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Moça prendada


F. estava pronta. Exímia cozinheira, lavava e passava como ninguém. E era educada como ela só. O seu gosto pela simplicidade e a paixão pelas crianças completavam os atributos a fazer dela uma dona de casa exemplar. Não fosse por um detalhe. Ou dois. O primeiro é que não apareciam pretendentes. O segundo era o fato de ser a sétima filha em uma família de sete mulheres, o que faria dela uma bruxa, segundo a crença popular.

A mãe tecia, cuidadosamente o seu futuro enxoval. Muita seda, muita renda, tudo no maior capricho. Capricho reservado aos caçulas a quem muito se quer bem. F. Tinha o corpo esguio, muito alta para os padrões femininos, o pai dizia. Tinha um olhar profundo, inquisidor. E era assim que encarava os rapazes que, vez ou outra apareciam a fazer-lhe a corte. E, não se sabe se, em decorrência desse olhar, não voltavam para uma segunda visita. E assim, os anos de F. foram passando. Já não era tão jovem, diziam os vizinhos. Será que vai ficar para titia? Questionavam as irmãs, todas já casadas.

O fato é que F. já estava titia. E era a alegria dos sobrinhos e sobrinhas nos almoços de família dos fins de semana. Prendada que só, tinha sempre um mimo para uns e outros. Puxava as brincadeiras da trupe e apresentava engraçados teatros de bonecos. Os pequenos riam a mais não poder. E a tia F. ria junto, de satisfação. Não sabia o que era melancolia. Nunca conhecera a tristeza. Só fazia esperar. Mais dia, menos dia, apareceria o moço que pediria a sua mão. Foi para isso que se preparou.

Mas, a mãe sofria. O que havia de errado com a filha? Seria, talvez, a sina de ter sido a sétima entre as sete que havia parido? Viraria uma bruxa a pobrezinha? Mas F. mais parecia uma fada. E, para isso a mãe tivera tanto cuidado ao educá-la. Prendando-a de tantos atributos, evitava comprovar a crença tão difundida. Não seria F. a confirmar destino tão terrível. Qualquer dia, de qualquer parte, cairia aos pés da filha o genro que há tanto esperava.

Cuidados de genitora, que, às vezes se esquece de que desejo de mãe tem a mesma força de uma maldição materna. E tanto o desejou que o fato aconteceu. Deu-se em um meio de semana qualquer, um desses dias comuns que parece que nada vai acontecer. Os vizinhos contrataram alguns homens para realizar uma reforma em casa e, naquele dia, pintavam, justamente a parede do segundo andar, na divisa da casa de F. Um passo em falso de um deles, fez com que caisse sob o telhado e de lá, esborrachou-se sob a mesa da cozinha. A mãe quedou muda e não houve tempo para apresentações já que o homem, ao olhar assustado das duas, evaporou-se pela porta da frente.

F. não percebeu, mas a mãe enxergou a cara do destino fazendo cair do céu, o genro esperado. Mas, como dizem, uma oportunidade perdida é uma oportunidade que não volta. A menos que seja para atender desejo de mãe. Certamente, por isso, o mesmo fato, repetiu-se no meio da semana seguinte. Outro homem, outro escorregão. Sorte que a mesa nova doada pelo vizinho, ainda não havia sido entregue pela loja. E, de novo, não houve tempo de perguntar se o homem se machucara. Foi o tempo de piscar e ele se fora.

A mãe lamentou. F. nem ligou. E continua lá: lava, passa, cozinha como ninguém. Moça de muitas prendas. Uma fada...

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