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HISTÓRIAS DO MENINO EZEQUIEL I

Ninguém podia com aquele menino Ezequiel. Era o xodó da família, desconfio que era porque conseguia levar todo mundo nas lábias, vendendo hstórias falsas como se fossem casos acontecidos. Era o sexto de uma família de onze irmãos. Tamanho de família que não se faz hoje em dia. Cinco irmãos, meninos homem e seis meninas criados todos na roça , no povoado do Batistinha, assim batizado por causa de um antepassado seu, homem que parecia gato, porque seis vidas, no mínimo ele tinha. E, de cada uma o Zequinha dava notícia. Menino danado. Mas tinha um bom coração e, quando não podia fazer nada para ajudar alguém, desfiava uma reza que só ele conhecia, contristado, sentado no velho pilão que ficava na cozinha de casa. “Que ta fazendo aí, Zequiel?”, mãe perguntava, sem esperar resposta, porque, nessas horas, o menino só tinha pensamento para suas orações.

Muito tempo depois de falecido, a geração nova que substituiu aquela do seu tempo, ainda repetia os casos que nasceram da sua cabeça. Cabeça prodigiosa, a professora explicaria, anos depois, para a meninada, orgulhosa do conterrâneo que entrou pra história.

E, haja folha de papel para caber tanta anedota, tanta peripécia. Diz o povo do Batistinha que, já de pequeno, Zequinha conseguira uma façanha. Foi no dia em que os meninos se ajuntaram depois do futebol para exibir vantagem. Zé de Toco (que tinha esse nome, não por causa de apelido do pai, como era costume, mas porque foi se exibir um dia apostando pulo num velho toco do quintal da escola e caiu sentado em cima dele, ficando o resto da semana no hospital e o resto do mês em casa com vergonha de por os olhos pra fora da janela) começou a repetir a lenga lenga de que, nas tardes de sexta-feira, quebrava um galho de árvore e sentava em cima, chamando o capeta três vezes de forma normal e três vezes de trás pra frente. E que, no final do chamado, o galho começava a se mover, aumentando de velocidade, levando-o até onde estavam os seus sentidos. Finalzinho de tarde, meninada cansada do jogo, começava a arregalar os olhos de medo de enfrentar a escuridão que se aproximava no caminho de casa. Era sempre a mesma história, contada com graça e gosto de medar os companheiros.

Foi nesse dia que o Zequinha, que já não suportava mais o desespero de todo mundo querendo chegar em casa antes de escurecer de tudo, resolveu chamar o Zé para um teste. “Ô Zé. Hoje é sexta-feira, uai. Traz a galha que eu vou sentar nela”. E o Toco, assustado, com medo de ser desmascarado, contou que não era assim, que só acontecia quando ele estava sozinho. Mas a euforia já tomava conta e não teve outro jeito. Lalado trouxe um galho, já meio seco, de jacarandá, que estava jogado atrás do gol e o Zequinha sentou. Esperaram e nada. E a noite já ia caindo junto com a impaciência quando resolveram ir embora. E o Zequinha nem de criar alarme para chamar o demo. Pelo contrário. Não chamou, que não era homem de chamar diabo. Mas rezava aquelas rezas que, descobriu-se muito tempo depois, tinha um incrível poder de resolver os problemas dos outros. Menos os problemas do menino Zequinha, conforme vamos contar lá na frente. E, reza daqui, reza dali, o pedaço de jacarandá começou a se mexer, empinou para a frente como se fora decolar e rodopiou ao redor dos companheiros.

O susto pôs vento nas pernas dos meninos e até Zé de Toco, que assegurava a possibilidade do impossível, viu-se compelido a correr. Botava os bofes pra fora o coitado e, dizem que, em casa, de noite, não conseguiu dormir, com os olhos estatelados no teto forrado do quarto da sua casa.

E nunca mais repetiu a história, inventada como era opinião geral, de que o diabo puxava os galhos de árvore que ele quebrava para se sentar.

4 comentários:

Querido Vander, obrigada pelos parabéns, pela força!

É uma graça a história do Zequiel e do Toco. Mas eu acho que vc podia reunir esses contos e mandar para algum concurso literário. Mas para fazer isso tem que parar de publicar no blog, porque eles sempre pedem que sejam inéditos.

Todo ano, meados de março, abrem as inscrições para o Prêmio SESC de Literatura, que tem as categorias contos e romance. Vai lá! Esse ano eu me inscrevi... E seja o que Deus quiser!

Beijos!

10:13 AM  

Olá amigo Vanderlei.
Concordo com a Valéria acima.
Os contos estão ótimos.
Mas também acho que se encaixaria perfeitamente no Alvinews.rs rs.
Abração e parabéns.

12:07 PM  

Olá Vander. Muito bacana seu blog. Tenha certeza, que estarei acompanhando.
Se quiser, me adicione no msn para que possamos trocar umas idéias. (leonardorperes@hotmail.com ).
Abraços.

10:21 AM  

OLÁ VANDERLEI
EU GOSTEI ACHEI MUITO INTERESSANTE A HISTÓRIA DO MENINO
EZEQUIEL...
FIQUEI FELIZ DE RECEBER O SEU BLOG
VOU CONTINUAR ACOMPANHANDO
MUITO BOM E COM MUITAS DICAS E
COISAS LEGAIS.
ABRAÇOS
NEUSA

7:25 PM  

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