Ele tem sempre uma história para contar e as respostas para todos os questionamentos na ponta da língua.

Certa vez, visitando um irmão, a sua cunhada insistia que ele precisava, segundo ela, "aceitar Jesus", porque estava correndo o risco de ir para o inferno. Saiu-se com esta: "uai, Comadre, meu pai e minha mãe são as maiores joias que Deus colocou em minha vida. E nunca foram "crentes". Agora, você está me dando a notícia de que eles estão no inferno, então, vai ser um prazer poder ficar junto deles. Para que eu vou querer outro lugar?

Fitando-o, a minha tia só conseguiu dizer assim: "é, você não tem jeito..."

Meu pai é assim: sem jeito. E é por isso que é o meu espelho na vida...

Pe. Olimpio era Coordenador da Associação de Ex-alunos de Dom Bosco, quando o conheci. Sorridente, de conversa amena, era uma companhia extremamente comunicativa e agradável que, por cortesia divina, brindou-me com a sua amizade. Quando publiquei "Lírios para Maria", recebia sempre um pedido para que eu lhe enviasse alguns exemplares, pois iria viajar para algum encontro e gostaria de divulgar e vender alguns livros por mim. Assim, acabou sendo um dos principais responsáveis por esgotar a tiragem de 1.000 exemplares que editamos. Acho que essa era a sua maneira de demonstrar sua amizade. Ajudando-me e promovendo-me. Eu, então adolescente metido a poeta, só hoje compreendo integralmente a dimensão da sua figura humana.

Quando fui candidato a vereador pela primeira vez, recebi um chamado seu. Queria que eu fosse à Inspetoria São João Bosco, onde residia. Chegando lá, recebi dele um livro-caixa, "para você anotar toda entrada e saída de dinheiro para a campanha", ele disse e entregou-me um envelope, "para abrir o livro", com cem reais: "eu queria ajudar mais, mas, você sabe, né, fiz voto de pobreza... mas, recebi uma pequena quantia de herança e separei esse, não pelo valr, mas te dar um ânimo, porque acredito em você."

Foi mais ou menos isso o que ele disse. E, ainda me lembro da defesa que fez de mim, quando se insinuou que eu pudesse estar me promovendo por ser um ex aluno.

Na última vez em que o vi, Pe. Olimpio não me reconheceu. Encontramo-nos na Rua Tupis, no entro de Belo Horizonte e, quando o cumprimentei, perguntou: "quem é você?". Com estranhamento, respondi: "Sou eu, o Vanderlei". "Ah, o nosso poeta", disse, e, sorrindo, como era seu estilo, completou: "não liga não. É que estou com Alzheimer. Daqui a pouco não vai dar para reconhecer mais ninguém". Despedimo-nos e só fui saber dele, novamente, daí há uns dois anos, talvez, quando pedi notícias dele ao Edu, já sabendo que ele havia retornado à casa do pai, onde estou, por ora, impedido de fixar moradia.

Por pouco tempo...

Dizem que o tempo não existe. É apenas uma abstração criada para dar algum sentido à vida. Pois, em "O curioso caso de Benjamin Button" essa "abstração" foi elevada à condição de personagem principal de um filme. É ela quem dita o ritmo do filme, onde um homem desafia as leis da física, nascendo velho para ir rejuvenescendo com o passar do tempo.

Eu admiro a fonte de criatividade humana. Há histórias que a gente lê e gostaria de ter escrito. Eu admiro F. Scott Fitzgerald, o autor do conto que serviu de inspiração para que fosse contada essa história que, no final das contas, a gente tem dificuldade em classificar. É uma história de amor? É uma história sobre encontros e desencontros, ou é, apenas, a história de um tempo passando inclemente, seja para frente ou, brincando conosco e fazendo o caminho inverso da literalidade à qual estamos acostumados?

Há algum tempo, em clip da música "Return to innocense", o grupo musical "Enigma" tratava desse tema, de uma forma muito bonita e sensível, com o tempo correndo ao contrário, a partir do momento da morte da personagem. Mas, á diferença é que, ali, a vida anda para trás, ao contrário, como naquele texto usado em um comercial da década de 90, se não me engano, para uma peça publicitária, onde Chico Anysio falava sobre nascer aos 80 anos e ir rejuvenescendo com o passar do tempo. Tudo redondinho. Poético e bonito.

