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Sobre falcões e pardais

O texto abaixo foi publicado na coluna de Déa Januzzi no Jornal Estado de Minas do dia 11/03/07. É de autoria do Advogado e Procurador do Estado do Paraná, Manoel José Lacerda Carneiro e eu tomei conhecimento dele através do Irmão Mesquita, Salesiano, amigo da Déa e meu amigo.

Acho que o impacto que o texto me causou tem duas causas: a primeira é a escrita como se fora uma fábula, repleta de significados para adultos. E eu, que alterno momentos curtindo uma infância que vai se fazendo tardia e a fase adulta em que busco a saída do labirinto da insensatez humana, só poderia me comover. A segunda deve-se ao fato de que, tanto à época em que o texto foi escrito, como nos dias de hoje, dividem-se as opiniões a respeito da redução da maioridade penal.

É oportuno lembrar que os falcões são predadores naturais dos pardais, aos quais costumam caçar para se alimentar.

Eis o texto:

SOBRE FALCÕES E PARDAIS

I

Num país longínquo havia dois tipos de indivíduos: os falcões e os pardais, cada um no seu poleiro, o dos primeiros de ouro, o dos segundos de palha. Um dia aconteceu uma desgraça: o filhote caçula de um dos pardais – chamado Zezinho – matou uma velha senhora falcão para lhe roubar uns grãos de milho. Revolta geral entre os falcões, porque a lei não permitia prender filhotes caçulas.
A comunidade dos falcões se reuniu, indignada e determinou: dali para a frente os caçulas poderiam ser presos. Eles mandavam porque eram falcões. Aquela gente vil representada pelos pardais não podia continuar daquele jeito. Tinham que aprender desde pequenos e não interessava ensinar nada a eles, que nada valiam a não ser o fato de que todos os anos tinham que deixar 27,5% do que ganhavam em favor dos falcões, já que estes não pagavam nada porque depositavam seus recursos junto a seus primos condores, bem grandes e fortes, em outras bandas.
E era assim porque tinha que ser. E os filhotes dos pardais que se lixassem, junto com seus pais. Os caçulas seriam presos dali para a frente. Foi feita a lei.

II

Mas tinha o Júnior, filho de um falcão governante muito importante, casada com uma socialite que era verdadeira locomotiva nas festas da comunidade. O Júnior sempre foi um problema: gostava de uns embalos, usava um tipo de bolinha que o deixava doidão e num estado como tal o garotão provocou um acidente: matou uma pardal velhinha quando voando tresloucadamente a derrubou do alto de uma árvore. A pobre senhora se esborrachou no chão e o Júnior completamente atordoado fugiu para sua casa lá no poleiro de ouro dos falcões.

III

Ocorre que já tinha a “lei dos caçulas”: podiam e deviam ser presos. O precedente “Zezinho” servia como paradigma. Os pardais pressionavam, ameaçando não mais recolher os 27,5% de impostos; mas os falcões rebatiam com seus portentosos bicos aquilinos: os pardais seriam trucidados se o Júnior fosse preso. Madame falcão junto com seu poderoso marido dizia: - O Júnior, não! Ele não pode ser preso. É apenas um menino problemático. Não é como aquele desqualificado do Zezinho, que nunca foi para a escola e fica vagabundeando pela rua. O Júnior, não! Ele está matriculado na melhor escola. Verdade que não passou de ano, mas isso foi em razão daquela viagem de três meses que ele fez junto com os priminhos filhos de nossos parentes que foram rever Paris. O Júnior, não!!!!

IV

Surgiu o impasse. Os pardais querendo prender o Júnior dizendo que a lei era igual para ele e o Zezinho Os falcões dizendo que não, que para o Júnior não podia haver prisão porque ele tinha todas as chances de se recuperar e não podia ter o destino do outro, um pobretão que somente as grades podiam afastar da comunidade.
A pressão foi grande, tão grande que madame falcão e as colegas do joguinho de “bridge” começaram a chorar. Choraram tanto que as lágrimas evaporaram e chegando aos céus formaram nuvens negras que resultaram num toró de lavar o mundo. E quando o aguaceiro caiu pegou os falcões todos reunidos para tentar salvar o Júnior. E de repente a água começou a mudar as coisas. Os falcões que tinham o bico encurvado e a pele prateada (e com isso intimidavam tanto os pardais) começaram a mudar de forma e de colorido. O bico ficou comprido e fininho; as penas ficaram pretas, sem brilho. Em resumo: os falcões não eram falcões na verdade, eram apenas corvos disfarçados.

V

Aí a comunidade dos pardais entendeu tudo. Entendeu porque o Zezinho tinha que ser preso e o Júnior não, embora ambos caçulas fossem. Entendeu que corvo não come corvo. Mas também entendeu que não existia falcão com bico poderoso e brilho falso: era apenas uma rapinagem disfarçada. Foi o começo da mudança em muita coisa.

MORAL DA HISTÓRIA: Legislar para os outros é fácil. Duro é encarar a realidade quando ela nos atinge. Ou, como disse Millôr:
"- Se a lei é igual para todos, para alguns ela é mais igual"...

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