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Sobre perdas necessárias

Parece que chega um momento em nossa vida a partir do qual acelera-se o processo de despedida de pessoas muito queridas e, algumas em particular que a gente tinha a sensação de que nos acompanhariam por toda a nossa experiência terrestre. Pessoas quemarcaram a nossa infância, pessoas que nos deram um norte na adolescência e juventude, pessoas que, em alguma das muitas curvas da nossa vida passaram a escrever uma página muito bonita de nossa história.

Mas, penso que o existir é assim mesmo. Repleto de perdas que são necessárias ao nosso aprimoramento. E, até nisso, podemos enxergar a perfeição divina. É como se Deus afirmasse a nós: "sim, é preciso perder. Perder para poder ganhar". Afinal, foi assim desde o sempre. É preciso perder a comodidade do útero materno para as primeiras oportunidades da caminhada terrestre. É preciso perder a infância, para adentrarmos a adolescência, essa fase em que somos, muitas vezes, insuportáveis, sem que sequer o suspeitemos. Mais uma pista de como Deus é magnânimo, pois, se soubéssemos, seríamos mais responsáveis. E ai, é como se pudéssemos ouvir, mais uma vez a sua voz a nos dizer: "fique tranquilo. Dia virá em que você entenderá as suas limitações".

E, a partir daí as perdas se acentuam: a adolescência se vai e com ela, muitos dos sonhos e das falsas perspectivas que visualizamos para nossas vidas. Vão-se os amigos inseparáveis cuidar da própra vida e já não são tão inseparáveis mais. Vai-se a primeira paixão. Vai-se o ócio e a responsabilidade começa a bater à porta de uma forma nunca antes imaginada: vestibular, necessidade de trabalho, a árdua batalha para se sobressair bem diante da competitividade da vida. Dinheiro contado, ou falta dele, decepções e a passagem inexorável do tempo.

E é justamente nesse ponto que os ganhos também se acentuam. Nessa fase já está formado o nosso caráter. Aquilo que, realmente irá nos diferenciar das outras pessoas. Nessa fase já conquistamos em definitivo o direito de reconhecer que somos humanos, não perfeitos. E que aprendemos errando. Mas, por outro lado, encontramo-nos na plenitude da força física e intelectual, mergulhados em um mundo de possibilidades e com domínio total do nosso livre arbítrio. Já aprendemos a reconhecer que as nossas atitudes tem consequências. E, até aí nos vemos diantes da escolha: que tipo de consequência vou escolher?

Parece-me que é justamente nessa fase que estamos caminhando, apressadamente, para romper os laços que ainda nos prendem às referências mais caras da nossa infância: vô, vó e, em algum momento mais adiante, pai, mãe, quedam-se no caminho, ao lado de todas aquelas figuras que nos viram nascer e crescer. Claro que alguns de nós desafia essa situação, até porque não trata-se de uma regra, já que, às vezes, ela precisa, por algum motivo ainda desconhecido a nós, ser quebrada, ser invertida. Mas, na maioria das vezes, é esse o script: despedir de cada um daqueles que nos viu nascer, crescer e que ajudou a formar o nosso tesouro mais precioso que é o caráter. E é ai, que, ainda uma vez, podemos ouvir a voz de Deus: "era necessáro que fosse assim. Cumpriram o seu papel de ensiná-lo a caminhar. Agora é com você".

E, se abrimos a janela, a vida nem sempre sorri. Porque, também é necessário que seja assim. Alguns parentes e amigos se vão. E muitos amigos e parentes chegam para que nunca se perca a referência maior que é a família que se tem.

E, além da janela, o tempo passa numa velocidade que não tivéramos condições de observar quando criança, porque faltava-nos senso para isso. Porque éramos protegidos para não ter que pensar em coisas como a despedida. Porque quando depedimos daqueles a quem aprendemos a amar, estamos fazendo um exercício para o momento de também nos despedirmos. E, se o objetivo é perder algo menor em troca de algo maior, bem, ouçamos a voz de Deus sussurando em nossos ouvidos: "são muito pequenas suas perdas, comparadas aos ganhos acumulados para sua eternidade."

Precisamos fazer um exercício diário para sermos menos egoistas. Entender que todos estão sujeitos ao mesmo caminho de dor pelo qual a gente passa. E, entender que, ao lado das tormetas que enfrentamos, há pequenas alegrias que valem a vida toda. É como dizia Hammed: "a dor é necessária. O sofrimento é opcional." Ou seja, perder é preciso. Mas o passado é o aprendizado, a lição que orienta no preparo do amanhã.

O que eu espero é um amanhã onde todos os que deixaram de, em algum momento, caminhar comigo, possam sorrir juntos, agradecidos pelo dever cumprido... e, assim, continuarmos a caminhada.

Sobre o ano novo

Esse é um vídeo que fala sobre escolhas. Sobre as escolhas que temos que fazer em nosso dia a dia. A mensagem fala por si mesma, nesse momento em que as esperanças se renovam, preparando-nos para um novo ano.

O Ministério da saúde lançou um edital para compra de 15 milhões de lubrificantes para relações íntimas, com gastos estimados em 40 milhões de reais. O Deputado Miguel Martini está entrando com uma ação para barrar a compra. Martini já questionou, na justiça, a distribuição de uma cartilha do Ministério, com ilustrações sobre o uso de drogas e relações sexuais. Segundo o Deputado, a cartilha ensinava a usar crack e cocaina e, ainda, ensinava como comprar ecstasy.