O filme vem colocar as coisas em seu devido lugar. É que, no mundo real, as coisas são bonitas e poéticas a seu tempo e são, para nossa tristeza, finitas. E como o tempo é curto para aquilo que queremos perpetuar, como situações, momentos e pessoas especiais. Que o diga Benjamin, que, ainda na velhice, vai descobrir que a vida é uma colcha de retalhos, tecida de aprendizados, mas sobretudo, com a dor da perda. E que essa colcha é feita, sobretudo, daquilo que a gente não teve tempo ou oportunidade de fazer.

Mas a vida é feita, principalmente, de amigos. E, lá estão muitos amigos. Inclusive um capitão de navio, um dos elementos importados de outro filme igualmente tocante e sensível, "Forrest Gump - o contador de histórias". Mas o elemento principal é mesmo, o tempo: Benjamin nasceu ao fim da primeira guerra mundial, em circunstâncias "anormais", era um bom dia para nascer...

a verdade é que, antes do seu nascimento, o tempo já havia se intrometido a personagem principal. Eis que, no princípio era o relógio. E essa raridade de relógio andava para trás, para que os jovens que haviam perdido suas vidas na guerra pudessem voltar para os campos de batalha e, dos campos de batalha, para casa...

não trouxe nenhum jovem de volta, mas influenciou decisivamente a vida do menino que nasceu idoso. O menino interpretado por Brad Pitt, cada vez mais jovem, graças a um trabalho de arte e a uma duração que, se por um lado parece ter deixado o filme meio longo, por outro, propiciou que as mudanças ocorressem na medida certa, para ficar mais convincente. Assim como é convincente a aceitação, por parte da mulher que ele amava, de que seria impossível continuarem juntos.

"O curioso caso de Benjamin Button" é uma prova de que o tempo é cruel. Mesmo quando procura-se inverter a sua lógica de funcionamento. O alento vem do fato de que, por mais que tente, ele não consegue superar o amor. Ainda que consiga separar, provisoriamente, as pessoas que se amam. E, parece vingar-se desse fato, quando assistimos, ao final, a inversão daquilo que ocorre no início: antes era Dayse (Kate Blanchett), criança, e Benjamin, idoso. Ao fim é Benjamin, criança e a sua amada, idosa, depois de terem vivido um grande romance.

De resto, o tempo é, realmente, o senhor da história, que só acaba depois que é trocado o relógio da estação, aquele que, no início da fábula, andava para trás.

A lição que fica é de que, sob qualquer ponto em que se analise a vida, o eclesiastes tem razão: há um tempo para todas as coisas debaixo do sol...

e, se é assim, melhor é que andemos sempre para frente. Nunca o contrário.

Sobre a minha "doce vida"

Hoje, nos corredores da Câmara Municipal, uma moça ofereceu-me uma bala: "para adoçar a sua vida", ela disse. "Mas a minha vida já é doce", retruquei. E completei para mim mesmo: "vou contrair um diabetes". Saí desse breve encontro pensando na minha "doce vida"...

Preciso fazer uma pausa para um breve comentário: "A doce vida" é, na verdade, uma das obras primas de Fellini, cujo título, por acaso, veio ao meu encontro no exercício literário do dia. E será que a minha vida tem algo a ver com esse clássico? Talvez, até tenha, pois lá está Marcello Mastroiani curtindo os atrativos da vida moderna, na descrição de Fellini. E aqui estou eu, descrevendo a minha busca pela doçura do equlíbrio em meio a essa mesma modernidade que continua privilegiando os valores do parecer e do ter, em detrimento do "ser". Não faz muito tempo, assisti "Elza e Fred", uma comovente história de amor em que a personagem principal tem na sua sala de estar um quadro de Anita Ekberg, em "A doce vida" e sonha reproduzir, ela mesma, a sequência célebre do filme, na Fontana de Trevi, desejo que, emocionada, acaba realizando. Ainda bem que esses filmes vieram se intrometer na minha escrita. Preciso revê-los, mas...

voltando à doçura da minha própria vida, que está longe da vida de prazeres do Mastroianni, saí pensando em como a vida costuma nos colocar diante de situações curiosas: mesmo em meio ao turbilhão de afazeres e de problemas a solucionar, há ensejo para que se mantenha a vida pessoal "doce", embora a rodeie a amargura. No meu caso, até os meus poemas, que sempre tiveram uma carga melancólica muito grande, estão aos poucos, cedendo espaço para a prosa, leve e nada melancólica. Deve ser sinal de que aquele estado de espírito já me abandonou.

À medida que o tempo passa, parece que sou tomado de uma certa paz de espírito, que insiste em permanecer em mim, mesmo quando o caos impera em derredor. Não costumo perder a calma, até porque virtude, uma vez conquistada, não mais se perde. Alguém já me disse que a isso se chama maturidade. E eu, que sempre me orgulhei de ter sido um menino precoce em quase tudo o que fiz, começo a temer a precocidade da calmaria. Porque ela costuma anteceder a velhice...

