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Dizem que o tempo não existe. É apenas uma abstração criada para dar algum sentido à vida. Pois, em "O curioso caso de Benjamin Button" essa "abstração" foi elevada à condição de personagem principal de um filme. É ela quem dita o ritmo do filme, onde um homem desafia as leis da física, nascendo velho para ir rejuvenescendo com o passar do tempo.

Eu admiro a fonte de criatividade humana. Há histórias que a gente lê e gostaria de ter escrito. Eu admiro F. Scott Fitzgerald, o autor do conto que serviu de inspiração para que fosse contada essa história que, no final das contas, a gente tem dificuldade em classificar. É uma história de amor? É uma história sobre encontros e desencontros, ou é, apenas, a história de um tempo passando inclemente, seja para frente ou, brincando conosco e fazendo o caminho inverso da literalidade à qual estamos acostumados?

Há algum tempo, em clip da música "Return to innocense", o grupo musical "Enigma" tratava desse tema, de uma forma muito bonita e sensível, com o tempo correndo ao contrário, a partir do momento da morte da personagem. Mas, á diferença é que, ali, a vida anda para trás, ao contrário, como naquele texto usado em um comercial da década de 90, se não me engano, para uma peça publicitária, onde Chico Anysio falava sobre nascer aos 80 anos e ir rejuvenescendo com o passar do tempo. Tudo redondinho. Poético e bonito.

O filme vem colocar as coisas em seu devido lugar. É que, no mundo real, as coisas são bonitas e poéticas a seu tempo e são, para nossa tristeza, finitas. E como o tempo é curto para aquilo que queremos perpetuar, como situações, momentos e pessoas especiais. Que o diga Benjamin, que, ainda na velhice, vai descobrir que a vida é uma colcha de retalhos, tecida de aprendizados, mas sobretudo, com a dor da perda. E que essa colcha é feita, sobretudo, daquilo que a gente não teve tempo ou oportunidade de fazer.

Mas a vida é feita, principalmente, de amigos. E, lá estão muitos amigos. Inclusive um capitão de navio, um dos elementos importados de outro filme igualmente tocante e sensível, "Forrest Gump - o contador de histórias". Mas o elemento principal é mesmo, o tempo: Benjamin nasceu ao fim da primeira guerra mundial, em circunstâncias "anormais", era um bom dia para nascer...

a verdade é que, antes do seu nascimento, o tempo já havia se intrometido a personagem principal. Eis que, no princípio era o relógio. E essa raridade de relógio andava para trás, para que os jovens que haviam perdido suas vidas na guerra pudessem voltar para os campos de batalha e, dos campos de batalha, para casa...

não trouxe nenhum jovem de volta, mas influenciou decisivamente a vida do menino que nasceu idoso. O menino interpretado por Brad Pitt, cada vez mais jovem, graças a um trabalho de arte e a uma duração que, se por um lado parece ter deixado o filme meio longo, por outro, propiciou que as mudanças ocorressem na medida certa, para ficar mais convincente. Assim como é convincente a aceitação, por parte da mulher que ele amava, de que seria impossível continuarem juntos.

"O curioso caso de Benjamin Button" é uma prova de que o tempo é cruel. Mesmo quando procura-se inverter a sua lógica de funcionamento. O alento vem do fato de que, por mais que tente, ele não consegue superar o amor. Ainda que consiga separar, provisoriamente, as pessoas que se amam. E, parece vingar-se desse fato, quando assistimos, ao final, a inversão daquilo que ocorre no início: antes era Dayse (Kate Blanchett), criança, e Benjamin, idoso. Ao fim é Benjamin, criança e a sua amada, idosa, depois de terem vivido um grande romance.

De resto, o tempo é, realmente, o senhor da história, que só acaba depois que é trocado o relógio da estação, aquele que, no início da fábula, andava para trás.

A lição que fica é de que, sob qualquer ponto em que se analise a vida, o eclesiastes tem razão: há um tempo para todas as coisas debaixo do sol...

e, se é assim, melhor é que andemos sempre para frente. Nunca o contrário.

6 comentários:

Bem feito, bem dirigido e visualmente bonito, "Benjamin" concorre a treze oscar. Pena não ser favorito a melhor filme, mas, certamente, ganhará na maioria das categorias em que concorre. Torço para que seja premiado pela direção e pela atriz coadjuvante, a atriz Taraji P. Henson, que fez a mãe de Benjamin.

10:06 PM  

Eu vi o filme achei fantástico, como o tempo é o enredo principal da história e Brad Pitt está muito bem no papel de Benjamim. A maquiagem então, nem se fala.
Bj!

9:55 AM  

Pois é, Vanderlei. Mas já que o carnaval tá chegando, tem sempre aquela marchinha recorrente: " recordar é viver". E tem a lanterna de proa de Roberto de Campos, com a metáfora da experiência como uma lanterna que ilumina para trás. Em contra-partida, os slogans políticos e as mensagens positivistas dos neuroliguísticas que dizem que "Pra frente é que se anda".

5:19 PM  

Oi, Vander!

Assisti ao filme e me impressionaram a imagem do relógio que anda para trás e ele morrer bebê, velhinho por dentro.

Minha mãe está doente, um quadro não reversível, e percebo que de certo modo ela se tornou um bebê também.

O carinho e os cuidados que faltaram lá atrás, quem sabe, estão sendo recebidos agora. Melhor se fosse diferente, mas os seres humanos funcionam assim, às vezes.

Um beijo, um ótimo retorno do Carnaval.

6:38 PM  

Lanterna de popa

4:24 PM  

Lanterna de popa

5:03 PM  

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