Não tenho por hábito ser falso moralista. Mas, os argumentos do deputado de que "em um país onde está faltando remédios e há pessoas morrendo nas filas dos hospitais, comprar 15 milhões de lubrificantes para dar mais conforto na relação anal e vaginal é uma piada de mau gosto" são fortes o suficiente para me convencer.

A saúde sempre foi um verdadeiro "calcanhar de Aquiles" para os governantes. E, especialmente no Brasil, ainda estamos vivendo a era em que as pessoas morrem nas filas por falta de atendimento, onde falta desde médicos até remédios nos Centros de saúde, onde a população não consegue acesso a consultas especializadas e erros médicos acontecem com frequência. Então, o bom senso nos mostra que o Brasil ainda não é a Holanda e, assim, há coisas mais urgentes reclamando atenção e, principalmente, verbas.

Como dizia meu amigo José Altino, "primeiro as coisas primeiras"...

Há alguns anos, quando li "Cem anos de solidão", do escritor Gabriel García Marquez, eu não conseguia deixar o livro. Quanto mais páginas eu devorava, mais eu queria devorar daquela história que, linha após linha me encantava mais. Cheguei ao fim e fechei o livro com aquela sensação de que eu vivera, durante a leitura, em um mundo à parte. Macondo era real e eu a estivera visitando e, mais do que isso: eu conseguira entrar na vida de suas personagens e conviver no seu realismo fantástico. A partir daquele dia, passei a indicar García Marquez para todos que me pediam indicação de leitura. - Já leu "Cem anos de solidão"? - Então deixe tudo o que estiver fazendo e vá ler. Leia já, leia tudo...

É impressionante como um bom texto pode nos transportar a um outro mundo e nos fazer desbravar terras tão desconhecidas quanto distantes. E, quando a viagem termina, fica aquele gostinho de "quero voltar lá"... um querer estender a experiência, até que outro livro tão bom caia em nossas mãos e a epopéia recomeça...

Porque estou falando disso hoje? Porque, navegando desinteressadamente, esbarrei com esse texto, escrito por ele e lembrei-me de voltar a ler "Cem anos" mais uma vez...

"Se por um instante Deus se esquecesse que sou uma marionete de pano e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas em definitivo pensaria em tudo o que digo. Daria valor ás coisas, não pelo que valem, mas sim pelo significam. Dormiria pouco, sonharia mais. Entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria enquanto os demais se detêm, despertaria enquanto os demais dormem. Escutaria enquanto os demais falam, e como desfrutaria de um bom sorve de chocolate. Se Deus me favorecesse um pedaço de vida, me vestiria simples, me atiraria de bruços ao sol, deixando descoberto, não só meu corpo, mas também minha alma. Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo, e esperaria que saísse o sol. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à lua. Regaria com minhas lágrimas as rosas, para sentir a dor de seus espinhos, e o vermelho beijo de suas pétalas... Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... Não deixaria passar um só dia sem dizer ás pessoas que eu amo, que as amo. Convenceria a cada mulher ou homem que são meus favoritos e viveria apaixonado de amor. Aos homens provaria quanto equivocados estão ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar! A um menino daria asas, mas deixaria que ele sozinho aprendesse a voar. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento. Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escalada. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com seu pequeno punho, pela primeira vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre. Aprendi que um homem só tem direito a olhar o outro até embaixo, quando há de ajudá-lo a levantar-se. São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas realmente de muito não haverão de servir, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei morrendo. Sempre diz que o que sentes e faz o que pensas. Se soubesse que hoje fosse a última vez que vou te ver dormir, te abraçaria fortemente e rezaria ao Senhor para poder ser o guardião de tua alma. Se soubesse que esta fosse a última vez que te vejo sair pela porta, te daria um abraço, um beijo e te chamaria de novo para dar-te mais. Se soubesse que esta fosse a última vez que ouviria tua voz, gravaria cada uma de tuas palavras para poder ouví-las uma e outra vez indefinidamente. Se soubesse que estes são os últimos minutos que te vejo diria "te amo" e não assumiria, tontamente, que já sabes. Sempre há um amanhã e a vida nos dá outra oportunidade para fazer as coisas bem, mas se me equivoco e hoje é tudo o que nos resta, gostaria de dizer o quanto te amo, que nuca te esquecerei. O amanhã não está garantido a ninguém, jovem ou velho. Hoje pode ser a última vez que vejas os que amas. Por isso, não esperes mais, faz hoje, já que se o amanhã nunca chega, seguramente lamentarás o dia que não tivestes tempo para um sorriso, um abraço, um beijo e que estiveste muito ocupado para conceder-lhes um último desejo. Mantém os que amas perto de ti, diz-lhes ao ouvido o muito que necessitas deles, ama-os e trata-os bem, encontra tempo para dizer-lhes "sinto muito", "perdoa-me", "por favor", "obrigado" e todas as palavras de amor que conheces.Ninguém te recordará por teus pensamentos secretos. Pede ao Senhor a força e sabedoria para expressá-los. Demonstra a teus amigos o quanto são importantes para ti."

Gabriel Garcia Márquez

Sobre Dorival Caymmi

Eu costumo ouvir Caymmi assim: deitado, acompanhando letra e música de olhos fechados, para que o meu espírito possa "fazer uma viagem" até o mar de que ele falava, seja na Bahia ou em Copacabana. Afinal, "o mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito..." e "um bom lugar pra ver o mar, Copacabana..."

Para mim, Caymmi era uma das melhores coisas da Bahia. A sua música, indiscutivelmente, faz parte daquilo que o Brasil tem de melhor. É difícil descrever o prazer de ouvir "Acalanto"(composta para "ninar" a filha Nana), "O bem do mar", "Sábado em Copacabana", "A vizinha do lado", "Dora", "Suite dos pescadores", "Morena do mar", para citar apenas algumas.