Sobre infância encolhida

Em entrevista publicada nas páginas amarelas da revista Veja desta semana, Maurício de Sousa comenta o sucesso da revista da Mônica adolescente, que vende o dobro da Mônica criança. E afirma: a infância foi encurtada.

Segundo ele, antigamente, adolescentes de 14 anos liam e gostavam dos seus gibis, enquanto, hoje, começam a deixar de lê-los aos 7. A solução encontrada? Investir naquilo que parece ser a tendência do momento: a modernidade, que confere malícia aos personagens.

"Os personagens dos quadrinhos adolescentes protagonizam cenas de ciúme, sentem atração pelo outro sexo e ficam inseguros no grupo. Estão com os hormônios pipocando e não sabem o que fazer com isso... no quarto número, colocamos a Mônica beijando na boca o Cebolinha, agora chamado Cebola. Deu super certo Crianças de 7 anos voaram para o mangá como abelhas no mel. Lêem as histórias e se projetam nos nossos personagens. As meninas não vêem a hora de ser como a Mônica jovem: descolada, bonitinha, moderninha."

Bom... eu, que nasci no interior, tive a oportunidade de viver o lúdico da infância e a inocência que ainda permeava a pré adolescência. Criança de 7 anos não pensava em beijar na boca, porque achava isso nojento e, ao invés de ser descolada, bonitinha e sexy, pensava em brincar. Em ser criança.

Não está longe no tempo, até porque ainda somos jovens, brincadeiras de passar anel, pique-esconde, brincar de médico com a prima ou se esconder para vê-las tomando banho, participar dos "almoços" que as irmãs faziam com as colegas e mais um sem número de coisas que inventávamos.

As crianças estão deixando de ter infância. Encurtou-se a infância, como bem disse o Maurício. É uma pena que os formadores de opinião, que poderiam colaborar para devolver a infância perdida, acabem se rendendo à demanda de mercado. Alguém está dizendo aos pequenos, que é bonito imitar as dançarinas de grupos de funk. Estão confiscando o seu direito de viver plenamente uma fase da vida que, por si mesma, já é curta, porque dia virá, em seguida, em que haverá necessidade de se "adaptar ao grupo". O importante é que, enquanto esse dia não chega, há muito a se descobrir. Muito que uma revista em quadrinhos poderia mostrar, ajudando-os a sonhar. Dobrando-se às necessidades mercadológicas, aos apelos da indústria do entretenimento, rouba-se o sonho, a criatividade, a inocência de ser criança.

Bom seria se não industrializassem o entretenimento. Porque aí haveria espaço para inventar e reinventar, típico da idade infantil.

Eu que fui e faço questão de continuar sendo criança, nada sei sobre encurtamento da infância. A minha, cuidei para que não tivesse fim, prolongando-se por todos dias de duração da minha existência...

Sobre lições aprendidas

Esta é para Larinha:

A lição de Coralzinha

Era de manhã.
Mamãe coral saiu para fazer uma rápida visita a alguns ninhos de passarinho e conseguir alimento para Coralzinha, que ainda dormia.

Mamãe Coral era o terror dos filhotes que ainda não podiam voar e se aproveitava daquela horinha boa do amanhecer para buscar suas presas. Ficava escondida esperando mamãe pássaro sair e, então, de mansinho, chegava no ninho.

Coralzinha adorava ficar sozinha. Vaidosa e colorida, adorava os anéis que tinha em volta do corpo. E, assim que mamãe saía, bocejava gostosamente e arregalava os olhinhos perguntando-se a quem iria pregar sustos nessa manhã.

Sobrava para as crianças que passavam por perto, indo para a escola. Morriam de medo quando ela exibia seu pequeno corpo colorido que brilhava sob os raios do amanhecer. Era um susto só.

Certa vez, pendurou-se no cipó e ficou dançando bem na frente das crianças que, na correria, derrubaram cadernos e lanches no caminho. Naquele dia ela riu tanto, que acabou tendo dor de barriga...

Mamãe Coral não se cansava de advertir que não brincasse assim. Que humanos são cruéis e poderiam fazer-lhe algum mal. Mas ela nem ligava. Era muito divertido a correria que ela, tão pequenina, já conseguia provocar.

