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Sobre desafios da educação

“Censo aponta formação deficiente de professores.” É com essa chamada que o jornal “Folha de São Paulo” de hoje anuncia matéria sobre os dados do Censo da Educação Básica, realizado pelo Inep, Instituto de Pesquisas ligado ao Ministério da Educação, que trata da falta de qualificação de parcela considerável dos professores que, em sala de aula, são responsáveis pela educação formal de milhares de crianças e adolescentes brasileiros.

Esse deve ser, em minha modesta avaliação, apenas mais um dos instrumentos de que o governo dispõe, apontando a falência do nosso sistema de ensino. Professores despreparados fingem que ensinam, enquanto alunos desmotivados já nem perdem tempo insinuando que aprendem alguma coisa. É lamentável.


Há algum tempo, fui protagonista de um projeto que visava preparar alunos do curso noturno, da oitava série de uma escola pública da rua onde moro, para inserção no mercado de trabalho, trabalhando conteúdos de provas de concursos. Nenhum dos envolvidos conseguiu elaborar um currículo que os apresentasse ao mercado de trabalho. Havia aluno com dificuldade em grafar, de forma correta, o próprio nome. E olha que estamos falando de adolescentes da oitava série do ensino fundamental!

Carentes de todo tipo de incentivo, saíam da sala a todo o instante, para fumar ou conversar com os amigos. Tal conduta parecia ser uma prática disseminada no ambiente escolar, tanto que uma das professoras da referida escola, duvidando de que pudéssemos alcançar algum resultado, relatou que as suas expectativas estavam voltadas para a aposentadoria a sair em breve e que, então, iria “esquecer que esses alunos, um dia, cruzaram meu caminho.”

Por esse breve relato, dá para perceber que o Projeto não pode ser levado adiante. Até porque trabalhávamos com conteúdos dos quais os participantes tinham grande deficiência. Tinham dificuldade de ler e, quando o faziam, não alcançavam o entendimento da matéria. A escrita era sofrível, chegando ao cúmulo de iniciar uma palavra com dois s. E, não obstante o interesse demonstrado por um pequeno grupo, a maioria carecia de motivação.

É essa a motivação que falta, igualmente, aos mestres que, em sala de aula, não conseguem transmitir o básico aos estudantes. As alegações vão desde o baixo salário até a ausência de condições para o desenvolvimento de um programa que satisfaça às necessidades de aprendizado.

Pergunto-me se foi assim desde o sempre ou se a falta de qualidade da educação é um privilégio de nossos dias. Lembro-me de Donana, minha primeira professora, na Escola Estadual Duque de Caxias, na zona rural, que, carteira a carteira, incentivava cada um de nós ao exercício do pensar e à prática da escrita, ajudando a desenhar as letras, sabendo que, da sua classe sairiam alunos formalmente bem treinados e, moralmente preparados para enfrentar a vida. Lembro-me de uma das últimas visitas que lhe fiz em Alvinópolis e da paixão com que falava da profissão, embora, fazendeira que era, não tinha maiores necessidades que a obrigasse ao exercício do magistério.

A qualidade do ensino parece deteriorar-se, em primeiro lugar, pela falta de compromisso profissional de muitos. Em segundo lugar porque o professor, em sala de aula, acaba ficando refém da vontade dos alunos, nestes tempos em que a violência impera. Haja vista o número crescente das queixas registradas por professores em delegacias de polícia. E aqui não estamos considerando a maioria das agressões que não passam dos portões escolares. Questões financeiras e a falta de investimento na capacitação continuada dos profissionais da educação ampliam as dificuldades. E, para completar, a ausência de uma estrutura familiar sólida consolida o caos.

Rubem Alves, no seu texto “Gaiolas e asas” observa:

“sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e as domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.

Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.”

Diante dessa observação, verifico o quanto de privilégio recebi pela alegria que me proporcionava sair para ir à escola, bem como o sorriso da mestra, marcado para sempre na lembrança, do seu amor pelo ensino e do seu prazer em ensinar. Mas, como tudo aquilo que recebemos neste mundo não deve enclausurar-se em nós mesmos, pergunto-me: qual a contribuição efetiva podemos oferecer para incentivar a capacidade criativa de cada aluno, dando-lhe suporte para desenvolver a arte do pensar? E se eles ainda não aprenderam a querer, o que fazer para que enxerguem na mágica do aprendizado o caminho para traçar o seu futuro?

É... sinceramente... eu não sei.

4 comentários:

Engraçado. A humanidade passou por muitas fases. Em algumas, parecia que haveria um refinamento, uma opção pela sensibilidade, pelo humanismo. Mas parece que a história segue como uma corrente alternada, com diversos fluxos e refluxos. As vezes é essa a impressão que temos. Noutras vezes, chegamos a pensar que a tribo da sensibilidade, da qual fala Saramago, sempre foi muito pequena, ínfima parte da humanidade. Até no tempo dos grandes filósofos, parecia haver refinamento, pois as histórias eram contadas a partir do que acontecia entre os sábios, mas a história do povo comum era omitida, afinal, a grande maioria estava ocupada em comer, beber, copular e sobeviver. Pobres professores que tem de enfrentar os tigres. Pobres dos artistas, que tem de aniquilar-se para sobreviver. O ser humano, no fundo, ainda vive tentando domesticar o animal pré histórico que habita o seu íntimo.

7:06 PM  

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

3:04 PM  

Vander, a crise é severa até mesmo nas escolas particulares - guardadas as proporções. Veja o personagem pit-boy da novela de Glória Perez, que desrespeita a professora e é apoiado pelo pai.

O seu relato é triste e só me consola saber que, mesmo em meio a este cenário geral, há mestres e escolas que conseguem de alguma forma resultados positivos. São casos isolados, mas existem.

Um beijo,

4:58 PM  

Voltei, gostei do que andei lendo e estou digerindo algumas coisas.

Seu blog continua legal!!

10:18 PM  

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