Sem Caymmi a Bahia e o Brasil ficaram menos ricos. Ainda bem que Dorival deixou uma família inteira de excelentes músicos. Carregam o selo, a marca Caymmi. É prova de qualidade.


Sobre música

Poucas coisas me dão mais prazer do que a leitura de um bom livro, assistir um bom filme, viajar ou ouvir boa música.

2008, que encontra-se à beira do último suspiro, privou-nos de algumas lendas da música.

Em junho, o norte americano Bo Didley, uma lenda viva do blues, conhecido por usar uma guitarra caseira quadrada, óculos escuros e chapéu preto. Artistas do porte dos Rolling Stones afirmam terem sido influenciados por ele. O cara era fera!

Também, no ano em que comemorou-se os 50 anos da bossa nova, morreu o francês Henri Salvador que, com a música "Dans mon ile" teria influenciado Tom Jobim na criação da bossa nova.

E foi-se a sul-africana Miriam Makeba, um ícone na luta contra o apartheid, a norte americana Odetta, cujas músicas tornaram-se hinos na luta pelos direitos civis em seu país, Israel "Cachao" Lopez, um dos símbolos da música cubana, o ganhador do Grammy, Isaac Hayes... todos muito bons de se ouvir.

Por aqui, no Brasil, ficamos sem a voz do sambista jamelão, um dos nomes que me fizeram prestar mais atenção ao samba. Recentemente, busquei músicas deste ritmo, de diversos períodos da nossa música e, a cada uma que ouço, é uma sensação. De Jamelão, gosto especialmente do disco que gravou com músicas de Lupicínio Rodrigues, que está entre os melhores cds que tenho.

A nossa música perdeu, também, a cantora Silvinha. Essa eu conheço pouco, só mesmo aqueles "hits" de todos os tempos da jovem guarda. Silvinha chegou a vender mais de 1 milão de discos na carreira. Preciso ouvir mais coisas dela.

Outro que se dspediu neste ano foi Waldick Soriano. Um dos grandes nomes do que chamam "música brega". Para ele, era música romântica. Compôs cerac de 700 músicas e é conhecido pela música "Eu não sou cachorro não". No ano passado foi tema do documentário "Waldik, sempre no meu coração", da atriz Patrícia Pillar, com lançamento de CD e DVD ao vivo.

Por último, o grande nome da música brasileira de todos os tempos, Dorival Caymmi.
Merecerá um post à parte.

A minha próxima vida


Na minha próxima vida quero vivê-la de trás pra frente.

Começar morto para despachar logo esse assunto.

Depois acordar num lar de idosos e ir-me sentindo melhor a cada dia que passa.

Ser expulso porque estou demasiado saudável, ir receber a aposentadoria e começar a trabalhar, recebendo logo um relógio de ouro no primeiro dia.

Trabalhar por 40 anos, cada vez mais desenvolto e saudável até ser jovem o suficiente para entrar na faculdade, embebedar-me diariamente e ser bastante promíscuo, e depois estar pronto para o secundário e para o primário, antes de virar criança e só brincar, sem responsabilidades.

Aí viro um bebê inocente até nascer.

Por fim, passo 9 meses flutuando num spa de luxo com aquecimento central, serviço de quarto a disposição e espaço maior dia a dia, e depois...

Voilà! - desapareço num orgasmo.

(Parece que o texto é de Woody Allen)

Sobre o Natal II

Na maioria das vezes a gente se esquece do aniversariante. Lembra-se mais de papai noel do que de Jesus. Vi esse clip com a voz da Celine Dion perguntando: "então é natal... e o que você fez?"

Fico me perguntando se já chegamos, realmente a saber a verdadeira dimensão dessa data...

Sobre o Natal

"É como nas grandes histórias, Sr. Frodo. As que realmente importam. Eram repletas de escuridão e perigo. E, às vezes, você não queria saber o final porque como o final poderia ser feliz? Como o mundo poderia voltar a ser o que era depois de tanto mal? Mas, no fim, essa sombra é só uma coisa passageira. Até a escuridão deve passar. Um novo dia virá. E, quando o sol brilhar, brilhará ainda mais forte. E são essas as histórias que ficam na lembrança, que significam algo. Mesmo se você for pequeno demais para entender o porquê. Mas, acho, Sr. Frodo, que eu entendo sim. Agora eu sei. As pessoas dessas histórias tinham várias oportunidades de voltar atrás. Mas não voltaram. Elas seguiam em frente porque se agarravam a algo."
"E no que nós nos agarramos, Sam?"
"No bem que existe nesse mundo, Sr. Frodo. E pelo qual vale a pena lutar."

Texto de "O Senhor dos Anéis - As duas Torres"

Sobre Alvinópolis II

De Alvinópolis, um pouco
(Ilderaldo Francisco Ferreira)


Tantos anos
pequenos para sua história.
Calçadas velhas
antigas casas
pela parte alta.
Rangem dobradiças
da igreja das missas
da Nossa Senhora do Rosário
que do alto assiste
à parte, partes
dos dias comuns
de Alvinópolis.

Tantos anos
têm os sinos
que repicam
bela melodia antiga
com a ajuda do vento
em alegre tocar
ou em triste lamento
a anunciar coisas em Alvinópolis.

Tantas pequenas ruas
se cruzam em outras tantas
e se perdem como veias ramificadas
no corpo de Alvinópolis.

