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Sobre José Régio

Fazem alguns anos que ouvi, pela primeira vez, sobre josé Régio. Eu buscava saber quem era o autor do poema "Cântico Negro" que Maria Bethânia interpretava no disco "Meus momentos", gravado no ano de 1982. Descobri um escritor português, natural da Vila do Conde, que nascera em 1901 e faleceu em 1969. Foi o principal ideólogo do segundo modernismo português, tendo sido um dos fundadores e colaborador assíduo da revista "Presença". Participou, ativamente, da vida pública e, como escritor, dedicou-se ao romance, ensaio, teatro e poesia, com obras obras que exploram o conflito entre o homem e Deus, o indivíduo e a sociedade.

José Régio estreou em 1926 com o volume "Poemas de Deus e do diabo." Em 1970 recebeu o Prêmio Nacional de Poesia, pelo conjunto de sua obra poética.

Eis o poema que me levou a esse grande poeta do modernismo português:

CÂNTICO NEGRO

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

1 comentários:

...Taí Vander... esse eu não conhecia...gostei muito, vou pesquisar mais sobre ele.

2:34 PM  

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