Nesse dia não foi diferente. Mamãe saiu e logo logo, lá estava Coralzinha fazendo arte. Só que era sábado e não passou nenhuma criança. Quem passou foi um lavrador. Ela o fitou e começou a se preparar para vê-lo correr. Primeiro, deslizou o corpinho suavemente entre as folhas. Ele não se mexeu. Então, ela se virou de frente e abriu a boca, mostrando a lingua e suas pequenas presas. Mais uma vez, ele não se mexeu. Então, desconfiada, Coralzinha, decidiu fazer uma última tentativa: ia usar o cipó para se pendurar.

Mas, foi exatamente nesse instante que sentiu algo bater forte em seu corpinho. O impacto foi amortecido pelo tronco em decomposição onde ela e mamãe Coral moravam. Só então ela se deu conta dos riscos que estava correndo. Viu o homem com um grande pedaço de pau, pronto para bater de novo.

Ainda bem que o homem também estava assustado. Aproveitando disso, ela se escondeu entre as folhas. Se tivesse um espelho teria visto como perdeu toda sua graciosa cor nesse momento. Sobrou apenas o vermelho, cor do susto!

Vermelha e de olhos arregalados, Coralzinha começou a entender que precisava escutar os conselhos de mamãe.

Sobre amigos

Mística
In: Quarador
Escrito para Maria José Rosa Abreu









Sei de pardais
que cruzam os ares
quando os amigos se vão

viajam estrelas
decifram galáxias
desvendam
o sonho
o som
o sol

descascam imagens
rotas
do álbum
de retratos

sei de rosas
que viram pó
após servirem
de alento

mas sei de sóis
girassóis
sei de quantos amigos
seguiram a estrada
sem curvas

e permanecem aqui

Esse post é uma resposta ao comentário do Edu, na publicação que fiz, abaixo, sobre São Sebastião:

Eu nasci em setembro.

Acontece que meu pai é "unha e carne" com São Sebastião. E, quando eu nasci, cismou de homenagear o amigo...

fiquei em apuros, naturalmente. Lembro-me que eu usava um balaio (nós morávamos no interior e meu pai passava horas trançando bambu para fazer balaios. Fazia-os de todos os tamanhos e em todos os formatos, inclusive de berço. Para mim, era uma coisa poética observar a sua arte, quando criança), mas, voltando ao assunto, eu, recém nascido, ouvi, porque, naturalmente, as crianças ouvem tanto quanto os adultos. E, por falar nisso, faço uma pausa para explicar que não há coisa mais aborrecida para um recém nascido do que ser tratado como retardado por adultos que fazem aquelas caras e bocas e falam as palavras pela metade...

bom, mas, voltando, novamente, ao nosso assunto... eu ouvi meu pai dizer que o nome escolhido era uma homenagem ao seu amigo mártir, São Sebastião. Lógico que, no embalo do susto, cai do balaio e bati a cabeça. Até hoje tenho soltos os parafusos que fariam de mim um adulto normal...

Depois disso, chorei uma semana. Sem parar. E, claro, sem dormir. Meu choro era tão alto que todas as benzedeiras da região acorreram à minha casa para saber de minha mãe o que estava acontecendo. Acho que minha mãe, coitada, nem conseguia atinar com tudo aquilo, pois o meu choro a obrigava a ficar acordada a noite inteira cuidando de mim. Até os balaios meu pai parou de fazer, para tentar arrumar algo que me acalmasse.

O que ele não sabia era que bastava mudar o nome para eu voltar a sorrir...

Durou uma longa semana o meu choro. Benzedeiras me benziam de vento virado, quebranto e mais uma infinidade de coisas que só elas sabem. Chás de todo tipo de erva eram colocados na minha mamadeira e médicos de todo o Brasil e de diversas especialidades foram chamados para me examinar. Houve até um americano que se encontrava de férias no país e, sabendo do estranho caso do bebê que chorava sem parar, apareceu para me examinar.

No terceiro dia desse desatino, minhas lágrimas provocaram uma enchente. A maior já vista naquelas redondezas. E, foi tanto, que, no lugar em que tudo começou, nasceu uma fonte que deu origem a um rio, hoje chamado "Rio São Sebastião". Afinal, alguma coisa tinha que restar em homenagem ao Santo.