Tem-se tradição
O povo segue costumes antigos
todo estranho ganha e faz
em paz bons amigos.
Os velhos contam casos
que ficam para sempre
e o tempo passa
com bom ar a tudo abraça
e segue pequena calma
em calma Alvinópolis.

(Fotos de Gjunior - http://www.alvinews.com.br/)

Sobre "Quarador"

26 POEMAS E UMA CANÇÃO SAUDOSISTA

a. zarfeg (jornalista, ficcionista e poeta, residente em teixeira de Freitas - BA)

Com a publicação de Quarador (Anome Livros, Belo Horizonte–MG, 2003), Vanderlei Lourenço dá um salto qualitativo na sua produção poética, deixando de ser apenas uma promessa literária para se transformar num poeta de verdade, dono de uma sensibilidade lírica e uma riqueza temática afinadas. Além disso, percebe-se em seus poemas uma visível maturidade no trato com os signos verbais, o que revela que o poeta trilhou um longo caminho de tentativas, experimentos, altos e baixos – até culminar com Quarador, sua obra-prima.

Conheci Vanderlei quando ele não passava de um adolescente metido a poeta e cujas primeiras experiências poéticas já haviam sido reunidas no livro Visão de Adolescente, que teve uma boa repercussão naquele momento. Depois, viriam Primavera em dezembro, Lírios para Maria, A casa do silêncio e, agora, este Quarador.
Naquela época, nós nos reuníamos na Rua da Bahia, na sede da Asbrapa (Associação Brasileira dos Poetas Amadores), para discutir literatura brasileira e analisar criticamente os poemas enviados pelos poetas interessados em se associar à entidade, a qual, além de facilitar a publicação da obra dos associados, editava o periódico Expressão Literária. A bem da verdade, a cúpula (o exigente presidente Aguilar Pinheiro, Wilmar Silva, Gilmar Santos, Rodolfo Ribeiro, Vanderlei e eu) vivia um intenso caso de amor com a literatura, à qual estávamos ligados gratuita e esteticamente falando. Era como se, naqueles encontros que se repetiam uma vez a cada quinzena, a literatura nos envolvesse num misto de compromisso e passatempo (mais diversão do que propriamente engajamento literário – como não me deixa mentir Vanderlei, que, inspirado, recitava versos e, ao mesmo tempo, pilheriava com os colegas).
Resumindo: a Asbrapa conseguiu viabilizar a publicação de alguns livros, antes de extinguir-se no início dos anos colloridos. Cada um de nós foi cuidar da sua vidinha. Aguilar se tornou um neurolingüista de sucesso, adiando para sempre a publicação do romance “O oitavo sentimento”; Wilmar, além de desenvolver um estilo poético inventivo, virou dono de editora; eu retornei à boa terra a fim de passar umas férias e acabei ficando de vez; já Vanderlei, pelo visto, deixou a brincadeira de lado e se apegou com unhas e dentes aos conselhos de Drummond, expostos em “A procura da poesia”, como atestam os poemas de Quarador.
O ilustre crítico modernista Tristão de Thayde ensinava que, antes de sentir “o espírito da obra e sua beleza interior”, o indivíduo não deveria emitir nenhum tipo de julgamento sobre a qualidade literária de outrem, sob pena de cometer uma grande injustiça ou, mesmo, de se revelar um crítico superficial.
Obviamente que segui à risca a recomendação dele e, com todo o prazer do mundo, dei início à leitura dos 26 poemas de Quarador, assim que Wilmar me enviou o livro, no final de 2003. De forma receptiva e prazerosa, li, reli até a exaustão os poemas. De início, ainda conforme recomendação de mestre Athayde, cheguei até a renunciar a todo e qualquer racionalismo, a fim de absorver melhor a obra.
Em seguida, após meses de leitura e releitura, durante os quais vivi em estreita comunhão com os textos poéticos, de modo a me aproximar ao máximo da verdade implícita em cada um deles, resolvi verbalizar as múltiplas impressões suscitadas por Quarador. E, realmente, havia valido a pena tanta dedicação. Através dos versos, tive a oportunidade de me reencontrar com um outro Vanderlei, agora sem dúvida um poeta maduro, experimentado, capaz de conciliar em sua produção original uma visão de mundo dialética, abarcando as diversas facetas da realidade, como a denúncia social, através de poemas em que a discriminação racial e a violência urbana aparecem consubstanciadas num discurso articulado; as viagens empreendidas ao mundo encantado da infância, em busca do resgate da família e dos valores do interior; o questionamento filosófico-existencial com temas caros à condição humana, como a angústia, a ausência, a saudade, a amizade e o amor; assim como a preocupação metalingüística, em que o próprio código poético acaba servindo de objeto para uma reflexão sobre o fazer poético. Dessa forma, ao estabelecer vínculos com o presente, sem, contudo, abrir mão do seu passado histórico-pessoal, Vanderlei vai elaborando uma poesia ágil, telúrica, mas também reflexiva e envolvente. Trata-se de uma lírica constituinte a serviço da vida.
Convém esclarecer que, nas primeiras obras (Visão de Adolescente comprova isso), o poeta de Alvinópolis praticou uma poesia voltada para as preocupações sociais, em que a denúncia e o panfletismo se transformaram numa marca viciosa, da qual Vanderlei demorou bastante para se ver livre. É claro que, pelo fato de ser negro e, portanto, de trazer na pele o estigma de todo um histórico de privação das prerrogativas básicas da cidadania, nosso poeta fez dessa condição a razão de ser da sua práxis poética. Mais do que um oportunismo literário, Vanderlei não dispunha mesmo de muitas opções, nesse primeiro momento. Prova disso é que, antes de estrear com um livro de poemas, ele já era conhecido como autor de um poema (de cujo título não me recordo agora) dedicado exclusivamente aos menores de rua de Beagá. Portanto, se ao contrário de Adão Ventura, nosso herói praticou uma poesia ingênua no início, isso se deve ao fato de ter mantido o primeiro contato com essa forma de expressão, que é o verso, muito cedo – ao contrário do autor de “A cor da pele”. Uma mera questão de contingência pessoal. Óbvio que, à maneira de Castro Alves, encontrei ecos libertários nas obras de ambos os poetas mineiros.
Mas eis que, num “fiat” criador, Vanderlei Lourenço dá a volta por cima com este livro de muito bom gosto e consistência técnica, conciliando de maneira talentosa as diversas nuances temáticas da sua nova fase poética e, ao mesmo tempo, preservando algo do engajamento social dos primeiros anos. Numa leitura livre, poetar é isto mesmo: “Tirar luz da fumaça”, como propôs Horácio em sua Arte Poética. E o nosso autor soube fazer isso muito bem numa obra madura e que precisa ser vista como o ponto alto desses quase vinte anos de caminhada literária.
Com efeito, a mim não restou outra alternativa senão me surpreender com os poemas de Quarador. E, inicialmente, procurei botar em prática a recomendação de mestre Athayde, deixando-me levar pela emoção das figuras, imagens e impressões, como que numa viagem emocionante ao que Minas tem de melhor: seus artistas, que, com talento e sensibilidade, conseguem transformar a rude e barroca factuidade em arte, em transcendência, de qualidade.
A seguir, como eu havia prometido a mim mesmo, procedi à elaboração de uma opinião justa e imparcial acerca de tudo que eu havia lido, presenciado e experimentado. Por isso, eis-me aqui cumprindo a minha palavra na forma de um depoimento despretensioso, mas, com certeza, sincero. Li e gostei. E não poderia ser diferente, na medida em que experimentei um caleidoscópio de sensações em versos belíssimos, como em: “sou negro/há os que me querem preto/a certidão de nascimento – pardo/há os que me enxergam africano/sem defender causa: negro...” (poema do eu); “dor perene acompanha/dia de finados...” (2 de novembro); “sei de pardais/que cruzam os ares/quando os amigos se vão...” (mística); “transcender a noite/para além de outras noites/além do breu/e da tempestade” (ausência); “de manhã lavar os sonhos/e quarar ao sol...” (agenda); “sertão de meus pais/ou carvão da memória/bica no quintal/ou rima d’água/menino que canta:/avô, avó – avoa...” (reminiscência); “ao amor que não veio/construo paráfrases e metáforas/sórdidas...”(silêncio); “os sonhos varam além/da criança/consomem a energia/abstrata/com que me debato/na ânsia do poema” (criação); “...quando menino fui fugitivo/no tempo da floração das uvas/e deixei minhas pegadas perdidas/no além” (floração); “não saber o que é saudade/até os sinos baterem...” (saudade); etc.
Como se depreende dos fragmentos acima, os poemas quase sempre curtos, caprichados e instigantes de Vanderlei Lourenço são o que a poesia mineira da atualidade tem de melhor para oferecer ao leitor mais exigente em matéria de boa poesia. De minha parte, portanto, vou continuar me deliciando com esses achados vanderleianos, tendo como fundo musical uma velha canção amiga, que teima em se repetir na minha memória baianeira: “Oh! Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais, oh! Minas Gerais...”


