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Veio-me à mente, hoje, uma das muitas histórias que minha mãe contava quando eu era criança. Era uma maneira que ela encontrava de nos educar, ilustrando a lição que desejava passar, com algum "causo" ou história com um fundo moral e edificante. O que acho interessante é que os meus pais mal estudaram. Pai deve ter parado na segunda série e mãe, salvo engano, foi um pouco mais longe, estudando até a terceira série do ensino fundamental. Curioso que os dois foram os primeiros incentivadores que eu tive, a sedimentar o meu interesse pela literatura. Sem saber, contribuíram para melhorar o meu vocabulário e, não é que a formação intelectual colabora para o aprimoramento moral?

Pois bem. Aquelas histórias ajudaram a construir o meu caráter, me abriram as portas do mundo mágico da leitura e me prepararam para enfrentar a vida. Essa que me ocorreu hoje, fala sobre desapego, algo não muito fácil de ser cultivado nesse mundo materialista, onde o ter supera por largo percentual o ser. É a história de uma mulher que cultivava uma grande horta no quintal e, sempre que algum de seus vizinhos lhe pedia algumas folhas de cebola, corria a escolher as folhas secas, que já não podiam mais ser aproveitadas e deveriam ser descartadas. Trazia um molho que entregava sorridente a quem esperava. Isso se repetiu por vários anos, até o dia em que a morte, passando por ali, resolveu que estava na hora de levá-la.

Assim que abriu os olhos do outro lado da vida, ela percebeu que uma escada balançava à sua frente. Na verdade, era a escada que a levaria ao céu. Mas percebeu um detalhe: os degraus foram trançados com as folhas de cebola que ela distribuíra ao longo da sua vida. Compreendendo a situação, agarrou-se ao primeiro degrau e começou a sua escalada para o paraiso. Ia subindo, assustada, percebendo a fragilidade das folhas que a sustentavam. Lembrou-se de cada um dos rostos frustrados a quem distribuira cebolinha da sua horta. E lamentou-se não poder, naquele momento, fazer diferente. Subira até a metade, quando as folhas começaram a ruir e, soltando-se, caiu no inferno que se encontrava abaixo.

Foi ai que percebeu que o paraiso é uma conquista diária, que ninguém pode tirar-nos, exceto nós mesmos, dependendo das atitudes que adotamos em relação ao nosso próximo. E que a maior dor que pode o ser humano enfrentar, não está no sofrimento físico, mas, sim, no remorso e na consciência culpada.

6 comentários:

Vanderhugo,

Sabedoria é um dom, está na alma...
Linda história, vou contar à minha Bebela, agradeça sua mãe...

Você é especial.


Um beijo carinhoso,

Solange

http://eucaliptosnajanela.blogspot.com

8:35 PM  

Vander, muito bacana essa história cheia de sabedoria. O mais interessante de tudo, é que elas são atemporais, pois expressam a essência humana, independentemente de qualquer coisa. Grande abraço.

9:05 PM  

Grande Vanderlei,

nada que plantamos ficamos sem colher, as vezes até não entendemos o porque fazer isso ou aquilo, e ai depois percebemos que não foi sem sentido.

abç

LH

9:55 AM  

Vander que história cativante, serve-nos de lição. E que devemos nos doar e fazer com bondade as coisas para o próximo e não agir de má fé. Livre arbitrio existe, e nos cabe sempre fazer as escolhas certas. Sobre a sabedoria é algo que se conquista e nem sempre se faz em escolas. Seus pais estam de parabéns por tê-lo incentivado a estudar e torna-se hoje um belo escritor.
Bj!

11:26 AM  

Olá Vanderlei, muita sábia a história da sua mãe.
A consciência tranquila é o melhor remédio para aproveitar a vida.
Abraço.

12:26 PM  

Legal, a história, por falar de generosidade, que a gente deve praticar todos os dias. Mas não gosto das idéias de culpa e consciência pesada, porque constantemente são usadas pelos outros para manipular a gente. A culpa é a essência da ideologia judaico-cristã.

Tenho certeza de que os seus pais contavam essa hístória passando longe dessa "viagem" que eu fiz agora.

E está na capa do Jornal Rascunho, de Curitiba, nesse mês de Maio: "A literatura faz cidadãos. É uma forma de a gente se civilizar. Não conheço nada mais importante, que nos melhore como seres humanos, do que ler livros".

Lívia Garcia-Roza no Paiol Literário.

É exatamente o que vc diz no post.

Beijos!

3:56 PM  

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