Minha madrinha de batismo, Dona Efigênia, fazendeira, mulher de pulso, ficou sabendo lá para as bandas de Bateias, onde morava, que o pequeno povoado de Toledo estava em polvorosa por causa de uma criança que chorava sem cessar. Ficou sabendo, também, que aquelas lágrimas tinham um profundo poder curador: quando derramada sobre algum ferimento, a pele cicatrizava no mesmo momento e, quando ingerida, curava qualquer moléstia. Não foram poucas as pessoas que, desenganadas pelos médicos, vieram ter em minha casa, trazendo grandes latas vazias, que enchiam com minhas lágrimas e levavam na cabeça. Faziam chás, banhos e até usavam para cozinhar. Então, ela mesma que, apesar de mulher forte, tinha lá as suas fragilidades e desconfiada com o relato que lhe chegava aos ouvidos, veio nos fazer uma visita. E que visita!

Quando estendeu as mãos para o berço e me pegou no colo, meu choro cessou. Ninguém entendeu nada, mas, eu já sabia quando ela entrou, que ali estava o anjo da guarda da minha salvação. Olhou-me assim de lado, encarou-me, assim de frente e, percebendo que eu queria comunicar-lhe algo, chamou o meu pai, que, ao contar a minha saga, acabou por revelar o seu interesse em homenagear São Sebastião, dando-me o mesmo nome. Principalmente agora, que o santo operava o milagre de secar minhas lágrimas.

Foi nessa hora que a coisa aconteceu. Devolvendo-me ao berço, vermelha de raiva, perguntou ao meu pai como ousava querer me batizar com nome tão escalafobético! E, do alto da sua autoridade, fez um inesquecível discurso que não vou reproduzir por ser muito longo, concluindo que, a insistir nessa heresia de assim me batizar, ele que fosse procurar outra madrinha. Não contasse com ela. Estava ofegante e sua imagem refletida na luz da lua dava bem a dimensão do que ocorria ali: era Santa Efigênia, a Santa viva que veio me defender.

Pobre pai. Além de São Sebastião, também era unha e carne com Santa Efigênia. Que levava vantagem por estar viva. E agora? A quem contrariar?

O que o levou a decidir-se eu não sei, talvez tenha sido o fato de, entre os vivos e os mortos, preferir não comprar briga com quem está mais próximo. O que todos sabem é que desistiu do nome. E, mais do que isso: delegou a ela o direito de escolher o nome que mais lhe agradasse.

Ela piscou e eu tive um acesso de riso que me acompanha até os dias de hoje.

Sobre infância roubada

O seu nome é Omar Khadr. E ele está preso na base militar de Guantánamo, a prisão que o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama mandou desativar. Apesar das raizes familiares no Afeganistão, Omar é um cidadão canadense, o único ocidental naquela prisão. O que espanta é o fato de ele estar lá há mais de seis anos, acusado do lançamento de uma granada que matou um soldado norte-americano. Acontece que há dúvidas sobre a autoria do crime que lhe é atribuído. Mais: a família alega que ele não é a criança soldado que dizem ser. Pelo contrário: teria sido levado pelo pai ao Afeganistão para servir de intérprete, por saber falar pashtun, a lingua oficial do Afeganistão.

Omar foi preso em 2001, aos 15 anos. Uma criança. Mais um desses de quem os adultos abusam e de quem arrancam a infância. Apesar de ter crescido nos orfanatos que o pai criou no Paquistão e nos campos de treino da Al Qaeda, no Afeganistão, o que ele gostava mesmo era de brincar com um primo e assistir desenhos animados no Canadá, onde residem seus parentes mais próximos.

Agora, preso e torturado aos 15 anos, acusado de um crime que, provavelmente não cometeu e, se o fez, talvez sequer tivesse condições de escolhas contrárias, o agora jovem Omar está cego e esteve à beira de ser julgado e, muito provavelmente, condenado à prisão perpétua. Até o presidente Obama assumir e suspender todos os processos em andamento.

Tomara que, apesar das agruras que tem passado, ainda haja tempo de resgatar a dignidade do "miudo assustado e reservado", como ele foi descrito por um britânico libertado pelos Estados Unidos, que dividira a cela com ele em Cabul, no ano de 2005. É impressionante o número de crianças soldado naquelas regiões de conflito. São aliciadas e armadas desde muito cedo. E, como muitas crianças no Brasil, são privadas daquilo que a gente tem de mais puro em nossas vidas, que é a infância.

Tomara que os protestos que começam a crescer em favor do jovem Omar Khadr, possam convencer os Estados Unidos a respeitarem os protocolos de proteção à criança e à adolescência, de que são signatários e fazer como os tribunais de Serra Leoa, Ruanda, Bósnia e Camboja, que decidiram não julgar as crianças, por entendeream que elas são vítimas.

O problema é que os Estados Unidos, "a maior democracia do mundo", entendem que os protocolos que assinaram os impede de "usar crianças soldado", mas, não os impede de julgá-las...

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