Texto retirado do site "famigerado.com":


Sobre Alvinópolis


José Afrânio Moreira Duarte, o amigo que viajou para a pátria espiritual no início do ano costumava dizer que sempre se impressionou com a quantidade de artistas que a nossa pesquena Alvinópolis tem oferecido ao mundo. O curioso é que isso acontece em diversas áreas do fazer cultural, seja na literatura, na música, artes plásticas... a cidade é um celeiro sem fim. Sem contar o povo acolhedor e simpático que ali reside.

Aqui vai uma pequena amostra de um dos maiores talentos alvinopolenses. Letra e música impecável. Às vezes, me pego cantando: "meu coração é o sol em meio à escuridão"...

É poesia pura. É Marcos Martino, Verde Terra, é Alvinópolis - Terra adorada!!!

Ouça aqui:
http://palcomp3.cifraclub.terra.com.br/dooutroladodoespelho/

Sobre "Os Trapalhões"

Registro de uma época muito especial.
Acho que até as crianças eram mais inocentes naquele tempo...

Sobre a idolatria

Madonna está dando o que falar no Brasil. E fazendo sucesso aos 50 anos de idade e mais de 20 de carreira. Os noticiários mostram pessoas que ficaram dias na fila, para conseguir ficar mais perto na hora do show. E produziram cenas, no mínimo, engraçadas, como essa ai do entrevistado que preferiu o show à permanência no emprego. E ganhou um tapa na cara:

É...


Diversos municípios mineiros ainda não sabem quem assumirá a cadeira de prefeito em
1º de janeiro, alguns deles em Minas Gerais. É que a nova disputa não se trava nas ruas, mas nos Tribunais, onde prefeitos eleitos correm contra o tempo para garantir a posse e, mais importante, manter-se no cargo pelos próximos quatro anos. São pessoas com problemas de abuso de poder econômico no período eleitoral, indeferimento de registro de candidatura por parte do TRE, entre outros. Tudo bem que aqueles que foram denunciados durante a campanha ainda não tenham sido julgados com sentença definitiva, pois há que se respeitar o devido processo legal, com direito ao contraditório e à ampla defesa, mas, indefinição por falta de registro de candidatura soa, no mínimo, esquisito. Ora, o prazo para o registro venceu em 05 de julho. Então, abria-se para impugnações e o prazo para que todos os processos fossem julgados venceu no dia 06 de setembro. Confirmado que o candidato estava impossibilitado de obter registro e, assim, não podendo concorrer, já que o registro de candidatura é condição básica para que se dispute eleições, o partido ainda teria tempo de indicar outro candidato. Ainda assim, contando com a lentidão da justiça e no excesso de recursos disponíveis, os impugnados seguiram candidatos e alguns acabaram sendo eleitos.

O caso que me ocorre para exemplo é o de Ipatinga. Ali o candidato vitorioso nas urnas teve suas contas de mandato anterior rejeitadas, com decisão definitiva pela justiça. E, mais uma vez, a legislação é clara: "São inelegíveis para qualquer cargo o candidato que tenha contas relativas ao exercício de cargos ou funções públicas rejeitadas por irregularidade insanável e por decisão irrecorrível do órgão competente, salvo se a questão houver sido ou estiver sendo submetida à apreciação do Poder Judiciário, para as eleições qe se realizarem nos cinco anos seguintes, contados a partir da data da decisão". (Lei complementar 64/90).

Então, se é assim, ele não deveria assumir.Corretíssimo.

O TRE impugnou a candidatura. Apresentaram recurso ao TSE, que devolveu a questão a nova análise do TRE, visando detectar se as irregularidades que provocaram a impugnação eram insanáveis. Eram. E manteve-se a decisão. Novo recurso ao TSE. Nova decisão mantendo-se a impugnação. Mas, enquanto a decisão do TSE não chegava, a Juiza da Comarca de Ipatinga proferiu decisão tornando o segundo colocado nas eleições inelegível e diplomou o prefeito eleito que encontrava-se, por lei, impedido de ser candidato. Sem contar que todo esse imbróglio começou porque essa mesma Juiza deferiu o registo inicial da candidatura, não obstante a mesma contrariar a legislação vigente.

Resta o direito a um último recurso que, pelo andar da carruagem, será, outra vez, negado pelas cortes mais altas do nosso país. E a cidade corre o risco de, em pouquíssimo tempo, voltar às urnas para escolher um novo prefeito. E haverá novos gastos de dinheiro público com o processo eleitoral. Tudo isso desnecessário, se a justiça fosse mais ágil na aplicação das normas legais.

De qualquer forma, há uma clara evolução nesses procedimentos, pois, hoje, assistimos à perda de cargo de candidatos eleitos e empossados em cargos no poder executivo e legislativo com uma frequência nunca antes vista "na história desse país". E esse fato, longe de ser justo, pela demora, configura um avanço considerável em relação ao que ocorria no passado recente. De qualquer forma, muitos ainda protelam as decisões finais de seus recursos, através de manobras jurídicas ou ajudados por juízes que protelam suas sentenças, com pedidos de vista desnecessários. E, quando resolvem cumprir a lei, o impugnado esté em fim de mandato. Ou seja, ficou impune.

"E CHOVEU UMA SEMANA E EU NÃO VI O MEU AMOR
O BARRO FICOU MARCADO AONDE A BOIADA PASSOU"

Pois é. A chuva caiu sobre nós... chove há uma semana. Dia e noite.

Primeiro, foi o Estado de Santa Catarina. Chuvas torrenciais. Desabrigados. Soterrados. Mortos... uma triste estatística que comoveu o país inteiro e fez com que as pessoas voltassem atenções e estendessem as mãos para as vítimas. Agora, conforme anunciado pela meteorologia, chegou até nós. E chegou com uma força descomunal, como já anunciara em setembro, quando uma tempestade de granizo causou prejuízos incalculáveis na região metropolitana. Destelhou casas, quebrou vidors e destruiu carros, alagou as ruas.

Agora, parece que as estatísticas falam em onze mortos e estragos em cerca de 71 municípios do Estado. São 150.000 pessoas afetadas e 117 casas destruídas no Estado. Até o momento. Hoje é "normal" os noticiários nos informarem sobre transbordamento de córregos, interdição de pontes, alagamento de ruas, corte nos fornecimentos de água e energia, moradores desalojados...

Parece que a natureza, tal qual os humanos em algum momento de suas vidas, busca o equilíbrio perdido. E não é de hoje que a humanidade a desequilibra: lança gases venenosos na atmosfera,desmata abusivamente, não se preocupa em reciclar o lixo, constrói em lugares proibidos, invadem áreas de reserva ambiental... a resposta está ai, na reação natural que está acontecendo. Ou será que ainda não reparamos que há muito deixamos de ter estações regulares, para lidar com inversões térmicas, excesso de chuvas e outras?

Ainda dá tempo de tomar juizo e ajudar a natureza a se reequilibrar, antes que seja tarde demais...

Sobre solidariedade

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o câncer será a doença que matará mais gente no mundo em 2010. Pesquisas mostram aumento de casos de cancer nos países mais pobres, que copiam o estilo de vida dos mais ricos: pessoas mais sedentárias e comendo alimentos mais gordurosos. É bom se cuidar.

O vídeo abaixo, comovente chamado à solidariedade, enfoca o trabalho da Fundação Mário Pena com os doentes de câncer. Me emocionou desde a primeira vez em que o vi, por isto está aqui:

Sobre falcões e pardais

O texto abaixo foi publicado na coluna de Déa Januzzi no Jornal Estado de Minas do dia 11/03/07. É de autoria do Advogado e Procurador do Estado do Paraná, Manoel José Lacerda Carneiro e eu tomei conhecimento dele através do Irmão Mesquita, Salesiano, amigo da Déa e meu amigo.

Acho que o impacto que o texto me causou tem duas causas: a primeira é a escrita como se fora uma fábula, repleta de significados para adultos. E eu, que alterno momentos curtindo uma infância que vai se fazendo tardia e a fase adulta em que busco a saída do labirinto da insensatez humana, só poderia me comover. A segunda deve-se ao fato de que, tanto à época em que o texto foi escrito, como nos dias de hoje, dividem-se as opiniões a respeito da redução da maioridade penal.

É oportuno lembrar que os falcões são predadores naturais dos pardais, aos quais costumam caçar para se alimentar.

Eis o texto:

SOBRE FALCÕES E PARDAIS

I

Num país longínquo havia dois tipos de indivíduos: os falcões e os pardais, cada um no seu poleiro, o dos primeiros de ouro, o dos segundos de palha. Um dia aconteceu uma desgraça: o filhote caçula de um dos pardais – chamado Zezinho – matou uma velha senhora falcão para lhe roubar uns grãos de milho. Revolta geral entre os falcões, porque a lei não permitia prender filhotes caçulas.
A comunidade dos falcões se reuniu, indignada e determinou: dali para a frente os caçulas poderiam ser presos. Eles mandavam porque eram falcões. Aquela gente vil representada pelos pardais não podia continuar daquele jeito. Tinham que aprender desde pequenos e não interessava ensinar nada a eles, que nada valiam a não ser o fato de que todos os anos tinham que deixar 27,5% do que ganhavam em favor dos falcões, já que estes não pagavam nada porque depositavam seus recursos junto a seus primos condores, bem grandes e fortes, em outras bandas.
E era assim porque tinha que ser. E os filhotes dos pardais que se lixassem, junto com seus pais. Os caçulas seriam presos dali para a frente. Foi feita a lei.

II

Mas tinha o Júnior, filho de um falcão governante muito importante, casada com uma socialite que era verdadeira locomotiva nas festas da comunidade. O Júnior sempre foi um problema: gostava de uns embalos, usava um tipo de bolinha que o deixava doidão e num estado como tal o garotão provocou um acidente: matou uma pardal velhinha quando voando tresloucadamente a derrubou do alto de uma árvore. A pobre senhora se esborrachou no chão e o Júnior completamente atordoado fugiu para sua casa lá no poleiro de ouro dos falcões.

III

Ocorre que já tinha a “lei dos caçulas”: podiam e deviam ser presos. O precedente “Zezinho” servia como paradigma. Os pardais pressionavam, ameaçando não mais recolher os 27,5% de impostos; mas os falcões rebatiam com seus portentosos bicos aquilinos: os pardais seriam trucidados se o Júnior fosse preso. Madame falcão junto com seu poderoso marido dizia: - O Júnior, não! Ele não pode ser preso. É apenas um menino problemático. Não é como aquele desqualificado do Zezinho, que nunca foi para a escola e fica vagabundeando pela rua. O Júnior, não! Ele está matriculado na melhor escola. Verdade que não passou de ano, mas isso foi em razão daquela viagem de três meses que ele fez junto com os priminhos filhos de nossos parentes que foram rever Paris. O Júnior, não!!!!

IV

Surgiu o impasse. Os pardais querendo prender o Júnior dizendo que a lei era igual para ele e o Zezinho Os falcões dizendo que não, que para o Júnior não podia haver prisão porque ele tinha todas as chances de se recuperar e não podia ter o destino do outro, um pobretão que somente as grades podiam afastar da comunidade.
A pressão foi grande, tão grande que madame falcão e as colegas do joguinho de “bridge” começaram a chorar. Choraram tanto que as lágrimas evaporaram e chegando aos céus formaram nuvens negras que resultaram num toró de lavar o mundo. E quando o aguaceiro caiu pegou os falcões todos reunidos para tentar salvar o Júnior. E de repente a água começou a mudar as coisas. Os falcões que tinham o bico encurvado e a pele prateada (e com isso intimidavam tanto os pardais) começaram a mudar de forma e de colorido. O bico ficou comprido e fininho; as penas ficaram pretas, sem brilho. Em resumo: os falcões não eram falcões na verdade, eram apenas corvos disfarçados.

V

Aí a comunidade dos pardais entendeu tudo. Entendeu porque o Zezinho tinha que ser preso e o Júnior não, embora ambos caçulas fossem. Entendeu que corvo não come corvo. Mas também entendeu que não existia falcão com bico poderoso e brilho falso: era apenas uma rapinagem disfarçada. Foi o começo da mudança em muita coisa.

MORAL DA HISTÓRIA: Legislar para os outros é fácil. Duro é encarar a realidade quando ela nos atinge. Ou, como disse Millôr:
"- Se a lei é igual para todos, para alguns ela é mais igual"...

O texto abaixo, escrevi para o jornal "O Pontilhão", da cidade de Dom Silvério, e foi publicado em sua última edição:

A ESPIRITUALIDADE NO CINEMA

Estamos em dezembro, o mês que, por motivos óbvios, evoca em nós, os mais sinceros sentimentos de solidariedade, de religiosidade e de amor ao próximo. A arte não poderia ficar atrás na interpretação de todos esses sentimentos e é assim que o cinema tem oferecido belíssimas obras que retratam a espiritualidade presente no íntimo do ser humano. Muitas dessas obras se converteram em sucesso de crítica e de público e, são consideradas preciosidades da sétima arte, como veremos nesse despretensioso artigo.

Veio-me a idéia de falar sobre esse tema, no último final de semana, quando eu assistia ao segundo filme da saga “As crônicas de Nárnia”, adaptação da série de livros que o escritor cristão C. S. Lewis escreveu, no intuito de oferecer conceitos de cristianismo às crianças. No primeiro filme, “O leão, a feiticeira e o guarda-roupa”, em analogia à história de Jesus, o leão, Aslam, depois de sofrer uma traiçao, entrega-se à humilhação, tortura e morte, para salvar os seus súditos. Nesse segundo episódio, “O príncipe Caspian”, tratando, de novo da fé em um Deus invisível, três das crianças não conseguem enxergar o leão. Só quando crêem que uma delas o está vendo é que, finalmente, passam a enxergá-lo.

Além desses fatos, tratados aqui sem maior aprofundamento, justamente para que o leitor possa assistir a essa fábula e tirar suas próprias conclusões, chamou-me a atenção um outro fato interessantíssimo. As personagens principais são quatro crianças que foram reis e rainhas do passado de Nárnia e que são levados de volta. Já no início do filme ficamos sabendo que se passaram mil anos desde que que eles estiveram lá pela última vez, enquanto, em nosso plano, se passou apenas um ano. Ou seja, por trás da fábula de reis, rainhas, feiticeiras, animais falantes, criaturas mitológicas, etc., temos um universo paralelo ao nosso, onde a história se desenrola, na melhor tradição das crenças da existência de vida em outros planos do universo. Engana-se quem pensa tratar-se, apenas, de uma história para crianças...

Filmes com temática cristã sempre fizeram sucesso nas telas. Voltando no tempo, vamos encontrar “Ben Hur”, um clássico, ganhador de onze Oscars, dentre as 12 indicações que obteve em 1959. Além de ser recordista do Oscar (só muitos anos depois, “Titanic”, em 1997 e “O Senhor dos anéis – O retorno do Rei”, em 2003, conseguiram o mesmo número de estatuetas), é um dos mais emocionantes filmes de todos os tempos. Fácil de ver, apesar de ter mais de três horas de duração, conta a históra de Judah Ben Hur, um rico comerciante de Jerusalém, no início do século I. Quando seu velho amigo Messala é escolhido pelo governador para comandar uma das legiões romanas, fica muito feliz, mas, com o passar do tempo, acabam por se separarem, devido a algumas divergências. Acontece que, durante uma parada de boas vindas, uma telha do telhado de sua casa cai, quase acertando o rei e, em consequência, seu antigo amigo, mesmo sabendo-o inocente, manda-o para a escravidão, condenando, ainda, sua mãe e irmã a passar o resto de suas vidas na prisão. Já dá para imaginar que são três horas de tirar o fôlego, não é? E não vamos adiantar mais nada, apenas uma das cenas do filme em que ele recebe uma caneca de água das mãos de ninguém menos do que o próprio Jesus. Algumas passagens fazem a gente arrepiar, outras, fazem chorar comovido...

Ainda falando de clássicos, há um filme de 1951, chamado “Quo Vadis?”. Traduzido, significa “Aonde vais?” e é a pergunta que teria sido dirigida pelo apóstolo Pedro a Jesus, quando este lhe apareceu, no momento em que Pedro, havendo deixado a prisão, ia fugir de Roma.

O filme conta a história de um Comandante Romano que se apaixona por uma cristã e passa ser perseguido pelo Imperador Nero. Uma superprodução para a época, que chegou a receber oito indicações para o Oscar. Este filme marcou a estréia da atriz Sophia Loren nos cinemas.

Os filmes mais recentes com temática espiritualista, estão entre os maiores sucessos de público dos cinemas. Geralmente abordam os princípios da doutrina espírita e merecerão um artigo à parte, caso de “Ghost”, “O sexto sentido”, “”Os outros”, “Amor além da vida”, etc. Voltaremos ao tema para escrever sobre eles.

Enquanto isso, vamos dedicar o parágrafo final para falar de um outro fenômeno, desta vez, um filme nacional. Trata-se de “Bezerra de Menezes – o diário de um espírito”. O filme conta a história de Adolfo Bezerra de Menezes, criado no nordeste por sua família católica, que se muda para o Rio de janeiro para estudar medicina e acaba tornando-se médico de renome na época do império. Pois bem, ele acaba se tornando espírita, o que era um escândalo naquele tempo. Infelizmente, do ponto de vista cinematográfico, o filme é fraco e acaba não fazendo juz à trajetória do biografado, que passou à história como o “medico dos pobres”. O curioso e que esse filme termina o ano como um dos grandes sucessos entre os filmes nacionais lançados em 2008, quer pela sua divulgação, quer pela sua temática espírita, assunto que desperta um grande interesse na população brasileira. É por isso que, no próximo artigo, abordaremos os filmes com essa temática.

Assista ao trailler do filme:

Dezembro. A gente sempre usa essa época do ano para fazer um inventário de tudo aquilo que o ano nos trouxe e, por outro lado, daquilo que ele nos tirou. Para mim, 2008 será sempre o ano em que o meu melhor amigo fez a sua viagem de volta para casa.

O curioso desse "inventário" é que a gente sabe que dói: a saudade, a falta dos conselhos, das conversas sobre o plano espiritual, onde, certamente nos encontraremos um dia, estão em primeiro plano. Mas, logo em seguida, não obstante a dor, um misto de aceitação e resignação.

Isso é um bom sinal. A gente está aprendendo a entender que nada é para sempre. Principalmente a separação...

Amigo Natanael, a primeira postagem do meu blog é para você. Deus lhe proteja, sempre!

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